Gerônimo Vicente

A história do estádio Rei Pelé contada por quem ajudou a construir

Gerônimo Vicente 25 de outubro de 2020
[caption id="attachment_407346" align="alignleft" width="300"] Estádio Rei em construção em 1970 (Enciclopedia Fape)[/caption]             Antes de iniciar. Parabéns ao majestoso estádio Rei Pelé, o Trapichão, pelo meio século de existência. Foi neste gramado que dei o pontapé inicial como profissional de jornalismo na condição de repórter de um jornal semanal chamado “Extra”, editado pelo jornalista João de Deus e que serviu por seis meses como suporte político na campanha de 1986 para o governo do Estado e candidaturas proporcionais. Lembro da minha primeira cobertura do jogo entre CSA x Palmeiras, no dia 5 de outubro de 1986 pelo Campeonato Brasileiro, primeira divisão que terminou com vitória do azulão por 1 x 0 gol de Nívio, A equipe  tinha um timaço com Zico (goleiro), um meio-campo formado por Coca, André e Nívio e os atacantes Ditinho e Carlinhos Paulista, todos sob o comando de Walmir Louruz. O Palmeiras tinha o meia Mendonça, o atacante Mirandinha, o goleiro Martorelli e o volante Gérson Caçapa, comandados por Carbone. O público deste jogo foi de 19.821 torcedores. Eu era possuidor de um vasto material sobre a construção do Trapichão, inclusive de  uma Enciclopédia com  fotos sobre o processo de elevação do estádio. Porém, tudo isso  foi deixado na casa onde morei no Mutange e essa altura creio que já não existe. Contudo, ainda tenho guardado comigo, vários depoimentos do engenheiro Vinícius Maia Nobre que publicou uma série de artigos quando o estádio completou  30 anos de existência no ano 2000. A obra do Trapichão para mim sempre representou um fascínio. Eu era criança, tinha apenas oito anos quando surgiu  essa história de se construir um estádio de futebol em Alagoas comparável aos grandes como, Maracanã, Mineirão e Morumbi.Em uma cidade onde era visível as  casas de palhas e palafitas em quase toda as partes, um elefante de concreto parecia ser coisa incompatível com a miséria exposta de norte a sul da capital alagoana. Seria a primeira grande obra com apoio do governo militar em Alagoas que depois foi seguida pela Ponte Divaldo Suruagy e inserida no chamado “Milagre Econômico”, recursos provenientes de  empréstimos internacionais. Lembro dos bingos transmitidos pelo rádio, sempre aos domingos à noite onde casas construídas nos arredores da obra, carros e caminhões eram sorteados.Recordo-me  ainda que o jogo entre Seleção Alagoana x Santos foi o assunto da semana, entre os alagoanos, que antecedeu o 25 de outubro de 1970. A série de  artigos do engenheiro Vinícius Maia Nobre que eu havia guardado e  que resgatei neste domingo (25) traz história do estádio, os fatos inusitados,  as piadas, tragédias, desafios e  até  uma questão política que volta e meia é assunto na guerra ideológica  a que assistimos nos tempos atuais.Em dois domingos, pretendo expor as considerações do maior responsável pela engenharia desta imponente  obra do templo esportivo alagoano.   A obra  do Trapichão virou sala de aula  para os alunos  do curso de Engenharia da Ufal, porque o professor Vinícius Maia Nobre não queria deixar de lecionar durante o período de construção. “Foram três turmas  concluintes  que tiveram a oportunidade de acompanhar  as mais diversas etapas da obra”, depôs o engenheiro.Com autorização da Fape, um canteiro se tornou uma extensão da universidade.Em 15 de março de 1968 foi concretada a primeira sapata. Em toda obra, foram consumidos  250 mil sacos de cimento, alguns deles importados da Rússia. Um volume de 30 mil metros cúbicos de concreto foi aplicado na superestrutura do estádio. A quantidade de aço chegou a 3500 toneladas do tipo especial. Ainda não passava pela cabeça do pessoal da engenharia o uso do suporte metálico de segurança dos trabalhadores e as tábuas e estroncas de madeira eram o material utilizado para garantir um trabalho seguro e que era reaproveitado quando uma etapa estava pronta e deslocado para outra área em construção. O engenheiro conta no artigo que um carpinteiro em tom de gozação alegou tomou um susto ao receber uma reclamação de uma tábua que lhe disse: “mas logo eu que já passei pelo setor 1,3 e 4 e já tinha passado pela fundação do2. Tenha pena de mim, não me serre mais..”