Petrucia Camelo

OUTONO — A ÁRVORE

Petrucia Camelo 06 de abril de 2026

Somos, apenas, espectadores da criação divina e, se mexermos em alguma coisa, toda a cadeia desmorona. ó, Deus! que desastres estão por vir? E do meu alpendre contemplo a exuberância que está ao derredor, em várias formas e nuanças.

Vejo as árvores, no outono em meio ao folharal no chão, incitando a minha vontade de dialogar sobre a vida, ter pensamentos sobre a persistência da natureza que nunca se cansa de perseguir o seu objetivo maior, manter sempre acesa a chama da vida, mesmo deixando-se influenciar pela qualidade do meio que resiste.

A vida esmorece, mas não agoniza no vazio; ela sempre reconstrói o seu percurso. Ainda que salguemos o solo, logo a vida irrompe na margem, recobrindo-a de brotos, continuando a presentear-nos com a peculiaridade dos seus saberes. A vida é sempre uma nova tomada de cena de um antigo roteiro, cuja atração principal é a persistência para atingir a perfeição.

E ali está a árvore, com ares de prosperidade, trocando de roupa, apresentando o seu empenho em dar o seu melhor, revelando a sua identidade. Olhando-a, podemos perceber toda at sua trajetória; das flores aos frutos, basta examinar as suas tendências para reconhecermos a sua natureza e o seu valor. Temos a certeza de que estamos diante de um produto acabado, de um objetivo alcançado, a plenitude da vida.

É quando o nosso espírito levanta-se para um brinde ao Criador, por Sua criatividade, pois Sua imagem se faz presente na memória herdada. E nesse momento de interiorização, leem-se as palavras de Santo Agostinho "Tu me criaste para viver e por isto eu Te conto a minha história"

E a árvore passiva, que não faz diferença e nem oposição, não reprime, portanto, não há embate com aquela criatura saltitante que voa, que entoa um canto e que logo se serve com bicoradas. A árvore, como se fosse programada para servir sem distinção, como se soubesse que os seus frutos são o motivo maior daquela visita cantante e que as pedras que lhe atiram jamais lhe atingirão as raízes, não exige perdão: é pura doação.

É como se a árvore entendesse a importância de seu papel na vida, manifestada por sua natureza, pois a sua expressão parece-nos revelar: tenha fé, e deixa fluir a natureza que te criou, és um sonho de Deus. Ó árvore, o que existe além de sua serventia, além de minhas fantasias? Mas deixe que eu volte à minha condição de dona de casa, para desparecer esta sensação de nulidade que me assalta, pois a chama de minha sensibilidade já se apaga.

A árvore agora sugere-me "mousse" de mangas!