Petrucia Camelo

CARNAVAL É ALEGRIA

Petrucia Camelo 11 de fevereiro de 2026

Diz-se que a alegria é um dom de Deus, porém não deve ser vivenciada à revelia da razão, pois a alegria exacerbada, descompromissada com a prática dos bons costumes, destrói a alegria que se há de viver. Então, faz-se necessário resistir a tudo o que a contradiz, até mesmo nos momentos de total descontração, embora seja às vezes difícil, mas, sabe-se que é possível, desde que se coloque à retaguarda a observância das sanções sociais, a fim de que se possa usufruir da alegria, o prazer de vivenciá-la.

O carnaval reporta o lado ficcional da vida, democrático, torna-se uma festa de alegria compartilhada, faz descer do pedestal em que se vive e faz ir para as ruas, em blocos de folia, apresentando a fantasia ou a camiseta à caráter. No carnaval não há controvérsia: é um jeito só, uma cara só, definindo como temas gerais os significados da liberdade de expressão, da espontaneidade, da criatividade, geralmente com aproveitamento dos fatos em evidência, acrescentando-lhes o lado cômico.

De modo que, no carnaval, a diferenciação está na individualidade, na personalidade com base na origem social, cultural, e o que disciplina é a natureza do folião. Mas, nem mesmo aí, no mundo do carnaval, o ser humano descansa, não para de se reinventar.

As máscaras vêm expressas no passo carnavalesco, configura-se a si mesmo, como se fosse uma personagem de múltipla face, apresentando mil disfarces. Fazendo-se depositário das saudades dos momentos momescos do passado e do presente, faz-se de sonho e de realidade, permitindo, assim, atualizar o universo vivenciado numa dupla situação.

Sobre a historicidade do carnaval, dentre outras, tem-se o que escreve a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz em seu trabalho, Carnaval brasileiro: com o subtítulo- o vivido e o mito. Em seus estudos, relata que há uma conotação no histórico no carnaval, distribuindo-o em três etapas de existência: a primeira, que iria até o fim do período imperial, considera-a como entrudo, caracterizado como uma tradição de origem portuguesa; a segunda, denominada de grande carnaval, de inspiração europeia, em especial parisiense, teria sobreposto ao entrudo, estendendo-se até o final da década de 1920; a terceira etapa, a da ascensão de um certo “carnaval popular”, quando as tradições dos negros, que estiveram excluídas das etapas anteriores, fizeram-se presentes na festa, dando forma ao carnaval das escolas de samba que conhecemos hoje.

No entanto, à época, os literatos não viam o carnaval como uma festa de todas as classes sociais, como Artur de Azevedo, seletivo, via com desgosto a fantasia e as máscaras usadas no carnaval de rua por pessoas de classe social inferior, que faziam um carnaval de troças e provocações, e afirmava ele em meio à agitação da folia em 1890: uma máscara é coisa detestável”. (O carnaval das letras, 2 ed. Campinas, 1968).

Mas, mesmo inserido nas brumas do tempo, o carnaval não perde as suas características, ainda anda bem representado por seus foliões. Apenas por ser um fato social, sofre inovações, mas sempre estruturado de acordo com a herança cultural, que estabelece certa diferenciação ao se interpretar o mundo do carnaval, podendo comprovar-se nos panoramas de eventos carnavalescos que apresentam as grandes cidades brasileiras, como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.

Nessas metrópoles, o forte são os desfiles das escolas de samba defendendo temas que lavram os assuntos de grande repercussão apresentados sobre carros alegóricos, contando com a participação de belas personagens como mulheres seminuas e de figuras de destaque no cenário nacional, que, por meio de desfiles apoteóticos, sempre submetem-se a uma avaliação, onde são atribuídos as notas de acordo com os critérios estabelecidos pelas escolas de samba.

Em pauta, carnavalizando de dia e de noite, passando a impressão de que o povo está feliz, o carnaval leva o folião aonde estão os motivos da alegria. A movimentação do frevo: no Rio de Janeiro vai em frente no sambódromo, com os carros alegóricos e as alas representativas de acordo com os temas abordados, puxadas pelo samba enredo; com os estandartes de blocos de rua; Os foliões extravasam a alegria desenfreada do carnaval sob o comando do toque de instrumentos de sopro, de músicos populares numa marcha constante pelas ruas dos bairros e às vezes, pausados nos bares às margens ribeirinhas e na orla marítima, enchendo os ambientes de cor, de barulho, musicalizado de marcha, frevo, de samba, alcoolizados, abraçam-se, gritam, cantam, dançam geram uma alegria extravasante; há o riso “de tudo”. O folião é sempre um sol aparente.

Os visíveis excessos no carnaval são previsíveis, porém não são tratados como significativos, mas, sim, com certa permissividade. São vistos como uma válvula de escape dos recalques provocados por momentos de total descontração, que emergem de um mundo obscurecido pelo cotidiano, de modo que, não havendo atos extremos de violência e vandalismo, está tudo certo; entrega-se ao rei momo as providências cabíveis.

Na quarta-feira de cinzas, no silêncio do retorno, a máscara da realidade cai como uma luva. No asfalto, o carro alegórico parado, quebrado, abandonado, vilipendiado pelo vento, pelos delinquentes, forma uma imagem contundente da intensidade das emoções vivenciadas nos dias carnavalescos, realizada sem nenhuma preocupação com o que pode acontecer. O que interessa é a alegria do carnaval, é a liberdade dos dias de folia, que sempre envolvem e voltam às ruas no carnaval, com a pretensão de fazer o folião esquecer as tristezas, as lutas do cotidiano.