Gerônimo Vicente

11 de abril de 2021

A falta que faz um plano global de comunicação social sobre a pandemia

Não há no mundo  exemplo tão evidente de desorganização no controle e combate à pandemia do que no Brasil. As instituições públicas, responsáveis direta ou indiretamente pelo combate e controle do Covid-19, estão fracassadas e seus representantes resolveram priorizar disputas de interesses políticos  ou financeiros, a despeito do número de mortes diárias no país, que na opinião do  jornalista Reinaldo Azevedo representa a queda de 25 boeings todos os dias em  diferentes partes do país. Na semana passada, assistimos, na Corte Máxima do Judiciário (STF) a uma situação, no mínimo inusitada e no momento em que milhares morriam à espera de uma UTI, quando a interpretação espiritual  abriu contenda contra a  Constituição  numa referência à polêmica sobre a abertura dos templos religiosos. 

Contudo, desde  o limiar dessa doença desgraçada que percebo desencontros de informação oficiais que, na minha opinião, certamente, contribuíram para chegarmos a um estágio degradante e que se tornou mais grave pelo fato de que o poder público está nas mãos do negacionismo.

Fazendo e analisando um retrospecto da pandemia, analiso que faltou um plano global de comunicação social para ajudar  a difundir as informações sobre a doença, diante do bate-cabeça das autoridades sanitárias nacionais baseadas em decisões do epicentro do controle que é a OMS. De início e, talvez devido à  localização comunitária das primeiras  infecções, os demais países ignoraram  os casos diários que ocorriam nas cidades chinesas. Apenas um mês depois das primeiras mortes, a OMS enviou técnicos para acompanhar a situação. No entanto, Wuhan, localizada na província chinesa de Hubei, já dava lições ao Mundo instituindo lockdown total com fechamento de transportes, comércio, indústrias e escolas, obrigando o uso de todos os EPI (equipamentos de proteção individual) possíveis pelos profissionais de saúde para evitar contágio. As autoridades chinesas agiram rápido na assistência com  ao construir de hospitais para salvar vidas em tempo recorde. Até o sábado, no local ápice da pandemia, haviam ocorrido 4512 mortes e  68154 casos de Covid-19, um dos mais baixos números atualmente,

Somente quando as infecções atingiram o sul da França e o norte da Itália, causando estragos de vidas em Bergamo e Milão,  é que as atenções da OMS se voltaram para  o coronavírus e, daí, surgiram as colisões informativas entre  pesquisadores na área infecções e microbiologia e que terminaram refletindo no comportamento de parte da população mundial ao lidar com informações equivocadas entre as quais destaco:

        1 Recomendação inicial sobre  o não uso de máscaras: nos primeiros três meses dos contágios no  globo terrestre, a Organização Mundial de Saúde recomendou que somente as pessoas com sintomas ou profissionais de saúde se utilizassem de máscaras. As demais deveriam se distanciar uma das outras para evitar infecções. O caso fez promover uma situação contrária à que é vista atualmente.  Uma pessoa que, espontaneamente, usasse máscara era vista de forma preconceituosa se estivesse aglomerada a outras sem proteção. Isso passou a significar que elas estavam diante de um infectado e se afastavam do suposto doente. O  Ministério da Saúde no Brasil chegou a disseminar essa informação, vinda da própria OMS e somente se desfez do equívoco em 27 de abril de 2020, quase dois meses depois das primeiras infecções e mortes em nível local. O vice-diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Jarbas Barbosa, abordou o tema durante coletiva de imprensa virtual. Segundo ele, a ciência mostra que o uso de máscaras cirúrgicas é recomendável para pessoas que apresentam sintomas e aquelas que estão cuidando de um paciente com COVID-19, além dos profissionais de saúde. Wuhan já tinha  estimulado o uso de EPI por toda a população e profissionais da saúde, mas a entidade mundial pareceu ignorar essas recomendações asiáticas. Desde o fim da primeira Guerra Mundial que os asiáticos têm por hábito utilizar máscaras, tanto devido à radioatividade gerada pelas explosões de bombas, como pelo alto índice de poluição da atividade industrial. Doenças como a Influenza que alcançaram Japão e China no início da primeira década do ano 2000 também foi fator estimulador do uso do equipamento. Quem viaja ao exterior se depara com essa utilização de proteção facial  entre a comunidade asiática, como  cuidado sanitário, principalmente nos idosos. Até hoje, não entendo a razão de o equipamento ter sido descartado no início da pandemia e vi na recomendação uma fonte inicial de contágio.

  1. Trata-se apenas de uma gripe – pessoalmente nunca acreditei nessa versão, até porque não via como habitual  a morte de mais de 2000 pessoas por uma mesma doença  em um mês, como ocorreu em Hubei, na China. Mas essa informação da “gripezinha” circulou entre as autoridades sanitárias nacionais e internacionais, foi retransmitida  à população  pela mídia e aproveitada pelo presidente da República para  negar a pandemia e estimular as pessoas a seguir a vida em ritmo normal. O mercado econômico e financeiro também contribuiu para disseminar essa informação. Basta lembrar do caso das “apenas 7 mil mortes” calculadas pelo dono do restaurante Madero, Junior Durski.
  2. Testes rápidos, vistos como gastos excessivos: Um detalhe na relação entre a Covid-19 e as ações de combate do Ministério da Saúde é que a pandemia em março de 2020 mudou o comportamento do então ministro da Saúde, Henrique Mandetta em relação aos seus propósitos na Pasta. Mandetta havia sido escolhido por Bolsonaro para privatizar  o Sistema Único de Saúde (SUS) e chegou a ensaiar essa ação, antes e durante a pandemia. Porém  Mandetta foi tratado pela mídia como o ministro mais sensato do governo federal, viu-se como herói e teve que mudar de comportamento ao vestir a jaqueta do SUS. Contudo,  no final de março, a opinião de Mandetta avançava um dia e recuava no outro, depois de pressionado pelo Planalto e, em uma dessas ocasiões, chegou a afirmar que os testes rápidos não seriam úteis para todo mundo ao orientar os governadores a conterem os gastos. Àquela altura, o exemplo vinha da Coreia do Sul que por meio de testes rápidos conseguiu identificar a população infectada e tratá-la.
  3. Jovens são menos suscetíveis à doença.”Cuidem dos pais e dos avós”:  O estudo de epidemiologistas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres inclui a faixa etária até 20 anos com pessoas com menos riscos de contrair o coronavírus, mas a informação oficial não detalhou esse fato, de forma que a equivocada interpretação sobre a pesquisa atingiu também aos que tinham até 40 anos, o que os estimulou a se sentirem imunes ao coronavírus. O quadro hoje se mostra diferente até do estudo oficial anunciado, quando se vê jovens na faixa etária estudada como vítimas de variantes agressivas da Covid-19.  Mandetta nos momentos iniciais chegou a recomendar a todos os  jovens a cuidarem dos pais e dos avós, praticamente, dando  à juventude um sinal de que a imunidade existia a favor deles.

Infelizmente esses reparos informativos tardios custaram a vida de 2 milhões .920 mil e 537 de pessoas (dados de domingo -11/04) e 135 milhões 30 mil, 164 casos de infecções, sendo 351.334 mortes no Brasil. O exemplo de desencontros de informação revela que a inteção de  informar a população de forma transparente sobre  tragédias  deve ser  de modo homeopáticos e ainda assim prevalecendo  também a desigualdade sócioeconômica até em tomadas de decisões por  entidades protetoras dos cidadãos, inclusive  em momentos de  agonia.

 

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