Gerônimo Vicente

19 de maio de 2019

A história da mineração em Maceió e a busca por um culpado

Você leitor, quase quarentão, aposto que no início dos anos 2000,  a depender de seu grau de instrução, tentou escolher uma profissão que fosse vinculada às áreas de petróleo, gás natural, engenharia naval, soldagem, tubulação e saneamento.Foi época da descoberta dos campos de pré-sal em Santos e na bacia da Petrobras Sergipe-Alagoas. O país, diferentemente do bagaço econômico da atualidade, era próspero,  ocupava  a sexta economia do Mundo, posto que, historicamente, pertencia à Itália. Em Alagoas, surgiu um boato que perambulou por quase dez anos, teve dezenas de paternidades políticas, como se fosse algo sério e,por todo esse tempo, foi explorado de forma eleitoral, cantado em prosa e verso nas campanhas políticas. Refiro-me ao “Conto do Estaleiro em Coruripe”, uma versão fictícia de desenvolvimento de Alagoas que prometia 4 mil empregos diretos e mais doze mil indiretos, isso sem contar com a avalanche da  economia informal prevista para o entorno do povoado de Pontal do Coruripe. Esses dados compuseram a festa da propaganda oficial durante aquele período. Não fosse a resistência dos técnicos do Ibama em Brasília ao impedir o afundamento da região de manguezal composto por espécies comestíveis como crustáceos, o local seria, hoje, um grande buraco de lama sujeito a provocar inundações no centro da cidade durante o período inverno ou maré alta, porque a Eisa Estaleiro abriu falência em 2015, deixando inclusive dívidas trabalhistas e certamente as obras estariam paradas e sem controle.

Se em plena era da globalização, os alagoanos quase caíram nesse “conto do vigário”, imagine você, em 1975, quando começaram as primeiras obras de tubulação para uma mineração mais robusta que era do salmoura, proveniente do sal-gema. Portanto, hoje com  o pré-anunciado estrago social e econômico provocado pela exploração do produto, não há como arrumar culpado sem nos remeter  a um  passado que já dura mais de 70 anos. Por isso, hoje entramos em uma gangorra de opinião,  porque culpar a Braskem pode nos custar o lançamento no abismo social e econômico, em caso da saída da empresa do território alagoano; também isentar a indústria de responsabilidade,  seria bater palmas para a imprudência e a impunidade.O mais prudente seria envolver na contenda quem nos prometeu esse progresso que não veio.

Involuntariamente, fui envolvido nessa relação entre a Salgema e população maceioense de adolescente a adulto e aqui passo a relatar minha experiência.

Em 1975, morava no Mutange, bairro onde passei quatorze anos de boas convivências. Acompanhei  da porta de casa, a introdução das tubulações da mineração. Tinha doze anos e a conversa que mais ouvia era sobre empregos na fábrica a ser instalada no Pontal da Barra, reflexo dos anúncios do governo em rádios e jornais da cidade. Governo do Estado e prefeitura de Maceió possuíam  governador e prefeito “biônicos”, ou seja indicados pelo regime militar e o sentimento de oposição já cobrava a volta à democracia. Lembro que a construtora responsável pela tubulação era a OAS, cuja abreviatura era traduzida pelos moradores de “Obrigado Amigo Sogro” referindo-se ser a empresa, um suposto presente do então governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães a seu genro que se dizia  um dos sócios da empreiteira. As obras varavam à noite pois neste horário não havia deslocamento de trens. Recordo  que depois da implantação dos tanques ao lado do campo do CSA, em 1977, uma explosão matou um vigilante lançado ao ar pelo forte  estampido.

De estagiário a free-lancer

Em 1984, ainda como estudante de jornalismo fui convocado para um estágio na assessoria de comunicação da Salgema. A indústria tentava se distanciar da má recepção da população, principalmente das áreas próximas.Impressionava-me a organização e a valorização funcional. Havia três restaurantes para operários, administrativos e executivos, todos de boa qualidade e com acompanhamento nutricional. A Ascom ainda não tinha uma estrutura adequada, embora fosse bem estruturada. O amigo Raul, estudante de Relações Públicas e responsável pela minha indicação,  era o assessor. O projeto era focar na relação de boa vizinhança com a comunidade próxima a exemplo da do Pontal da Barra estimulando ações que deveriam ser do poder público, mas que eram desleixadas pelo Estado e pela prefeitura da cidade. Desses projetos, surgiu o Cinturão Verde, hoje um espaço ambiental urbano e iniciativas como, a distribuição de material didático, reforma e ampliação de escolas e de organização comunitária junto à associação dos moradores.

