Petrucia Camelo

PATERNIDADE: CARA OU COROA

Petrucia Camelo 13 de agosto de 2026

O significado da palavra paternidade, no sentido da fecundação do ser humano, cunhada em letras garrafais revestida em ouro, parece soterrado nas areias onde as águas do mar em movimento continuam a banhar-lhes a face sem precisar se é “cara ou coroa”, pois ora a soterram, ora a descobrem.

Mas nunca, como agora, foi tão necessária a sua permanência à flor da terra, em um tempo em que as crianças não se permitem ser elas mesmas, pois vivem às reviravoltas com as imagens brutalizadas que lhes são oferecidas, quer seja na própria família, quer seja no contato direto dos relacionamentos sociais, escolares ou no que expõem as redes sociais, ou, ainda mais, na permanência dos horrores das guerrilhas urbanas.

As crianças, com todos os sentidos abertos à comunicação, e sem saber se defenderem, como bem diz a psicanalista Françoise Dolto: sem serem dotadas da concha do caramujo para porem-se a salvo, necessitam, sobremaneira, do amor dos pais para protegê-las, que compreende a presença, o amparo psicológico e as responsabilidades convencionais assumidas, embora, infelizmente, existam aqueles que fogem à regra. Ignoram os reais deveres, não têm a consciência de que há um filho por amar, que é carne de sua própria carne e não veem um filho como presente de Deus.

Dentre as lembranças fortes e duradouras da infância, que acompanham a vida do ser humano até o túmulo, estão aquelas que um dia fizeram com que ele chorasse, ao ouvir o pronunciar de um não paterno, que, baseado em princípios, proibia o filho de dar passos em direção ao abismo; essas lembranças, à época da formação da personalidade, não foram de todo compreendidas, porém, no futuro farão ver como foram importantes para a formação. É claro que há abusos de poder paterno, que, apesar de serem execrados pelo tempo, também não são esquecidos, mas, sendo provenientes de uma mente sã, fazem parte dos excessos, que estão arraigados à natureza humana.

O indivíduo, dotado da consciência do valor que tem um filho, torna-se um modelo de pai que se volta prioritariamente para a educação e crescimento dos filhos, evitando que o mesmo adquira o hábito de se autodestruir e de destruir o próximo e de pô-lo em perigo constante no presente e no futuro. O pai que nutre de atenção a sua prole, ensinará os caminhos do preparo, do aprendizado, despertando-a para si mesma, conscientizando-a de que é preciso aprender para se desenvolver, até mesmo para se defender.

O ato de decisão para se ter um filho passa além da medíocre preocupação de tê-lo para não ficar sozinho, para ter uma companhia, para criar uma norma que poderá moldá-lo ao seu critério; essa intencionalidade é a mesma da vontade de se criar um animalzinho qualquer. É preciso compreender que um filho é um novo ser que traz na natureza a herança genética, a cultural e a apreendida no convívio familiar e social onde vive; é, entretanto, a princípio, um modelo inacabado, prestes a adquirir uma formação de base e acadêmica.

Vê-se aí a tamanha responsabilidade de gerar um filho, que está além, muito além da satisfação que causa a relação sexual. Um filho, muitas vezes, faz evoluir o sentimento paterno, pois faz amadurecer e entender que não é um sentimento de obrigação. Mais de amor paternal. Mas tudo é uma questão de princípios, que levam a entender que não é possível voltar atrás, que não há como se desembaraçar de tamanho compromisso, da disposição de enfrentar e superar dificuldades, de renunciar o infinito dos desejos, de contar passos na caminhada, de saber compartilhar o que se tem de si mesmo.

Construir uma família, não há como titubear, principalmente para o pai como presença masculina, é ensinar os filhos a ouvirem e serem ouvidos, dando-lhes o sentido de direção no apoio ao outro; é usar uma linguagem coloquial sobre o dia a dia, sem perder a confiança, o respeito, a autoridade, sem perder a posição do papel que desenvolve no clã familiar; como tal, é tornar-se um réu confesso, ao passar as experiências vivenciadas, por mais modesta que tenha sido a sua própria história de vida familiar. Esse comportamento tira-lhe os resquícios do mando sobre o futuro a ser gerado, equipara, é uma das atitudes facilitadoras, que promove, que aproxima na relação familiar.

Colocar filhos no mundo, dando-lhes a vida, é lutar para que eles sejam livres e responsáveis, mas isso não será o bastante, se você não os amar, não souber acolher, ouvir e não se der a si mesmo essa disposição que está inserida nos sentimentos nobres, como o amor paterno.