Gerônimo Vicente

28 de junho de 2018

Maceió foi refúgio de dois técnicos da Canarinho em momentos distintos

Desde quando a Copa do Mundo de Futebol passou a ser transmitida ao vivo para todo o Brasil, em 1970,   as atenções da imprensa e dos torcedores concentraram-se na formação da equipe e no comando técnico. Na Era do rádio,  poucos viam ou sabiam quem era o treinador da Canarinho, a não quem tinha acesso a jornais e revistas esportivas. Contudo, a partir da transmissão dos jogos pela televisão, o comandante técnico do Brasil  passou a ser visto de formas diferentes em dois momentos distintos: o da conquista e o do fracasso.

Assim ocorreu com Zagallo, em 1970, conhecido como jogador com dois títulos e  que se consagrou ao se tornar tricampeão. Esse sucesso não se repetiu em 1974, quando o alagoano resolveu tomar um chá de sumiço, ao ser desclassificado, na segunda fase pela “Laranja Mecânica”, nome dado à seleção da Holanda. Situação idêntica, porém  mais grave, ocorreu com Cláudio Coutinho, treinador da seleção de 1978 que somente reapareceu em 1981, porém morto depois de um afogamento no Rio de Janeiro durante uma pesca submarina.

Uma  desclassificação  da seleção em Copa do Mundo, inevitavelmente, provoca isolamento  na vida de um treinador que busca encontrar um refúgio em local, onde poucos possam encontrá-lo. Em caso de conquista da taça, o treinador estende a comemoração por alguns dias, por meio de contatos com torcedores, familiares e conterrâneos.Maceió foi refúgio em   situações diferentes de dois técnicos da seleção brasileira: um idolatrado antes e apelidado de pé-frio depois do insucesso. O outro   teve uma fase festiva que durou longo meses. Como jornalista, acompanhei esses lados opostos  vividos por Telê Santana (1986) e Mário Lobo Zagallo (1994).

Telê Santana morreu em 21 de abril de 2006 sem nunca ter conquistado uma Copa do Mundo, mas a equipe que formou em 1982 e disputou a competição na Itália (Zico, Sócrates, Falcão, Oscar, Eder, Junior, Cerezzo  e outros craques) o credenciou para voltar ao escrete canarinho em 1986. Na minha opinião foi o melhor técnico do Brasil em todos os tempos.

Ao ser desclassificado pela França nas quartas-de-finais, na Espanha, no jogo em que Zico perdeu um pênalti no tempo normal e a seleção  foi derrotada nas penalidades, Telê Santana, dias depois resolveu se refugiar. Toda imprensa buscava uma opinião de jogadores e do treinador sobre  o insucesso da equipe. Contudo, a maioria dos atletas voltou para Europa e Telê também evitou holofotes por três anos.

Eu era repórter  de Esportes do Jornal de Alagoas, em 1986, no meu primeiro ano de jornalismo,  quando, por acaso, descobri que a praia do Francês, era o refúgio de Telê Santana. Não estava a serviço do jornal,  na ocasião, mas do Ministério da Educação de onde era funcionário. Acompanhado de cinco técnicos de Brasília fui almoçar no povoado de Barra Nova, em Marechal Deodoro. Ao final, os colegas pediram para conhecer a famosa praia alagoana. Era início de agosto e no meio do mês anterior, o Brasil havia sido eliminado da Copa da Espanha.

Ao estacionar o carro, o motorista achou um homem parecido com o técnico da seleção brasileira e disse:

       – aquele cara parece o Telê Santana!

       –E  é ele, disse eu.

Telê Santana estava acompanhado da esposa e dois filhos e quando  me apresentei como jornalista ele reagiu. 

         -Não é possível.Vocês me encontraram até aqui.

Minha intenção não foi fazer uma entrevista, mas saber como estava o técnico, dias depois  da derrota na França. O treinador alegou estar bem. Disse que tudo o que ocorreu com ele e a equipe era águas passadas e que não queria falar mais em seleção brasileira. Também alegou não estar procurando clube naquele momento, pois precisava descansar por um longo tempo.

Respeitei o momento de  lazer de Telê e voltei às minhas atividades no MEC. Ao final da tarde ao chegar à redação fiz  o texto sobre o esconderijo de Telê Santana.

A torcida alagoana  tinha uma relação de afetividade com Telê Santana. O time dos sonhos com os craques de 1982 jogou, amistosamente no estádio Rei Pelé contra a Irlanda no dia  23 de setembro de 1981 e goleou por 6 x 0 com quatro gols de Zico.

Em agosto de 1993, durante preparação para a Copa  de 1994, nos Estados Unidos, a seleção brasileira jogou em Maceió  de forma amistosa contra o México e empatou por 1 x 1. Embora tenha sido campeã do mundo naquele ano, a equipe não inspirava a confiança dos torcedores. Classificou-se com dificuldade na fase eliminatória e,  nem de longe, comparava-se às formações anteriores. O técnico era Carlos Alberto Parreira bastante criticado pela crônica esportiva e pela torcida. Nesse jogo  no estádio  Rei Pelé, em Maceió contra o México, um coro criado pela torcida alagoana se estendeu nos demais partidas da seleção que antecederam a  Copa: “Olê, Olê, Olê, Olê. Telê, Telê”.

