Petrucia Camelo
PRAZER DE AMAR
Para o ser humano se dar a conhecer, é preciso que se observem as características de sua expressividade, com elementos importantíssimos: observar e entender que cada indivíduo tem a sua própria natureza. Como bem se vê, o pássaro não é somente um pássaro com uma plumagem, um canto, um modo de acasalar e de procriar e tudo o mais que comporta a origem de sua espécie, mas, sobretudo, ele é um espécime que possui um jeito próprio de ser e de fazer, e de viver a vida às voltas com os componentes da cultura herdada e apreendida no decorrer de sua existência. São esses aspectos que auxiliam no alcance do bem-estar.
Um dos pontos nevrálgicos da convivência dos gêneros na condição humana está instalado no que dá prazer: quando não é bem executado, torna-se danoso e causa desencontros emocionais. Há uma necessidade expressa de se compreender a importância das variações do prazer na convivência humana; particularizando, cita-se o relacionamento sexual, o ponto nevrálgico das relações humanas.
O alcance da satisfação do prazer sexual, que nunca quis ser amor, indiferente aos seus receptores, diz que é uma necessidade orgânica, é um contentamento expresso, intenso e momentâneo, como se fosse um olhar que não se vê, um ponto cego do organismo interagindo numa fração de segundos como se sofresse uma contusão que nada vê e tudo sente; diferentemente do que ocorre com o prazer que causa o sentimento do amor, que não faz morrer o instante, ele é aliado do tempo, é um prazer completo e duradouro, e, como vai sempre adiante, é eternizado.
O amor interage na convivência dos gêneros humanos como um amortecedor, levando os indivíduos a se suportarem e a encontrarem soluções para os problemas a dois. Têm-se, então, próprios de cada indivíduo de ambos os sexos em seus relacionamentos, variações e interpretações do prazer emocional, que provocam mudanças de comportamento.
O gênero feminino, o ser-mulher, é interpretado como uma palma em flor: espinhos e cor devem despertar as atenções do pássaro. Porém, do processo não é somente o estudo da especificação teórica do gênero feminino que deve interessar, pois vai-se à outra preocupação: a cultura herdada e a pratica do dia a dia da convivência dos gêneros, principalmente a do domínio masculino.
O desassociado comportamento da cultura machista no trato com o feminino vai do mais simples exemplo ao aterrador: desde as discrepâncias: salarial, o tolhimento do desenvolvimento intelectual, social e profissional, até os mais aberrantes, como o que ocorre em certas culturas em que se extirpa o clitóris da menina, para que ela não possa sentir prazer sexual; raptam-se mulheres para servirem de escravas sexuais; mata-se a mulher por motivos fúteis, tolhe-se uma vida inteira em que prazer, maternidade, amor e seus harmônicos convergem na humanização dos seres (Dolto Francoise – Sexualidade feminina).
Essas observações não são fatos imaginários; são reais, que não são concebíveis a um mundo em pleno desenvolvimento voltado à tamanha deformidade, abominável no trato com o feminino. Há incontáveis mulheres, de todas as classes sociais, tolhidas no desejo de serem alguém com competência, com motivos ascendentes de desenvolvimento, no desejo do prazer de serem aceitas e amadas, não tão somente seres humanos subordinados a deveres sexuais, a tarefas domésticas exaustivas e massacrantes, a incompreensões e más interpretações pelo seu jeito de ser e de fazer, presas a limites de paredes que, apesar de floradas, servem de prisões psicológicas, afetadas por palavras, atos e omissões, nas mais variadas formas de opressões, que obrigam a mulher a aceitar todo o processo de castração que fazem com que viva.
Generalizando, a mulher ainda precisa do amparo familiar, espiritual, social, governamental, até mesmo para se defender, para que haja uma convivência suportável, aceitável dos gêneros humanos. Deve-se, ainda, acrescentar que é preciso que os indivíduos de ambos os sexos se preparem para estar abertos à rendição ao sentimento maior, para enfrentar as próprias ambiguidades. E bem próximo, o prazer de amar sempre estará. O amor não age como um guerrilheiro sanguinário, mas, sim, como um estadista; não pressiona, não dá ultimatos, não desconstrói; apenas dialoga para encontrar soluções.
Petrucia Camelo
Sobre
Petrucia Camelo é Assistente Social, nasceu em Viçosa-AL. Casada com o médico e escritor Arnaldo Camelo. Possui 14 livros publicados, dois livros premiados. Pertence a Academia Alagoana de Letras. Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Sócia da UBE-PE. Fundadora e Presidente do Clube Café, Vinho e Arte - CCVA.



