Enio Lins
Caso X: Uma vitória expressiva da liberdade de imprensa e do direito à informação

Perdeu, playboy: Elon Musk engatou a marcha-à-ré. Agora o ex-Twitter é ex-bloqueado. Segundo a mídia, a rede social do multimilionário sul-africano/canadense/americano voltou a funcionar no Brasil depois de atender a todas as determinações do Supremo Tribunal Federal. Não posso atestar, pois – apesar de inscrito lá – raramente uso essa plataforma. Mas confio nos veículos que noticiaram o fato. Trata-se de uma tremenda vitória da cidadania, da constitucionalidade, da dignidade, e da soberania nacional.
LIBERDADE X LICENCIOSIDADE
Em primeiro lugar, é uma vitória da liberdade de imprensa, do direito de opinião e à informação. Esses direitos não podem ser confundidos com os delitos da calúnia, difamação, injúria e desinformação. Com o agravante que estamos discutindo a prática de crime organizado, posto a atual indústria de notícias falsas ter se transformado numa máfia internacional que movimenta fortunas ao manipular a opinião pública, e cujo sucesso mais amplo está ligado ao desrespeito das leis nacionais. Quando qualquer país no mundo se assume como ente soberano, e cobra de quem atue em seu território o cumprimento das leis, está não só se afirmando enquanto nação independente, mas contribuindo para a democratização internacional, barrando formas novas do velho colonialismo – agora também digital. Quando o governo dos Estados Unidos, em janeiro deste ano, bloqueou o Tik Tok em todo território americano, ninguém no mundo ocidental argumentou que se tratava de um “atentado à liberdade de comunicação”, ou um “crime contra o livre-comércio”. Pois é, pimenta no X dos outros é refresco.
LIÇÃO BRASILEIRA
Não é apenas no Brasil que o X de Musk desrespeita as leis. Informa a BBC: “Atualmente, o X também enfrenta questionamentos na União Europeia e já foi alvo de decisões judiciais ou governamentais em países como a Índia, e na Turquia, onde o X também acabou cedendo. Na União Europeia, por exemplo, o X foi acusado potencialmente de ‘enganar’ seus usuários ao conceder um selo de verificação de contas mediante pagamento”, e denunciado por “facilitar a divulgação de conteúdo ilegal e fake news”. Na Austrália, as rasteiras que o ex-Twitter tem tentado dar nas decisões judiciais locais levaram ao primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, a chamar Elon de “bilionário arrogante”, em declarações publicadas em agosto deste ano, pela ABC News, onde complementou: “Musk pensa que está acima da lei, mas também acima da decência comum”. Na Ucrânia, por incrível que possa parecer, Musk trombou com o direitista presidente Volodymyr Zelensky num caso em que o X pode até ter razão (enquanto opinião), mas que remete à mesma questão do cumprimento das leis locais. A lição brasileira, inédita seu desdobramento, é muito importante para o mundo, por comprovar a viabilidade de sucesso no enfrentamento de forças bilionárias que se consideram acima das leis e da soberania dos países onde atuam. Os tempos de tragédias como as Guerras do Ópio não podem se repetir, nem como farsa. Como se sabe, entre 1839 e 1860, nações ocidentais lideradas pela Inglaterra declararam guerra à China, por duas vezes, para garantir o livre comércio e consumo da droga naquele país.
Essa vitória da Justiça brasileira não pode ser comemorada de forma ingênua, entendendo esse recuo do playboy do X como gesto definitivo, pois a política da desinformação continuada, organizada, é uma estratégia tão criminosa quanto lucrativa. E o desrespeito às leis é fator definidor para a multiplicação dos lucros em qualquer segmento mafioso.
Enio Lins
Sobre
Enio Lins é jornalista profissional, chargista e ilustrador, arquiteto, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Foi presidente do DCE da UFAL, diretor do Sindicato dos Jornalistas, vereador por Maceió, secretário de Cultura de Maceió, secretário de Cultura de Alagoas, secretário de Comunicação de Alagoas, presidente do ITEAL (Rádio e TV Educativas) e coordenador editorial da OAM.