Em 1986, aos 23 anos,  voltei a prestar serviços à Ascom da Salgema, agora como um dos primeiros freelance de jornalismo e encontrei, além das ações comunitárias, um investimento forte da empresa no esporte amador alagoano. O velejador Eugênio Jucá conquistava títulos nacionais e o nome da Salgema estava estampado na vela da embarcação. Raul consultou-me sobre a proposta de a empresa investir em um atleta chamado José Carlos Santana para  fazer par com Maria de Lourdes, corredora patrocinada. Por coincidência, Santana, vencedor de prova e rua e sem patrocínio, era contato publicitário do Jornal de Alagoas, onde eu atuava como repórter de esporte amador. Sugeri junto com o amigo José Wanderley, relações públicas, a contratação eum ano depois, José Carlos Santana conquistava por dois anos seguidos a Maratona de Nova Iorque e lá estava o nome da Salgema, agora em nível internacional. Enquanto investia em novos talentos da arte, cultura, educação e esporte, o assunto interno girava em torno da duplicação da fábrica, pensado antes para a área ao lado, mas orientado para o Pólo Cloro-químico no tabuleiro de Marechal Deodoro. As pautas do house-organ em que fui responsável, foram a duplicação da Salgema e a implantação do Cinturão Verde. Esses projetos de relacionamento social foram vistos como a eficácia do bem-estar entre indústria e a sociedade alagoana e a visão que se passou a ser da indústria era bem diferente dos primeiros anos de instalação, onde a desconfiança sobre  conchavos políticos era evidente junto aos movimentos sociais e à oposição política.

O material do jornal Prátika a que me referi no post passado ajudou-me a entender todos os bastidores políticos que engendraram na criação e chegada da Salgema em Alagoas. Contudo, encontrei, neste final de semana um documento interessante de autoria da Associação dos  Diplomados da Escola Superior de Guerra- delegacia em Alagoas, de 1975 sobre as Perspectivas para Implantação de Indústrias Derivadas da Salgema em Alagoas.

O documento aponta que as descobertas de sal-gema em Alagoas ocorreram, por acaso, em 1941 pelo Conselho Nacional de Pesquisas, precursor da Petrobras durante tentativa de achar petróleo nas proximidades do campo do CSA, no Mutange.  Uma empresa estrangeira obteve a outorga de exploração até 1964, quando um industrial baiano chamado Euvaldo Luz iniciou os estudos geológicos na área, comprou terrenos e enviou o projeto à Sudene que o aprovou em 18 de janeiro de 1967 em assembleia realidade em Garanhuns. A prospecção começou em 1968 no Mutange e Bebedouro e, no ano seguinte foi assinado o Decreto de Lavras. Em 1971 houve a associação entre Grupo Euluz com a Du Pont e o BNDE, hoje BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O investimento seria de 1,2 bilhões de cruzeiros.

Nessa história entra, o futuro  presidente da república, Ernesto Geisel que passou a visitar Alagoas com frequência. E em das visitas, em 1972, fui vítima dessa recepção ao então postulante ao Planalto, como aluno do Grupo Escolar Cincinato Pinto em Bom Parto, obrigado pela diretora Dona Ivone. ”Esteja aqui amanhã às 6h para recebermos o futuro presidente do Brasil” na praça dos Martírios”, lembrou em tom ameaçador.

-Quem o Garrafa Azul (não sabia pronunciar Garrastazu)?  perguntei.

– Mas respeito menino, o próximo será Ernesto Geisel – respondeu dona Ivone.

Desde às 7h da manhã, crianças das escolas estaduais e municipais lotavam a praça com bandeira do Brasil às mãos. Algumas não resistiram e desmaiavam de sede e fome. Geisel chegou às 11h fez um discurso rápido e se deslocou ao palácio.

Com a interferência do Palácio do Planalto o Grupo Euluz cedeu suas ações  ao BNDE que, em 1975, por sua vez, vendeu à Petroquisa, subsidiária da Petrobras, ou seja a  Salgema era 55% estatal o resto da Du Pont.

O que me deixava curioso durante a estada como freelancer da empresa  era o fato de uma indústria daquele tamanho e com projeto de duplicação, era considerada pelos acionistas apenas como filial. A matriz tinha sede em um prédio na avenida Getúlio Vargas  no Rio de Janeiro, onde ficava o presidente Ronaldo Miragaya que, vez por outra, vinha a Maceió. Outra curiosidade: parte dos técnicos como, engenheiros químicos e outros profissionais vinculados à área,  também compunha o corpo técnico da Codeal (Companhia de Desenvolvimento do Estado de Alagoas) autarquia extinta há mais de dez anos, por ser vista como cabide de emprego e, naquele momento responsável por projetos de implantação industrial no estado.

Nesse labirinto, imagino ser difícil, depois de sete décadas, arrumar culpado por uma  possível tragédia nos bairros em risco. Porém, uma coisa é clara: a população não pode ser prejudicada por ambições pessoais, políticas e econômicas.

12 de maio de 2019

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