. Os avisos eram feitos por sistema de alto falante com operários sendo dublê de locutor.Vinicius no seu primeiro artigo lamenta o desaparecimento de cinco volumosos livros com nomes de visitantes. O projeto foi do arquiteto fluminense Marcos Khair que incluiu a arquibancada reta, chamada grande arquibancada e, assim de início a capacidade projetada era para 50 mil espectadores. O indústrial Napoleão Barbosa, presidente da Federação da Indústria de Alagoas tinha a missão de controle geral da obra. O escoramento da obra foi feita por 55 torres de madeiras com mais de 30 metros de altura e, no momento do desescoramento surgiu, segundo Vinícius Maia Nobre, a primeira vaia no estádio. “Havia um nervosismo natural. Coloquei os engenheirandos em forma como assistentes privilegiados em local seguro na pista de atletismo. Escolhemos 44 operários mais afeitos e treinados para retirar as cunhas dos apoio das onze torres. Ao comando único de “vá, vá, os operários batiam nas cunhas que tinham 5 centímetros de altura correspondendo à flecha imediata, naquela situação da marquise. Na extremidade descia um cabo de aço fino. Descem as onzes torres praticamente iguais. Ouvem-se vários estalidos  na madeira seca e presas uma às outras. Um dos operários não contém o medo, larga a marreta e sai correndo pista afora. Ouve-se  a primeira e estrepitosa vaia no Trapichão e temos também  o primeiro campeão dos 50 metros rasos.”, contou o engenheiro. Ameaça de paralisação Os bingos, realizados nas arquibancadas prontas do estádio, mantinham financeiramente a obra, mas mesmo assim havia escassez de recursos do Estado e do governo federal sob o comando dos militares. O ministro da Justiça que editou o AI 5, Luís Antônio da Gama e Silva chegou a visitar a obra e mesmo atestando a seriedade da construção autorizou somente a realização de mais três bingos. Segundo Vinicius Nobre foram essenciais a interferência de Segismundo Cerqueira e Carlos Breda que  expuseram o caso a Murilo Mendes, secretário estadual da Fazendo que,  por sua vez levou a dificuldade de continuação da obra  ao governador Lamenha Filho. Diante da pobreza do estado de Alagoas, Lamenha ficou em situação difícil em autorizar a obra, mediante outras prioridades como saúde, educação e moradia, mas resolveu decidir pela continuação da construção usando uma frase em latim e atribuída ao imperador Nero “Panem et Circensem” (pão e circo) e a obra que custou 12 milhões de dólares à época foi concluída. Além do prosseguimento da construção outro fato foi fundamental para  a concretização do Trapichão. Em uma visita ao estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, também em construção chegou-se à  conclusão de que a capacidade seria bem maior chegando a 70 mil espectadores. Deste encontro participou o industrial Napoleão Barbosa que segundo Vinícius Maia Nobre, levou de presente ao então presidente do Internacional Ruy Tedesco um pente de tartaruga, mas não chegou a presenteá-lo,  porque  o homem  era complemente careca. Por falar em careca, o engenheiro responsável  conta outro fato inusitado que ocorreu  com o engenheiro da Ceal, Itamar Barros que  ao visitar com um grupo de profissionais da área  a marquise teve sua peruca arrancada por uma das estacas. O gramado é um dos bem drenados do país. "Sabíamos a cota do campo, o nível do lençol freático o quanto de aterro ao redor do campo. O gramado foi plantado em dois meses e a grama foi importada  da Inglaterra a “bermuda-green”. Quase uma centena de operários foi empregada nos serviços de peneiramento, mistura e preparo do solo. Mais de uma tonelada de grama foi utilizada e dava gosto observar  como os canhões aspersores irrigando, iam dando vida àquele gramado, considerado  como um dos melhores do país do futebol”, disse o engenheiro. Em toda obra, Vinícius Maia Nobre somente discordou de uma coisa: o nome dado ao estádio. O engenheiro dizia que Rei Pelé deveria ser o nome  dado à Vila Belmiro, à cidade de  nascimento do rei do futebol Três Corações-MG. “Deu tanta importância ao seu nome no nosso Trapichão que aqui só veio uma vez no dia da inauguração ( o artigo de Vinícius Maia Nobre foi escrito em 2000 e Pelé visitou o estádio na reinauguração em outubro de 2015). Seu clube, o Santos cobrou a mais alta  taxa  entre todos os que participaram dos jogos inaugurais e ameaçou não jogar caso não recebesse em espécie e antecipadamente a cota acordada. Muito mais justo seria o nome daquele que deu tudo de si para realizar o sonho de muitos alagoanos, se expondo às maledicências dos seus opositores como avalizando operações financeiras em horas incertas para a sua cobertura: Napoleão Barbosa”, declara Vinícius Maia Nobre em artigo publicado no dia 23 de julho de 2000. em 2015.