Gerônimo Vicente

11 de outubro de 2020

O “novo normal” da imprensa tradicional é normalizar os antigos interesses políticos

Neste final de semana comecei a reler, depois de 34 anos, um livro intitulado “ O Capital da Notícia – Jornalismo como Produção Social da Segunda Natureza”, de Ciro Marcondes Filho, uma publicação científica da época de meu primeiro ano como jornalista, 1986 e comprado na  saudosa Livraria Caetés, da rua Cincinato Pinto, no Centro de Maceió. O livro traz um estudo  sobre a produção da notícia como mercadoria, como veículo ideológico e como agente da economia política essa última a maior representante do capitalismo, desde o nascedouro do sistema  e que rege, principalmente, o mundo ocidental. Ciro Marcondes Filho, atualmente tem 72 anos e é professor do Departamento  de Jornalismo e Editoração da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados  teóricos da comunicação.

A obra cita casos de manipulação da informação e, principalmente a estreita relação da evolução da imprensa com o Estado e, desta forma,  contribuindo para atrair aquilo que é de interesse público para  o âmbito privado como disciplina o liberalismo.

Jornal do Brasil não deu título na reportagem sobre a morte do chileno Salvador Allende

A releitura surgiu a partir  do momento em que  percebo que a  grande e tradicional imprensa brasileira, passado o momento mais desesperador da pandemia, volta a operar em busca de atender aos seus anseios, adotando a velha tática de camuflar a informação real do leitor,  para assim tentar demonstrar uma impressão de imparcialidade. E a forma desta tentativa é por meio da figura de linguagem que conhecemos no  bom Português como, Eufemismo que  significa, a ocasião em que  termos mais agradáveis são utilizadas para suavizar uma expressão que possa gerar mal-estar em uma relação interpessoal e, no caso da imprensa,uma falta de controle da informação no segmento político-econômico  do qual ela faz parte.

Depois de ser elogiada pela cobertura  no início da pandemia no Brasil, os velhos hábitos da produção de notícia voltaram à baila nesses últimos dois meses e, diferentemente do que ocorria há 34 anos, época do lançamento do livro citado, hoje a má conduta  tem vigilância velada das redes sociais onde habitam grupos teóricos conspiradores ou ideológicos, que a todo custo, atualmente tentam inverter valores sociais inclusive os de que a própria imprensa é responsável pela indústria da desinformação.

Essa estratégia conspiratória tem ganhado força nos Estados Unidos onde um movimento denominado Q-Anon formado por diversos grupos de teóricos da conspiração e apoiados pelo presidente Donald Trump montam uma operação de desqualificação dos meios de comunicação, incluindo a conservadora Fox News.

No Brasil, parece que a imprensa tem feito por onde estimular esses grupos ao dar enfoques eufemísticos a assuntos polêmicos e que geram interpretação social diferente do que é publicado ou transmitido  por meio eletrônico, como foi o caso  do discurso do presidente Bolsonaro na ONU, em 23 de setembro passado. A conclusão da maioria dos brasileiros é de que o presidente inverteu a ordem da situação no discurso ao se referir à  atual política ambiental e ao combate à pandemia no Brasil, mas a imprensa tradicional não foi capaz de sequer se referir desta forma ao fato. A manchete da Folha de São Paulo “Bolsonaro se defende na ONU sobre pandemia e queimadas” surpreendeu leitores e internautas pelo grau de suavidade diante da situação vexaminosa. Foi laureado com a expressão verbal “amarelou”, dada pela ombudsman do jornal. É evidente que não é papel da imprensa afirmar que alguém mentiu, porque neste caso seria emissão de opinião sobre um fato. No entanto é latente no título,  o grau de suavidade do jornal no caso como se houvesse uma advocacia da imprensa em causa própria. O título do Folha foi o mais emblemático, mas todos os veículos tradicionais se comportaram de forma idêntica neste caso.

