Enio Lins

Chuvas de Verão e Bye Bye Brasil: dois clássicos e suas alagoanidades

Enio Lins 14 de março de 2025

ENCERRANDO A PROGRAMAÇÃO “O Brasil de Cacá Diégues”, o Cine Arte Pajuçara exibe dois filmes marcantes: “Chuvas de Verão” e “Bye Bye Brasil”. Duas obras-primas. Vale a pena rever de novo.

VEJO “CHUVAS DE VERÃO”, de 1978, como o mais cativante, o mais romântico, dos filmes do nosso conterrâneo. A estória se passa num subúrbio carioca, centrada nas vidas vividas da hoje chamada “terceira idade”. Vale para qualquer lugar do mundo, a qualquer tempo. A velhice como ela é, sem concessões, sem pessimismos nem ufanismos, muito menos demagogias do tipo “a melhor idade”. A velhice de quem se recusa a morrer antes da hora. Tema universal, mas – como sempre – Cacá introduz Alagoas, de alguma forma, em qualquer trama. Esse encaixe salta aos olhos no elenco, onde o papel principal masculino é de Jofre Soares, na pele do “Seu Afonso”, setentão aposentado e relaxado. Outros alagoanos na fita? Sadi Cabral (como “Abelardo”), Emmanuel Cavalcanti (“Cardoso”) – isso sem contar com a alagoanidade atávica de Carlos Gregório (“Paulinho”), carioca de raízes fundas em Olho d’Água do Casado.

DESDE QUE ASSISTI “Chuvas de Verão” pela primeira vez, encasquetei que a estorinha que estressa o casal “Geraldinho” (Daniel Filho) e “Dodora” (Marieta Severo) teria sido inspirada em resenha circulante em Maceió no começo dos anos 70. Conversa que ouvi, entre meus 13 e 15 anos de idade, várias vezes, contada pelos adultos de forma mais ou menos apimentada, a depender de quem relatava. Era assim: Uma senhora (da classe média ou classe média alta), desconfiada das ausências do marido, um conhecido garanhão, passou a investigar o dito cujo. Descobriu que ele havia adquirido móveis caros, que nunca foram entregues na residência de ambos. As narrações eram unânimes no nome da movelaria, “A Colonial”, loja vistosa localizada então na Rua do Comércio, vindo da Rua do Livramento, quase defronte ao Café Ponto Central. Apois a senhora em questão visita a loja, consegue descobrir o endereço para onde seu cônjuge destinou as peças, junta um pequeno grupo de voluntários, e parte para flagrar o consorte infiel, em ato com a amante, no tal ninho de amor, e... Esse roteiro, e o resultado da ação, conforme fofocado em Maceió, há quase 50 anos, são idênticos aos do filme. Pode ter sido coincidência.

“BYE BYE BRASIL” é de 1979. Segue um encadeamento repetido em “Deus é Brasileiro”, 24 anos depois: Enredos ambientados em mais de um Estado, iniciando em Alagoas e daqui partindo em viagens panorâmicas Brasil afora. No caso de Bye Bye, o filme principia em Piranhas, passa por Maceió, Murici... e segue longo trajeto para o Norte, findando no Planalto Central. O elenco alagoano tem Jofre Soares como o astro mais conhecido (como Zé da Luz, o projetor de cinema mambembe), além de Emmanuel Cavalcanti (no papel do prefeito da Piranhas), e viventes locais com experiência cênica, como Zé Márcio Passos. Um dos episódios marcantes, e o mais conhecido, se deu quando da explosão do aparelho de TV da praça pública, no centro de Murici, num atentado “terrorista” cometido por Lorde Cigano (José Wilker) contra o instrumento que roubava o público, antes cativo, da trupe do Circo Holliday. Na real, o contrarregra se enganou na quantidade de pólvora e colocou a mais. Daí, na hora H, voaram pelos ares cacos de vidro, plástico duro e madeira, em volume suficiente para causar pequenos ferimentos na multidão de extras, entre os quais se encontravam ícones da cultura alagoana como Linda Mascarenhas, Pedro Teixeira, Anilda Leão, Ronaldo de Andrade, Homero Cavalcante. A cena ocupa generosos dois minutos da película, entre 23’52” e 26’02”. E ainda hoje é comentada.

OUTRA PASSAGEM RELEVANTE, mas pouco reconhecida, é a efêmera participação de Dalvo Lima, no papel de um velho sertanejo, pai do sanfoneiro Ciço (Fábio Júnior), em cena aos 13’04”. O personagem não fala nada, apenas aparece, acocorado à porta da casa de taipa, ouvindo o filho dizer que vai seguir com o circo: “Quero conhecer o mar, pai; o rio já não chega para mim”. O velho, em close, calado. Corta. Uma ironia que talvez Cacá desconhecesse no momento: Dalvo Lima era o maior conversador das ribeiras do Velho Chico, loquaz contador de estórias com repertório inesgotável, quase todas situadas no cangaço que ele jurava ter vivenciado (pura liberdade poética, pois ele chegou ao Sertão em 1940, dois anos depois da morte de Lampião). Boêmio, bom de violão e cachaça, falava mais que o homem da cobra. A médica e escritora Rosiane Rodrigues se lembra dele, dentre tantas passagens, descrevendo detalhadamente “a mordida que Guarani, o cachorro da comadre Maria Bonita, me deu”, exibindo uma cicatriz na perna, marca real, mas sem nenhum traço de dentes de cachorro ou de qualquer outro animal.