O técnico  ressurgiu no início dos anos de 1990 e  assumiu por sete anos seguidos o comando do São Paulo, sendo campeão do mundo em 1996.

Euforia alagoana

 O refúgio de Mário Lobo Zagallo para a terra Natal (Maceió), em agosto de 1994 teve característica contrária ao de Telê Santana. Campeão do mundo pela quarta vez, Zagallo veio a capital alagoana para ser homenageado pelo governo do Estado, administrado naquela ocasião,  por Divaldo Suruagy.Eu era repórter esportivo do jornal Gazeta de Alagoas, como substituto do saudoso João José,  que estava de férias do matutino. Entrevistei o alagoano no desembarque no então aeroporto Campo dos Palmares. Além de mim, estava o colega Madson Delano, da TV Gazeta de Alagoas. O então auxiliar-técnico de Carlos Alberto Parreira se dizia lisonjeado pela iniciativa do governo e previu que Ronaldo Fenômeno, com 17 anos à época, seria a grande sensação da próxima Copa. A conversa foi interrompida pela banda da Polícia Militar  que chamou a atenção de Zagallo ao executar o tema da vitória, música dedicada ao piloto Airton Senna.

O orgulho que os alagoanos sentiam por Zagallo vinha de anos atrás e minha recordação desse nome provinha da infância. Parentes meus contavam que o alagoano morou em frente à casa onde morávamos, no Mutange em um sobrado de estilo colonial com um sítio imenso  e em frente ao cruzamento da linha férrea.

 

24 de junho de 2018

A história do fim do jornalismo impresso que ganha outro rumo

O futuro dos jornais impressos no mundo, por uma vez ou outra, é objeto de discussão  nas universidades, nos meios empresariais da comunicação e entre os jornalistas. O debate surgiu  assim que a internet se popularizou como produto da globalização tão propalada no início dos anos de 1990. De lá para cá, as previsões não […]

16 de junho de 2018

Minha empolgação em todas as copas

A estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de futebol contra a Suíça, neste domingo (17) foi antecedida por vários questionamentos sobre a empolgação do brasileiro com a  competição e, principalmente com o escrete canarinho. Pesquisa realizada pelo Datafolha constatou que 53% da população perdeu o ânimo como torcedora neste período. Vários são os […]

14 de Fevereiro de 2018

Redes sociais revelam  no carnaval  o “jornalismo pastelão” da grande mídia

Longe do estado de exceção, a que vivemos e aproveitando a arte e a cultura tão predominante no coração e mente do  brasileiro, a sociedade, especialmente aquela que é objeto de repressão de ordem política e econômica,  aproveitou os dias de folia para  responder às provocações e ataques desferidos pela elite, desde o momento em […]

28 de Janeiro de 2018

Expectativa de vida no Brasil cresceu em um século mais que o Reino Unido em cinco

Em um século e quinze anos, a expectativa de vida no Brasil cresceu de 30 para 74 anos, o que representa uma evolução de 44 anos entre 1900 a 2015. Os dados foram divulgados neste domingo (28) pelo Our World in Data, site inglês especializado na divulgação de dados no mundo. Para comparação de resultados, […]

4 de Janeiro de 2018

Em 2018 as datas redondas dos tempos sombrios estão de volta

Percebi isso ao revirar,nos dias que antecederam ao final de 2017, meus armários de livros, recortes, revistas e outras publicações com o objetivo de  doar ou mandar para a lixeira,  coisas que já não me interessavam.Eram documentos, catálogos, manuais e periódicos com mais de 30 anos de armazenamento. Poucos deles conservados devido a batalha contra […]

19 de dezembro de 2017

A violência política que nos envergonha a cada dia

Quando o jornal O Globo completou 80 anos, em 2015, lançou seu acervo digital que contém grande parte das edições produzidas pelos jornalistas do periódico fundado por Irineu Marinho, em 1925 e que foram disponibilizadas no sistema Issu, aquele em que o leitor pode folhear de modo eletrônico, jornais, livros ou revistas. Como bom, apreciador […]

8 de dezembro de 2017

O “marketing forçado” que mascarou a origem do tráfico de drogas em Alagoas

Dois fatos policiais chamaram-me, nesta  semana, atenção para perceber o quanto o mundo do crime ganhou espaço em Alagoas nos últimos vinte anos, a ponto de dominar desde os becos das comunidades mais pobres aos mais luxuosos condomínios. Na quarta-feira, um vídeo postado nas redes sociais mostrou a execução de um homem por uma suposta […]

6 de agosto de 2017

A classe média e o legado deprimente das “Micaretas Verde-Amarelas”

O Brasil é, efetivamente, o país onde tudo vira moda e se transforma em samba, carnaval, folclore ou corrupção. As manifestações ocorridas país afora em 2015 e 2016 são as mais evidentes provas. Eram atos públicos que mais pareciam micaretas (aqueles carnavais fora de época) que ocorrem nas principais cidades e que são puxados por […]