Petrucia Camelo
VIVER POR SI MESMO
Fazer hidroginástica é uma excelente recomendação médica, principalmente para aqueles que necessitam dessa terapia ou para os que levam vida sedentária. A hidroginástica, entre outras terapias, é também um reparador de articulações.
A água, é o canto que nos encanta, que flui corrente, que se derrama em fontes sonoras, que brilha ao sol, límpida, sobre leitos de rios, sobre pedras despencando em cachoeiras, fazendo florir as margens que ladeiam, energizando e irrigando a terra.
Esse elemento primordial à vida está sempre presente, quer seja em nosso corpo, quer seja nos elementos de nossa subsistência. A água não é somente a fonte; é o meio e o fim da existência humana e de todo o planeta.
Mas palavra puxa palavra, assim dizem os doutos; deixem-me contar um momento de descontração feminina dentro de uma piscina de hidroginástica: mulheres conversam animadamente na piscina de hidroginástica, no sitio Santa Terezinha, no bairro da Serraria.
Disse-me Maria Helena Pereira: “Petrucia, estou com esse braço doendo, parece um braço bichado”... Eu sorri pela comparação feita pela companheira de hidroginástica e logo lembrei-me do abacateiro plantado na entrada da minha casa, ao lado do portão, por onde passo diariamente, indo e vindo da labuta diária; ele se encontra em estado deplorável.
O abacateiro abastece-me de coragem para enfrentar o cotidiano, pois forçosamente tenho que passar por ele e olhá-lo, a princípio forte e produtivo, mesmo enfrentando intempéries, descansando ou produzindo a sua carga de frutos para entregar na safra.
Entretanto, de uns anos para cá, ele entrou em decadência, apresentando o caule e os galhos bichados, talvez deteriorados por pragas, como o cupim ou à falta de nutrientes, ou quem sabe o próprio registro de seu código genético que está determinando o seu fim. Até pedi clemência ao desembesto do vento para que ele não desabe.
Porém, o abacateiro, em seu estado deplorável, surpreendeu-me neste ano de 2003, com mais uma carga de frutos. Esse seu feito até lembra as mães desnutridas depauperadas que residem na periferia, no sertão, que são pele e osso, mas com as barrigas esticadas pela gravidez.
Eu não tinha a menor esperança de que o abacateiro ainda me desse uma nova carga de frutos. O seu expressivo desempenho, quase fez que me ajoelhasse ao seu pé para agradecer-lhe e pedir-lhe perdão pelo descaso com que o subestimei durante o ano de 2002.
O abacateiro deu-me uma lição de coragem, perseverança e persistência. Diante de tal adversidade, sobretudo me fez rever as considerações de Pierre Lévy sobre a vida: “Cultive o sentimento de existir em si e por si, fora de qualquer referência e de qualquer confirmação”.
Muitas vidas ao abacateiro!
Que ele viva a vida que a vida lhe doar!
Petrucia Camelo
Sobre
Petrucia Camelo é Assistente Social, nasceu em Viçosa-AL. Casada com o médico e escritor Arnaldo Camelo. Possui 14 livros publicados, dois livros premiados. Pertence a Academia Alagoana de Letras. Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Sócia da UBE-PE. Fundadora e Presidente do Clube Café, Vinho e Arte - CCVA.






