Rívison Batista

31 de julho de 2017

O frio

O frio tomou posse da noite, enveredou-se pela madrugada junto com a chuva e os dois causaram estragos. O homem dos trópicos, pouco acostumado com o tempo fechado, subestimou a natureza e pensou que a cidade fosse indestrutível. Mas o homem dos trópicos, assim como o ser humano de qualquer região, comparado à natureza, não passa de uma formiga prestes a ser esmagada por uma pisada. As galerias pluviais e os esgotos, altamente poluídos, fizeram a cidade transbordar. As luzes apagaram-se, porque as instalações elétricas não suportaram a enchente. O ser humano com água na cintura, carregando uma criança de três anos no braço, tentando não cair em algum bueiro aberto e sem visão alguma às três da madrugada, deseja ao menos ser um vagalume, para iluminar um caminho mais seguro. Mas nem o dom do inseto da luz a pessoa possui, então vai caminhando devagar, arrastando o pé para sentir se a próxima pisada pode ser fatal. Depois, se passar por esse desafio, vai correndo a um posto de saúde superlotado para fazer exames médicos e ver se não contraiu leptospirose ou alguma outra doença transmitida pela sujeira. Pela própria sujeira do homem, que começa com o desvio de dinheiro público, passa pela falta de educação (ou ingenuidade) de achar que acúmulo de lixo nos canteiros de vias não é nocivo e termina com ruas inundadas. A inconsequência dos homens dos trópicos é parecida com o rio que enche, engolindo as famílias que se assentam ao redor. Não era apenas a água que transbordava, era a agonia, o desespero, o despreparo, a pressa e, por fim, o choro, que vinha aos montes para somar mais água à tragédia. 

A região, que, comumente, sofria com estiagens prolongadas, agora experimentava uma chuva torrencial diária que nunca fora vista. Senhor Simplício, com 85 anos de idade, balançava-se na cadeira da varanda ainda presenciando a rua enlameada, resultado da cheia do rio, que, por sua vez, originou-se nas chuvas anormais. Entre uma tragada e outra, mais para se aquecer do que pelo vício do fumo, pensava: “Nunca vi algo dessa natureza. O senhor Jesus Cristo que perdoe as malfeitorias dos homens. Se bem que água demais assim está sendo bom para as terras secas. Que chova mais pra lá então, porque minha casa quase foi levada pelo rio”. Enquanto a cabeça do idoso enchia-se de receio, o céu acima dele começava a ficar negro de novo, enchendo-se com nuvens escuras. Era meio-dia quando um trovão anunciou que as chuvas tinham fôlego de sobra para continuar, após uma pausa pela manhã, que, mesmo sem cair uma gota d'água, foi cinzenta e fria. Um jovem culto, antenado com a internet e pesquisador dos mais variados assuntos, mandou uma mensagem para um amigo através de um aplicativo de smartphone. “A mitologia viking  prevê um apocalipse congelante chamado Ragnarok. Será o tal do fim do mundo nórdico que assola estas terras? Odin reina agora pelo Nordeste antes seco? Talvez Antônio Conselheiro esteja, em algum lugar, feliz, assistindo o sertão virar mar. Estariam Conselheiro e Odin brindando com cachaça o nosso tormento?”, digitou o rapaz. O frio intenso batia à porta da população e, para quem não tinha porta para bater, era mais violento. Carros de reportagens apressaram-se a chegar mais ligeiro do que o IML para filmar e fotografar os corpos de dois moradores de rua que faleceram devido às condições climáticas congelantes. A frieza os atingiu em todos os sentidos. 

“A informação é que os dois faleceram por hipotermia. Segundo a polícia, eram usuários de entorpecentes e praticavam furtos na localidade. Não há familiares deles na cidade”, disse a repórter, trajando um casaco volumoso. Quando a câmera desligou, pegou um espelho para ver se a maquiagem estava no lugar e se despediu dos agentes do IML com um largo sorriso, enquanto eles já carregavam um dos corpos na “bandeja”. Parou perto do carro de reportagem, esticou o braço com o celular na mão, fingiu um rosto sério e fez a selfie. Pôs nas redes sociais e colocou a legenda: “Tragédia nordestina”. Ganhou muitos likes, ‘carinhas tristes’ e mensagens de ‘luto’. Uma criança via de perto os cadáveres e a remoção dos agentes com naturalidade. Era mais um ser humano onde o frio começava a brotar no peito. “Foram tarde”, disse o pai do menino. Futuramente, o garoto veria cenas de homicídios como se estivesse assistindo a um filme policial. O vento forte soprou, misturado com pingos d'água, e os moradores apressaram-se para dentro das casas, deixando de lado o espetáculo cadavérico. A chuva caiu impiedosamente e as ruas começaram a encher. A água adentrou pelas casas, foi subindo como uma serpente que mata lentamente a vítima e chegou a um metro e meio de altura. Os moradores subiram nos telhados. Alguns idosos desapareceram. Quando a água baixou, depois de algumas horas, a lama deixava tudo uniforme: televisões, sofás, armários e roupas. Para um povo que tinha tão pouco, agora não tinha quase nada. A comunidade começou a limpeza com vassouras e baldes. Mais dois corpos foram encontrados na praça. Causas das mortes: afogamento e choque elétrico. Senhor Simplício observava tudo atentamente, balançando-se na cadeira. O sol irrompia entre as nuvens e a luz refletia nos olhos cansados dele, tornando-os num tom castanho claro. Dias depois, o prefeito da cidade fez um discurso emocionado na praça, lamentou as mortes e foi aplaudido de pé.

 

*Rívison Batista é jornalista (obs.: os personagens citados acima são totalmente ficcionais)

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