Alisson Barreto
O preço da polarização imediatista para o futuro do país
O preço da polarização imediatista para o futuro do país
A política atual está carregada de dois grandes eixos ideológicos, o petista e o bolsonarista, retroalimentados e, ao menos aparentemente, opostos. Mas duas questões não podem faltar: (I) por quê esses eixos crescem e se sustentam em polarização e (II) quais as consequências para o futuro do país.
A polarização no Brasil
Na análise desse fenômeno antropológico, que as escolhas pró-petismo ou pró-bolsonarismo[1]
alimentam-se da oposição, algumas vezes até mítico sofista. A oposição se dá de tal forma que boa parte da defesa do lado escolhido (quer no petismo, quer no bolsonarismo) se dá na acusação ao outro lado.
Tal empenho lança nuvem de fumaça a proteger a crença da própria bolha e, inclusive, falseamentos de verdades, como se pode observar na relativização de valores como veracidade e a moralidade segundo a qual os fins não justificam os meios. Afinal, convém recordar que muitos levantam bandeiras com termos como “verdade subjetivas” e “narrativas” em sentido de denegação da existência de verdades objetivas e descredibilização de informações obtidas por métodos científicos.
Outros pontos significativos a observar são o looping infinito da informação exclusivamente oriunda da própria bolha e a reação à contestação ao mito do lado escolhido.
Nesse sentido, é possível perceber que o medo do que aprendeu sobre o outro lado e a descrença em informações recebidas levam a apenas confiar nas fontes de informações oriundas da própria bolha. Ademais, há um forte empenho em levantamento de cortina de fumaça diante de críticas a exponentes da própria bolha, como se pode observar ao criticar exponentes de um determinado polo ideológico.
Quer fazer um teste? Critique Lula, em um ambiente petista; ou Bolsonaro, em um ambiente bolsonarista. Frequentemente, o petista defenderá Lula atacando Bolsonaro e bolsonarista defenderá Bolsonaro atacando Lula. Ora, a crítica à parede do vizinho não muda a cor da própria parede; mas é mais fácil atacar o outro polo que aceitar imperfeições em exemplares da própria ideologia.
Como se percebe a crítica à casa do vizinho encobre as inadequações da própria casa e isso não apenas dificulta a melhora da própria casa como torna o crítico refém da própria crítica. Além disso, revela que um polo se sustenta e se alimenta da existência do mito do outro polo, a força de um é retroalimentada pela presença do outro.
Das consequências para o Brasil no cenário geopolítico que se descortina
O problema é que essa disputa polarizada e encapsulada nas bolhas “ou lado A ou lado B” envereda pelo populismo e imediatismo dos resultados, prejudicando o desenvolvimento do país a longo prazo. Afinal, os lados altamente antagônicos tendem a atacar tudo o que é do lado ideológico oposto.
Disso, depreende-se uma consequência evidente: em tal quebra de braço, soergue-se a tendência do país a andar para o lado que, em dado momento, é mais forte, ainda que as consequências da geopolítica atual impliquem grandes riscos aos países cujas divisões internas fragilizem suas capacidades de enfrentamento a adversidades globais.[2]
Em outros termos, guardadas as devidas proporções, é como se, enquanto nosso povo se divide em pensamentos tribais, eclodissem expansões literalmente imperialistas[3]
em diversas partes do mundo. Imagine o que acontece com as tribos que só enxergam a própria rivalidade com a tribo vizinha, enquanto nos arredores expandem-se impérios como o romano, o persa, o mongol, o russo, o britânico de o chinês…
Já parou para pensar que talvez o mundo plural da ONU esteja por ser substituído por zonas imperiais impostas por dois ou três países? Será que os nossos minerais estratégicos[4]
serão real e justamente negociados ou algum país sob algum pretexto irá tomar conta e levá-lo pela força militar ou pela insuficiente capacidade nacional de transformar em lucro o potencial de tais minerais? Será que será o novo ouro trocado por espelhos ou o novo pau-brasil extraído até que seu povo não saiba como é a sua existência ou precise recorrer a livros para ver uma foto da árvore que deu nome ao seu país?
Após a “quebra de braços” da política atual, o brasileiro terá suas próprias indústrias, seus próprios alimentos e suas próprias inteligências artificiais ou trabalhará para que os frutos de seus suores sejam desfrutados do outro lado do oceano? Aliás, com o crescimento das novas tecnologias, será que o brasileiro estará preparado para novas opções de trabalho ou os trabalhos que surgirão estarão situados do outro lado do globo?
Mais que isso, convenhamos, será que as próximas gerações desfrutarão das novas tecnologias em paz ou o mundo já terá sido dominado por guerras expansionistas, no afã pela lei do mais forte? Há quem diga que o estado de bem-estar social está com os dias contados. Como iremos lidar com essas realidades?
Fica, pois, a reflexão.[5]
Maceió, 23 de maio de 2026.
Alisson Francisco Rodrigues Barreto
_____________________________________________
[1]
Leitura sugerida: Polarização política dinâmica: evidências do Brasil. Disponível em https://doi.org/10.1590/1807-0... Acesso em 23.mai.2026.
[2]
Para aprofundar o tema, sugestão de leitura: Political Polarization and Economic Growth. Disponível em https://www.researchgate.net/p... Acesso em 23.mai.2026
[3]
Sobre expansionismo imperialista, sugiro duas leituras: (I) a seguinte leitura: “Existem três impérios em expansão hoje no mundo: a China, a Rússia e os EUA”. Disponível em https://www.dn.pt/internaciona... Acesso em 23.mai.2026 e (II) O imperialismo contemporâneo. Disponível em https://aterraeredonda.com.br/... Acesso em 23.mai.2026
[4]
Para uma leitura sobre dados pertinentes a terras raras: RARE EARTHS. Disponível em https://pubs.usgs.gov/periodic... Acesso em 23.mai.2026
[5]
Como se pode perceber, sobre os temas aqui abordados, pesquisei com o Copilot alguns textos para aprofundamento e apresentei-os nas notas de rodapé.
Alisson Barreto
Sobre
Alisson Francisco Rodrigues Barreto é poeta, filósofo (Seminário Arquidiocesano de Maceió), bacharel em Direito (Universidade Federal de Alagoas), pós-graduado em Direito Processual (Escola Superior de Magistratura de Alagoas), com passagens pelos cursos de Engenharia Civil (Universidade Federal de Alagoas) e Teologia (Seminário Arquidiocesano de Maceió). Autor do livro “Pensando com Poesia”, escritor na Tribuna com o blog “Alisson Barreto” (outrora chamado de “A Palavra em palavras”), desde 2011. O autor, que é um agente público, também apresenta alguns dos seus poemas, textos e reflexões, bem como, orações no canal Alisson Barreto, no Youtube, a partir do qual insere seus vídeos aqui no blog.



