Petrucia Camelo

LÁGRIMAS DE MARIA

Petrucia Camelo 29 de abril de 2026

Sabe-se, segundo a lei da criação que, seja o que for que dá vida à matéria orgânica, um dia a abandonará, e no túmulo coisa alguma se mexe; apenas sobre o túmulo, ouvem-se a movimentação dos vivos, o sussurrar do vento a soprar as pétalas das flores, a apagar a tênue chama das velas e a secar as lágrimas da gente.

Entretanto, nesse aspecto, numa interpretação marginal, sobre o olhar religioso poder-se-ia dizer que há algo de extraordinário sob o domínio de Deus, Ele atende os rogos daqueles que Nele esperam, confiam, como bem se lê nos capítulos escritos pelos autores sagrados, que tratam dos arrebatamentos realizados por Deus, quando seres humanos foram elevados aos céus de corpo e alma.

E pode-se exemplificar, com a leitura do velho testamento, sobre o profeta Elias, e do novo testamento têm-se os capítulos sobre Jesus Cristo, que enquanto aqui viveram, palmilharam as atividades de suas condições humanas e em paralelo levaram a quem por escolha Dele os seguiu.

A crença no divino, mediante a propagação da fé no Pai e em nome Dele e de Sua lei, fez milagres extraordinários. Então se vê aí que, por consentimento de Deus, esses escolhidos, na condição humana, superam-se a si mesmos, elevando-se aos céus, alterando a lei da criação.

Como se crê, todo o poder emana de Deus. Suas providências nem sempre são de imediato, talvez porque espera que tudo seja consumado. Tem-se em Deus a certeza de que Ele age mesmo conforme as necessidades daqueles que invocam a Sua ajuda e que bem a merecem.

Deus age utilizando os seus próprios recursos, os já existentes, e os reinventa, comprovando o tamanho do Seu amor por suas criaturas e seu poder sobre todas as coisas, de tal forma que dá a impressão de que até mesmo Se permite transgredir as suas próprias leis, para atender aqueles que o merecem.

Como se vê a seguir: em Gênesis, dir-se-ia-se a primeira clonagem sobre a terra: Deus, preocupado com a solidão de Adão, retira-lhe uma costela e dela faz Eva. Claro, como se tratava de Deus, fê-la com maior e ilimitada propriedade sem comparação alguma com a que é realizada na ciência humana, que hoje inicia os seus primeiros passos.

Poder-se-á ainda dizer: em êxodo, faz o mar em seu leito se abrir para Moises; com o profeta Elias, deixa que ele bata com o seu manto sobre as águas do rio Jordão, que de imediato se separam e Elias e Eliseu passaram a pé enxuto; o profeta Daniel é salvo da cova dos leões famintos; tem-se a proteção de Deus às guerras empreendidas pelos senhores de exércitos, como o Rei Davi, e assim por diante. São inúmeras narrativas sobre a misericórdia divina, sendo necessário alterar as Suas leis.

Deus também mexe nos sentimentos que movem o ser. Por meio das junções da beleza de sua própria obra, altera, aguça, acrescenta-lhes o sentido, sente-se que pode até surpreendê-los, ou talvez as interpretações humanas que são dadas aos mistérios divinos, colocam Deus em dificuldade.

Poder-se-á ter essa imagem construída, por meio da leitura do Evangelho, ver-se-á a perplexidade de Deus diante de semelhante quadro: o debulhar das lágrimas de Maria, sobre os pés de Cristo, enxugando-os com seus cabelos e, ungindo-os com perfume, faz Cristo conhecer o amor humano, e fez que Ele, por meio do toque suave de Suas mãos sobre os pés empoeirados e cansados de caminhante, que até então somente o faziam, locomove-se à procura de lealdade, crença e comprometimento, em obediência ao Pai.