Enio Lins

RELIGIÃO, ARTE, TURISMO, EMPREGO E RENDA

Enio Lins 07 de abril de 2023

Obviamente, acompanha o cristianismo, desde os primórdios, a celebração da Sexta-feira Santa; mas, talvez tenha se perdido no tempo a cronologia das modificações dessa compreensão e das formas celebrativas que esta data tem desde o ano 33 da nossa era.

SEGUINDO O CALENDÁRIO JUDAICO


Um exame mais detalhado deverá indicar, nessa linha do tempo, vários momentos de separação entre os ritos judaicos e cristãos; mas, ao longo desses 1.990 anos, foi mantida a velha marcação baseada na Torá, no calendário – lunar – judeu.

Como o seminal calendário judaico assinala o tempo pelas fases da lua, e como a Páscoa judia relembra que a passagem (fuga do cativeiro no Egito) do povo hebreu se deu na lua cheia do mês de Nissan, essa referência se fixou. A lua indica o dia certo.

Nissan é o primeiro mês do calendário judaico, tem 30 dias, é o “mês dos milagres” e, vertido para o calendário cristão lunissolar, conforme estabelecido pelo Papa Gregório XIII, corresponde – em 2023 – ao período entre 23 de março e 21 de abril.

Resquício de quando o cristianismo era uma seita judaica, a quinta-feira santa deve cair na lua cheia, pois Jesus, como bom judeu, celebrou a Páscoa Judaica sob a lua cheia do mês de Nissan do ano de 3.760. Segundo os Evangelhos, foi a noite da Santa Ceia.

Em 2023 (ano cristão) a lua cheia do mês de Nissan (ano judeu de 5783) é em 6 de abril. Simples, não? Fantástico, pois a história humana conserva as digitais dos povos ao longo do tempo e aqui se fundem, novamente, duas religiões totalmente diferentes.

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO PELOS EMPREENDIMENTOS


A Sexta-Feira Santa sempre teve a paixão das artes, não só na pintura, escultura, arquitetura, literatura, mas especialmente nas artes cênicas. Se Fazenda Nova, em Pernambuco, inovou em termos de grandeza, em todo Brasil, desde antanho, se encenava a Paixão.

Ainda sob uma lua semicheia, o teatro ao ar livre repisou e repisa, séculos a fio, a Via-Crúcis. Em Alagoas, muitas eram as encenações, em várias cidades, se destacando Arapiraca, com seu Morro da Maçaranduba, Coqueiro Seco e Santa Luzia do Norte.

Há alguns anos, em projeto viabilizado pelo então deputado Givaldo Carimbão, foi erguida a Cidade de Maria, replicando – em escala bíblica – a experiência de cenografia em céu aberto que consagrou a pernambucana Nova Jerusalém.

Por sua vez, a Cidade de Maria, erigida em Craíbas, Agreste alagoano, é a materialização do sonho de um notável personagem da cultura popular, João José, que morreu muito antes de poder ver de pé, pedra sobre pedra, as muralhas da Jerusalém craibense.

Pois é, o turismo religioso é uma das formas mais antigas de bons negócios nessa área. Peregrinar aos locais sagrados é cláusula pétrea em todas as religiões, e redes de pousadas brotaram às beiras das trilhas de devoção desde tempos imemoriais.

Os caravançarais árabes floresceram com o crescimento do islamismo, acolhendo caravanas rumo à Meca, enquanto nos idos de 1099, a chamada Regra de Santo Agostinho (354 – 430) inspirava pousadas para peregrinos cristãos em Jerusalém.

MOEDAS UNGIDAS, AMÉM

Roma, Jerusalém e Meca são os maiores exemplos de turismo religioso. E na Cidade Eterna, a alta-estação é a Semana Santa, com incontáveis atrações por toda parte, sendo o ponto alto a Via-crúcis palmilhada pelo papa que estiver ocupando o Trono de São Pedro.

Patamar máximo no circuito católico, a Via Dolorosa em Roma, ou em Jerusalém Velha, é para poucos, e bem aquinhoados. Mundialmente, se destacam a celebração em Praga, e nas Filipinas pregam voluntários em cruzes, atraindo multidões.

Fiquemos nas experiências brasileiras, ainda modestas se comparadas com aquelas Santas Semanas mais esplendorosas do “grand monde” católico. Em solo brasileiro, Fazenda Nova ainda é a cabeça de chave – nossa Craíbas ainda está no grupo de acesso.

É importante Alagoas investir na retomada de seus polos turísticos religiosos, pois isso – em qualquer lugar do mundo, para quaisquer crenças – significa emprego, trabalho e renda; e a Semana Santa, em suas encenações, têm forte tradição local.

Entre as vítimas da pandemia de Coronavírus, o teatro ao ar livre e suas aglomerações, quase teve fim, mas não morreu, foi para a UTI e agora já é hora de voltar à ribalta. Como esse ano a Semana Santa já passou, é hora de preparar a próxima.


Cidade de Maria, 2016




Morro da Maçaranduba, 2015