DR. ANTONIO CAMELO - In Memoriam
ENCONTRO NA CORTE CELESTIAL
Imaginemos, na corte celestial, um evento onde pudesse reunir: repentistas, poetas populares e eruditos, sonetistas, folcloristas, musicistas e tantos outros.
Presente, o folclorista Pedro Teixeira de Vasconcelos (1915-2010), lembrava de um encontro antológico entre os repentista Nego Bernardo, que era ateu, e o católico Mané Neném. No auge dos seus desafios, um olhou para o outro e disse: “Peguei-te Mané Neném/Agarrei-te pelas guela/Vou te fazer uma pregunta/Quero vê tu sair dela, / Me aresponda sem demora/Cuma é que nossa Senhora/Deu a luz e ficou donzela”. Mané Neném, calmo, pacientemente respondeu: “Bernardo, tú não tás vendo, / Acolá pela janela, / A luz transpassar a vidraça, /Sem ao meno quebrar ela, /Te arrespondo sem demora, /Mermo assim Nossa Senhora, / Deu a luz e ficou donzela”.
Também presente estava o poeta, escritor e imortal Cláudio Antônio Jucá Santos (1933-2022), que relatou sobre um encontro entre Rogaciano Leite (1920-1969), com repentista Aderaldo Ferreira de Araújo - Cego Aderaldo (1878-1967). Eles cantavam numa feira diante de uma plateia de belas caboclas, quando uma delas lhe perguntou: “Quem é esse cego que lhe acompanha?” Rogaciano entusiasmado respondeu: “Tô cantando com esse velho; é uma besta que carrego pelas feiras, esse velho que não dá mais pra nada, que tá todo enferrujado e que já devia tá na cama deitado”. Aí, muitos aplausos, correram o pires, ganharam dinheiro, muito bem! Enquanto isso, o Cego Aderaldo puxou a sua viola e respondeu ao insulto de Rogaciano: “Andei procurando uma besta, /Besta que fosse capaz, /De tanto procurar uma besta, /Encontrei esse rapaz, /Que nem serve para ser besta / Porque é besta demais”. Foi o fim da Cantoria.
O poeta e escritor Dr. Emanuel Fay da Mata Fonseca (1937-2019), participava acompanhado do violonista Jason Ramos que cantou sua música favorita dedicada a sua neta: “Emanuelle”. “Vem, Emanuelle sapeca/Vem brincar de boneca/Vem escrever no chão/O poema mais lindo/Na linguagem do sonho/Da beleza de Deus/No seu coração! ...”. Além do seu poema premiado: “Dois de fevereiro”. “Festa de Nossa Senhora da Piedade/ A rua cheinha de gente/ De barracas e palha/Defronte ao Grupo Escolar Rui Barbosa/ Ficavam as casinhas de refeições/Guisado de boi/Pé de moleque//Cocada/E café de sordado quentinho na hora! / Qui minina bunitinha/Deixe de incherimento viu!” ... Presente também a esse evento estava o poeta sonetista, Dr. Hamilton Carneiro (1930/2018) por sua vez, declamou: “Soneto do tempo”. “Passa o tempo, vertiginosamente;/Numa célere marcha incontida, / Avançam os ponteiros, loucamente, /Avança, loucamente, o mundo, a vida...”.
Jorge de Lima (1893-1953), o príncipe dos poetas não podia faltar a esse encontro, declamando um dos seus mais belos sonetos: “O Acendedor de lampiões”. “Lá vem o acendedor de lampiões da rua/ Este mesmo que vem infatigavelmente/ Parodiar o sol e associar-se à lua/ Quando a sombra da noite enegrece o poente...”.
Imagine quem também estava lá, Francisco Otaviano de Almeida Rosa(1825-1889), declamando o seu eterno poema “Ilusões da vida”. “Quem passou pela vida em branca nuvem, / E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça/ Quem passou pela vida e não sofreu/ Foi espectro de homem, não foi homem, / Só passou pela vida e não viveu”.
Finalmente quem encerrou esse grande encontro de celebridades foi nada menos do que Luiz Vaz de Camões (1524-1580), autor de “Os Lusíadas”, declamando o “Soneto 74”. “Amor é fogo que arde, sem se ver;/É ferida que dói e não se sente;/É um contentamento descontente;/É dor que desatina sem doer...”.
O dia raiou, o sonho acabou, apenas a saudade ficou.
DR. ANTONIO CAMELO - In Memoriam
Sobre
Médico, escritor e ex- político