O outro caso que cito e esse contraria às exigências da imprensa e aos seus interesses políticos e econômicos foi a decisão da juíza Gabriela Hardt ao isentar o ex-presidente Lula de cometer atos ilícitos durante palestras proferidas. A denúncia foi feita em 2015 em pleno vigor da Operação Lava Jato e da campanha anti-PT. Neste episódio, a grande imprensa, claramente anti-Lula, tratou de reproduzir uma expressão da sentença de que a absolvição teria como causa  a “insuficiência de provas”. Embora o artigo 386, VI, do Código Processo Penal estabeleça que o juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva da sentença, desde que reconheça, não existir prova suficiente para a condenação, a decisão foi interpretada no meio jurídico como um reconhecimento pela metade de que a Operação Lava-Jato havia se excedido em suas ações como se não quisesse admitir erro na investigação. Um relatório pericial da Polícia Federal  desmonta  toda  a suspeita  ao evidenciar não ter encontrado as provas nas denúncias. Para alguns juristas já o relatório  bastava para que o termo “provas suficientes” não fosse utilizado. No entanto, eufemisticamente, a imprensa utilizou o termo sentencial para suavizar o erro de toda a operação e assim, o caso passou despercebido de leitores e internautas. Para o escritor Umberto Eco,  a notícia parece ser aquilo que é anormal, mas,  historicamente no Brasil tem- se aplicado uma prática da imprensa americana de ocultar essa anormalidade, como os fatos são apresentados, inclusive incorporando no nosso dicionário expressões que camuflam essas situações desinteressantes do ponto de vista político. Por exemplo: a palavra “reajuste” foi adotada  pela pasta econômica do  governo militar e reproduzida pela imprensa para esconder os aumentos frequentes dos valores de tarifas públicas básicas, como  combustível, transportes urbanos, gás de cozinha e aluguéis e hoje  é se convencionou usar como sinônimo de ajuste no preço desses produtos, como se fosse uma boa ação para o consumidor.  A palavra “tráfico” é associada à  conduta ilegal de algo, principalmente drogas, quando na realidade também existe o tráfico legal, como sinônimo de negócio e de transação comercial. A expressão “facção”, atualmente é associada à quadrilha, em vez de ser atribuída  a grupos contrários. Nos Estados Unidos, as palavras  imigrante, negro e muculmano pelo mau uso pela imprensa ganhou efeito pejorativo de forma que todo imigrante é visto como ilegal, todo negro, como criminoso e todo muculmano, como terrorista.

Jornal da Tarde, um dia depois da campanha Diretas Já ter sido derrotada no Congresso Nacional

O que se vê na imprensa hoje, não difere do comportamento de 34 anos  e  tende a piorar. Mas não custa afirmar que a imprensa no passado já teve um papel crucial no processo democrático, quando protestou no momento em que foi obrigada a se calar, como fez a capa do Jornal do Brasil em 23 de setembro de 1973 ao não colocar título na matéria sobre a morte do chileno Salvador Allende em manifestação contra a censura. Como fez o jornal Unidade, proibido de se referir à morte do Vladimir Herzog e estampou uma cor preta na capa e como fez o Jornal da Tarde em  26 de abril de 1984 que demonstrou protesto em sinal de luto um dia depois de a campanha “Diretas Já”  ser derrotada no Congresso Nacional.

3 de outubro de 2020

As boas lembranças do bairro Bom Parto

Primeiro o Pinheiro, seguido do Mutange, depois Bom Parto e agora Bebedouro. Os quatros bairros  que representavam a história do bucolismo da capital alagoana foram jogados em um profundo abismo geológico e social. E, apontar a esta altura, responsáveis diretos por essas páginas rasgadas do lado pitoresco dessas localidades parece ser um mistério. Dois desses […]

19 de setembro de 2020

O primeiro apresentador de telejornal na TV brasileira foi o alagoano Luiz Jatobá

A televisão brasileira completou neste sábado (19 de setembro de 2020) 70 anos de existência. O aparelho de tv começou a ser um aliado das famílias de classe média e de servidores públicos em Maceió  no final da década de 1960 com retransmissão dos canais da TV Record e TV Tupi de  Pernambuco e, às […]

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Por não entenderem a política local, institutos de pesquisa esqueceram Alagoas

Está difícil de os maceioenses saber quem são ou serão os candidatos que concorrem às eleições para prefeito de  Maceió em novembro deste ano.As campanhas começam tímidas e, talvez, somente quando os institutos de pesquisas entrarem em ação é que os nomes dos candidatos podem invadir a memória dos eleitores da capital. Isso, se os […]

30 de agosto de 2020

Redes sociais garantem estar prontas para combater a desinformação

Depois do vexame e saia-justa  passados na eleição majoritária de 2018, as plataformas de mídias sociais (ou redes sociais) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) asseguram que  estão preparados para enfrentar o disparos de mensagens em massa, via WhatsApp, os discursos de ódio disseminados pelo Facebook e as fotos comprometedoras de  candidatos contra outros, crimes  […]

22 de agosto de 2020

Eleição americana de 2016, a ponta da lança que envenenou a política brasileira

Na semana passada começaram as convenções para as eleições  americanas definidas para 3 de novembro e que vão escolher o próximo presidente dos Estados Unidos. Biden Joe, ex-vice presidente do governo de Barack Obama e o atual presidente Donald Trump disputam o pleito eleitoral que, em 2016 teve um efeito devastador em tudo o quanto […]

9 de agosto de 2020

O acordão para sepultar a Lava Jato é um festival de “gente inocente”

Um texto do competente jornalista Luis Nassif referiu-se na semana passada (costumo contar o domingo como primeiro dia da semana) a  um articulado acordo para pôr fim a desgastada e desacreditada Operação Lava Jato. Seria uma forma de os principais atores dessa investida malograda das instâncias judiciais saírem pela porta de trás sem serem percebidos […]

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O  poder digital vulgarizou a arrogância do “sabe com quem está falando”

                      Na década de 1980 o ponto de encontro de jovens estudantes, servidores públicos, profissionais liberais, jornalistas e intelectuais era o espaço na praia de Ponta Verde, em frente ao hotel de mesmo nome. As barracas do Zé e do Siri eram os locais, habitualmente […]

12 de julho de 2020

Brasil, o avesso do avesso até na pandemia

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