Gerônimo Vicente

24 de janeiro de 2021

 Na formação de Maceió, a população foi lesada pelos anúncios  de tratamento precoce nos jornais

O assunto da semana que  rivalizou com a chegada da vacina foi o “tratamento precoce”, uma  recomendação auto-terapêutica tão medieval que foi mencionada por Giovanni Boccaccio, o escritor italiano e autor de “Decameron”, obra  escrita entre  1348-1353  e que narra a peste na Itália, em 1348. Descrevi parte do texto de Boccaccio neste espaço,  em 4 de abril deste ano em DOIS RELATOS LITERÁRIOS QUE NOS SERVEM DE ALERTA  EM TEMPOS DE PANDEMIA

Contudo, não é preciso ir tão longe para mostrar como é insana a sugestão dos chamados  negacionistas. Tratamento precoce significa, no ponto de vista de quem o recomenda,  que o  paciente  deve  se automedicar antes de ir ao médico, como se ele já soubesse o diagnóstico do que está sentindo. A prática foi muito aplicada na época colonial, no Brasil Império e início da República, quando havia poucos médicos no país.

Por acaso, encontrei alguns desses raros exemplos em jornais maceioenses  do período imperial, ocasião em que Alagoas havia poucos anos se tornado província. 

O período  pesquisado  foi entre 1866 a 1920, fase em que dois tipos de doenças assolaram o estado em todos os seus pontos extremos: as epidemias do cólera e da gripe espanhola. Para suprir a falta imunização de doenças como diabetes, coqueluche, difteria e todas as endemias respiratórias, a solução era a oferta de remédios milagreiros, tanto caseiros como estrangeiros vendidos nas s farmácias e recomendados pelos proprietários, considerados  os mais entendidos em medicina na época já que o número desses profissionais, por exemplo em 1866, era maior que o de médico. Segundo o historiador do início do século 20, Manuel Diegues Júnior, nessa época só havia em Maceió sete médicos, entre eles, Francisco Dias Cabral, mais tarde prefeito da cidade e Tomáz Espíndola, também escritor, historiador, advogado e jornalista.

 Os medicamentos vindos do exterior chegavam por meio dos navios que atracavam no porto de Maceió, principalmente os  franceses, cuja tripulação trazia cargas de  misturas químicas garrafais com promessa de cura de todas as enfermidades possíveis e  que eram despachadas, diretamente para os estabelecimentos farmacêuticos da então pequena cidade.

O livro Uma Associação Centenária, de Moacir Medeiros de Sant’Ana, de 1966,  refere-se a Maceió de 1866 como uma localidade com 2196 casas, 1696 de telhas e 500 de palhas. Não havia serviço de limpeza e cada morador era responsável por limpar a porta de sua casa, sendo sujeito à multa caso não fizesse. Os dejetos humanos eram carregados em barricas por escravos e enterrados nos fundos dos quintais ou lançados no mar.  Ocorrendo incêndio,  moradores da vizinhança eram obrigados  a apagar ou enviar escravos para essa missão. Se um patrão  não  indicasse  seus servos seria multado em quatro mil réis. Esse quadro de miséria era um  convite às moléstias de qualquer espécie e uma forma  de levar consumidores desesperados às farmácias, já  que os hospitais não se destinavam a pobres e negros da época.

Foi  nessa  condição insalubre da cidade que se estabeleceu o que hoje se chama de tratamento precoce em Maceió e os anúncios nos principais jornais da cidade eram a melhor forma que o farmacêutico, José Francisco da Silva Braga, formado pela Escola  de Medicina da Bahia encontrou para estabelecer a “empurroterapia”  para evitar mais doenças. Ele montou uma botica (loja de produtos químicos e medicamentos) na rua do Comércio, número 214. Além de Braga, Cláudino Falcão Dias já havia montado a Pharmacia Imperial. No final do século 19, havia drogarias em abundância no corredor da Rua do Comércio, como a Pharmacia Central. a Brazil. Calmon e Cia O Extrato de Leite Virginal indicado para enfermidades como boubas, cravos e doenças venéreas era considerado o principal “tiro e queda” da época.

Eram em jornais como, O Progressista, Gazeta de Notícias, o Alagoas,  O Papagaio, Diário do Povo, Jornal de Alagoas e Diários de Alagoas que  a propaganda fazia a festa. Um deles referia-se ao Ferro Ozonado, recomendado como medicamento  contra a Erisipela e quem vendia era a Farmácia Fidelidade. O Puritol,  prometido contra as impurezas do sangue, era garantia de cura radical e rápida. O Pó Dentifrício Medicinal Jaquelin, servia  para dores de dentes. A garrafa de  Vinho de Marsa, do doutor francês Moucelot, para reconstituição e regeneração do organismo enfraquecido e no combate ao sangue enfraquecido era a carga farmacêutica estrangeira com desembarques frequentes. Outro remédio francês anunciado foram as pílulas de Quinium e  de Ferro Dialysé, do doutor H. Viven, de Paris, orientado para as febres intermitentes, raquitismo, gastralgias

Para as moléstias pulmonares uma infinidade de medicamentos milagreiros era indicada, insistentemente nos anúncios de jornais. Eram feitos no Brasil  e os fabricantes brasileiros, para vender seus produtos, aproveitavam para atacar os considerados os “detoxes” estrangeiros denunciando como prejudiciais à saúde. O xarope indicado pelo doutor Carlos Bettencourt  prometia uma ação mágica contra a asma, refluxo, tosse de qualquer natureza, bronquite e  catarro crônico. Já o  peitoral Louro Silvestre era outro medicamento contra a coqueluche e bronquite. O Rob Antiboubático também tinha ação mágica. Mesmo com todas essas recomendações, centenas de milhares de  alagoanos foram acometidos pelo cólera e pela gripe espanhola e morreram durante o período aqui citado. No caso do cólera, a situação foi tão gritante que Alagoas foi destaque no  jornal New York Times.

 Uma  situação que  não difere muito do kit-Covid, estimulado pelo Ministério da Saúde que foi tirado de circulação pela justiça na semana passada.

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