Gerônimo Vicente

28 de março de 2020

Tabagismo pode ser parceiro da Covid-19 em parte das mortes na Itália

 

Em julho do ano passado visitei a Itália, mais precisamente, a capital Roma. Antes de viajar  contratei um serviço de transfer, que é um chamado de automóvel com motorista que fica a seu serviço para tour pela cidade ou para deslocamento do local de hospedagem até o aeroporto ou vice-versa. Os anúncios desse tipo de serviço trazem carros de marcas consideradas de luxo no Brasil. São comuns na Europa, em atividades de motoristas por aplicativos ou por transfer serem utilizados automóveis de marcas  que no nosso país são acessíveis apenas à elite, mas que na Europa são, costumeiramente, utilizados no cotidiano de turistas e  nativos. Porém diante de toda comodidade, o desavisado pode se deparar com  um motorista fumante, daqueles que evaporam fumaça na sua cara. E foi este modo que fui recepcionado pelo condutor que levou meu grupo familiar até o Centro da capital italiana. Como não fumo e considero o cigarro uma das drogas mais maléficas à saúde do ser humano, essa foi a minha primeira má impressão dos italianos. A segunda foi o trânsito louco da cidade.

Optei por esse serviço devido ao desembarque no aeroporto Leonardo Da Vinci, distante 40 km de Roma, ser pela madrugada, horário em  os  trens estão parados e os ônibus levam 1h30min para se deslocar ao Centro. Em um trecho  do aeroporto até o estacionamento de, aproximadamente 500 metros levei umas dez “baforadas” do condutor de uma  van Mercedes Benz que somente lançou o resto do cigarro ao lixo bem próximo do automóvel. No trajeto comecei a imaginar que tal comportamento fazia da cultura do italiano e,  não estava errado. No outro dia, durante passeio no Centro histórico da cidade, minha imaginação da noite anterior foi concretizada. O veto ao uso de cigarro se resume aos restaurantes ou as trattorias, como os italianos chamam os  restaurantes de comida caseira. Nas ruas, é comum pessoas conversando e cada uma dela com um cigarro na boca ou na mão. Foi então que o índice de “baforadas” na cara  aumentou progressivamente. Outro fato que me chamou a atenção é que, se no Brasil a cada esquina há uma farmácia, em Roma em cada cruzamento há uma tabacaria.

Com mais de 10 mil mortes por coronavírus e a maioria das vítimas com pneumonia e doenças crônicas, como diabetes e cardiopatia, lembrei desse episódio e, embora não sendo especialista no assunto, tentei associar o  tabagismo aos problemas respiratórios que resultaram dezena de milhares de perdas de vidas por Covid-19 em todo o país europeu.

Antes de transformar essa imaginação neste texto, consultei sites italianos sobre tabagismo e os conteúdos informativos atestaram minha desconfiança. Segundo o Centro Europeu de Dependência e Drogas, a  Itália também fica em evidência na questão do fumo precoce, sendo o país em que se acende o primeiro  cigarro antes dos 13 anos da idade, segundo pesquisa de 2015. No país mais afetado pelo Covid-19 existem 11,6 milhões de fumantes, 22% da população acima de 15 anos. Há 7 milhões de homens que fumam e 4,5 milhões de mulheres. Entre os estudantes de 14 a 17 anos, 11,1% e 13,4% ocasionalmente fumam. “Um terço a mais dos fumantes positivos do Covid-19 teve uma situação clínica mais séria do que os não fumantes na admissão e, para eles, o risco de precisar de cuidados intensivos e ventilação mecânica é mais do que o dobro – explica Roberta Pacifici, diretora do Centro Nacional de Dependências e Doping do ISS (Instituto de Saúde Sanitária).

Embora existam Centros Anti-Tabagismo em todo o país e o número gratuito 800 554088, as tentativas de parar de fumar vêm diminuindo nos últimos anos no país, mas ainda está muito longe. A Itália possui 21% de sua população fumante, enquanto o Brasil tem 10%. Esse  percentual do nosso lado diminuiu bastante nos últimos anos graças a legislação mais severa. Talvez essa diferença de percentuais tenha causado meu espanto.

Estudos recentes realizados na China indicam um aumento significativo de três vezes no risco de desenvolver pneumonia grave por Covid-19 em pacientes com histórico de uso de tabaco em comparação com não-fumantes. 

Porém, mesmo em quarentena quase total na capital italiana, uma das desculpas apresentadas pelo italianos para  estar nas ruas é que sairam  para comprar cigarros, fato que pode não gerar multa, pois se trata de compra de mercadoria, segundo reportagem publicada no site Roma Today. Ainda não há regra na Itália  que proíba o uso de cigarros nas áreas livres. Em Milão, região da Lombardia e a mais afetada pelos contágios do coronavírus, uma medida para impedir uso de fumo em locais públicos está em andamento mas  o prazo para que a lei seja totalmente cumprida é longo demais: até 2030.

Para se ter uma ideia  do que representa o tabagismo na Europa apresento um vídeo publicado pela Agência France-Press e que  mostra uma cena comum  mesmo com o distanciamento social na França, um  país onde há mais fumantes  que na Itália, com um percentual de 28% da população francesa. Viciados  em cigarros  cumprem uma  fila quilométrica, em plena quarentena, para comprar o produto em uma tabacaria de Paris.

 

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