Petrucia Camelo
O FEMININO SOB O OLHAR SAGRADO
Na historicidade do gênero feminino, temos como maior expressão a espécie humana, a mulher, por suas características de pensar, agir e de se autoanalisar. Porém, durante a sua trajetória no mundo, mediante inúmeros fatores de ordem social e cultural, a mulher sofre retaliações na interpretação de seus verdadeiros papéis, causando-lhe retrocessos, em especial empecilhos para o seu processo de desenvolvimento intelectual e profissional.
Alavancando empiricamente algumas das influências culturais que se supõem ter contribuído para o desenvolvimento do processo de desumanização da mulher, encontramos forte indícios no viés da cultura religiosa que segundo os estudiosos, é o referencial mais antigo da humanidade. Apesar das reticências, indagações, e inúmeras interpretações a religião contribui, influenciando decisivamente no comportamento humano, levando o pensamento considerado sagrado a gerações sucessivas.
Dessa forma, valemo-nos da leitura da Bíblia, o livro mais lido do mundo. E lá estar registrado o significado do feminino pelo olhar interpretativo dos escritores sagrados. No velho testamento no livro de gênesis, cap. 1,2 e 3, encontramos as primeiras influências discriminatórias à mulher: Deus, vendo a solidão de Adão, tira-lhe uma costela e dela faz Eva para ser a sua companheira, deixando bem claro, a posição de submissão da mulher, o seu patamar sob a dispensa do masculino. Supõe-se que a religião a partir daí, dividiu o mundo cristão em masculino e feminino, abrindo uma fresta para a desarmonia dos sexos.
Continuando com os relatos sagrados, deparamos a segunda tragédia imposta ao feminino: o relato do fruto proibido; o diálogo entre a serpente e a Eva, confabulando em igualdade de condição: a mulher comparada a um ser peçonhento, rastejante, símbolo da traição; história onde se condena Eva e se isenta Adão do pecado, além de ceifar o seu alcance ao conhecimento.
E Eva prossegue com a vida maculada de pecado e do peso da culpa; a ela foi vedado o direito de desenvolver-se intelectualmente, transferindo para a posteridade o infortúnio do seu legado. Portanto, ainda mais, acrescido da restrição de desenvolvimento intelectual, o que a mulher deveria saber era fazer o que agradava ao homem, tendo como base a procriação, amamentação, trabalhos manuais e serviços.
E o velho Testamento desvia a atenção do mundo sobre o poder intelectual do feminino, mantendo, por meio dos relatos, mais e mais, os prazeres do corpo de forma pecaminosa, onde a mulher é colocada como símbolo do ilícito. Em Sodoma e Gomorra, dá-lhe o sentido da simbologia da pedra de sal: Numa posição estática, condenada por ter olhada para trás.
Como se vê, a religião está na base do mundo masculinamente. Mas a vida não é retrocesso; cabe a nós e aos demais dos tempos futuros fazer às devidas reparações e dá uma nova interpretação a favor do feminino para as novas gerações; na tentativa de coibir a discrepância cultural que macula a integridade moral e intelectual da mulher, valendo-se esta das alterações que possibilitem as mudanças culturais por meio do que exprime capacitação para o desenvolvimento intelectual. E parafraseando o divino Mestre Jesus Cristo: ide e pregai entre homens e mulheres de boa vontade.
Petrucia Camelo
Sobre
Petrucia Camelo é Assistente Social, nasceu em Viçosa-AL. Casada com o médico e escritor Arnaldo Camelo. Possui 14 livros publicados, dois livros premiados. Pertence a Academia Alagoana de Letras. Sócia Honorária do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Sócia da UBE-PE. Fundadora e Presidente do Clube Café, Vinho e Arte - CCVA.



