Petrucia Camelo

AMOR, SENTIMENTO NOBRE

Petrucia Camelo 22 de janeiro de 2026

Não cabe, aqui, uma análise pormenorizada sobre o amor, pois pensar o amor é entender que é tema que não se encerra e nem se exaure, mas se podem arriscar algumas observações sobre esse imensurável sentimento nobre, que brilha como ouro em qualquer escuridão, pois, quando se ama, ama-se o todo, ama-se por completo; ele não separa em partes o que ama e não se diz amor, o amor que convém; o amor faz o que pode com o que tem à disposição; criativo como o artesão, não extingue o conteúdo com o qual se apresenta; apenas deixa por conta da forma de amar.

O amor, às vezes, não mora na racionalidade, pois traz momentos de dominação sobre os sentidos; precisa ser ponderado. Não se deve esquecer a frase popular com a intencionalidade que contradiz! "O amor é cego", que tenta justificar as ações catastróficas dos que amam sem medida, que se entregam a toda a sorte de violações, que passam a ser vítimas ou algozes quando o pseudoamor passa a não ver, a não querer saber. Quando o amor vê, o amor e são, portanto o amor não pode ser cego às advertências, aos limites; o que o amor traz, precisa ser lido nas entrelinhas, como faz o garimpeiro a peneirar o cascalho na busca do ouro.

O amor não condena; ele observa, age como agente reparador; ele restaura, faz aparas, tenta dar forma ao que muitas vezes é disforme; talvez seja a sua persistência em querer moldar a natureza do ente amado, que não faz com que ele vá embora. O amor é um preparo, um processo para plantar com largueza, sem esperar colher breves reconhecimentos; o amor espera no tempo ser reconhecido e acatado. "O amor se conquista na luta e no sacrifício" (Mons. Ascânio Brandão).

O amor não destrói a natureza do hospedeiro que o detém. Da fúria leonina: a incapacidade, a intolerância, a incompreensão o provocam, fazendo com que ele se sinta um titã, dando um sentido épico às atitudes e comportamentos, diante dos ultrajes e sofrimentos, sugerindo mudanças em seu receptor. Equilíbrio, paciência e confiança são componentes preciosos nessa batalha. O amor é como o ouro: possui parte valorativa que brilha na cor amarela, branca, vermelha... Mas o verdadeiro e puro amor é o que resplandece incolor, imensurável, é o amor de Deus por suas criaturas.

O amor humano, permissivo a falhas, embora não exista guia seguro que possa orientá-lo para a perfeição, sente antes de ver; incólume, passante em meio a multidão, não se perde; segue uma direção, como se houvesse uma atração gravitacional, infiltra-se num corpo e bebe com ele a distância, mas sabe que há um limite além do qual não pode ir.

Crédulo, o amor esbarra na vidraça que separa o sonho da realidade a visibilidade apenas deixa que ele veja uma gota d'agua que rola vidro abaixo. Têm-se em Ribeiro Couto versos que tentam interpretar o amor: "Meus vagos olhos de passante/pousaram em ti, levemente/. Onde estava o amor? Mais adiante? / Lá longe, atrás? Ali presente? / E fui pelo caminho adiante, / Recordando-te inutilmente, / Ó flor, que sorriste ao passante”.

O amor entre o poeta e a inspiração, hipoteticamente, limpa-o como se estivesse a adorná-lo com amor dado de graça ou a peso de ouro; não desbota o tempo, não o corrói; pelo contrário, torna-o ouro velho, preso em páginas amarelecidas nos versos sobre a qualidade da rocha, cujas águas batem e não a destroem, traduzindo o poema. É como se ele estivesse a confeccionar as guirlandas de Puck, ou como o canto do amor materno de onde jorram lágrimas, dor, leite e alegria. Desse amor, o fruto tem o mesmo destino dos versos: é entregue ao mundo.

O amor mora nos limites da razão, recluso em sua liberdade de estar rodeado de jardins, de flores solenes, de rio que passa, pássaros que cantam e alçam voo, de sorrisos de encantamento. Muitas vezes se contenta em apenas olhar o lume que ilumina à noite, ou ainda em sentir o cheiro dos jasmins, da relva molhada que serve de bálsamo para a dor da folha caída. E o canto do vento, que entremeia a folhagem, o faz cavaleiro a cavalgar em corcéis fogosos, sob um céu estelar, mas muitas vezes, de braços dados com a solidão.

O amor, sob o prisma humano, não deve ser um sentimento egoísta, a dois; uma solidão a dois seria, então, os gêneros acometidos do amor partilhado, do amor humano sobre falhas humanas. Seria o amor, então, um amálgama na relação humana? O amor não é um sentimento delirante; é profundo e tenaz. A poeira embebida na queda, pelo peso da cruz, fez com que Jesus Cristo conhecesse as pedras do caminho do Gólgota mais de perto, aumentando-Lhe a necessidade de perdoar os que dilaceravam o Seu corpo. Ele foi acometido do verdadeiro amor, o amor à humanidade.

O amor é, portanto, um sentimento piedoso, misericordioso. Além de travestido de tolerância, paciência, esconde cestos de perdões em cada caverna que ladeia o rodapé da montanha onde ele enterrou diamantes.

O amor humano toca flauta com anjos e querubins, mas desce ao inferno, de quando em quando acompanhado pelo deus Dionísio, porque não há alguma ciência que faça o ente amado não o contradizer; somente a crença de que há orações que venham em socorro do grito abafado das horas incertas, que traga a certeza de que não vai acabar o que já recrudesce, que faça parar a música interior, que viaja nas horas determinantes, procurando encontrar o inexplicável. O amor é pedra preciosa, como o ouro, o diamante em estado bruto, soterrado; espera por quem o garimpe, lapide-o pela vida, afora.