Gerônimo Vicente

5 de janeiro de 2020

O que aconteceu no meu país pode acontecer no seu”, alerta jornalista húngaro

Um artigo de um jornalista húngaro chamado Peter Erdelyi alerta sobre uma ação governamental que ocorre na Hungria e que pode acontecer em qualquer país. A premonição é feita, não só aos profissionais de imprensa, mas como aos cidadãos do mundo ocidental  sobre as consequências trágicas e danosas que significa o controle total da imprensa por um governo, ditador de extrema-direita, como é o comandado pelo  primeiro-ministro daquele país Viktor Orbán, onde qualquer informação tratada como pública transformou-se em assunto privado, inclusive por leis interpretadas pela corte máxima do judiciário do país do leste-europeu.

Talvez Erdelyi sequer tenha pensado em incluir o Brasil na lista das próximas nações a adotar esse modelo de privacidade das informações públicas, porém pelo  comportamento do governo e da própria imprensa tradicional parece que essa ideia ganha ares de complacência da mídia nacional brasileira. E não é preciso raciocinar muito para perceber que  as emissoras de televisão direcionam sua linha editorial para as orientações dadas pelo governo. Não pode excetuar a Rede Globo, porque o conteúdo jornalístico é voltado para duas figuras proeminentes do ponto de vistas dos interesses econômicos e políticos da emissoras que são os ministros Sérgio Justiça (Justiça e Segurança Pública) e Paulo Guedes (Economia e Planejamento). Embora, os Marinho considerem Jair Bolsonaro, uma peça descartável, eles entendem que essas duas autoridades, por enquanto atendem aos seus requisitos essenciais para a redução mínima possível da atuação do Estado brasileiro em políticas públicas.

Pois bem!. O que nos conta Peter Erdelyi sobre a relação do regime autoritário de Viktor Orbán com a imprensa húngara. Ele começa o artigo citando um cercado feito para os jornalistas no parlamento do país, na capital Budapeste. Uma área isolada de 10 metros quadrados foi marcada na Assembleia Nacional e  nos escritórios dos prédios oficiais, a qual seria o espaço, onde os repórteres podem entrevistar os parlamentares e outras autoridades. Aqueles jornalistas que se atreverem a fazer entrevistas fora desse domínio serão acusados de assédio moral e são presos, principalmente se perguntarem sobre acusações de corrupção, como, por exemplo, ocultação de bens patrimoniais. As regras foram anunciadas por László Kövér, um membro influente do partido Fidesz na Hungria e presidente da Câmara dos Deputados..

A mídia alternativa local ou do exterior também não têm espaço facilitado no regime de Orbán. Equipe de um canal de TV independente alemã, denominada 444, viajou para Felcsút, cidade natal do primeiro-ministro, foi bloqueada pela polícia que confiscou até o drone que fazia imagem aérea. Há cinco anos que o líder húngaro não concede entrevista a um veículo independente.

Os jornalistas costumam forçar respostas sobre certos tópicos usando solicitações de Liberdade de Informação, mas desde que a Fidesz (partido de extrema-direita) assumiu o poder em 2010, as leis de Liberdade de Informação foram alteradas em várias ocasiões para restringir o acesso à informação pública.

Até pessoas que não  são agentes públicas, porém são parentes  ricos de autoridades húngara entraram na lista daquelas que não podem ser incomodadas pelos repórteres, a exemplo de Istvan Tiborcz , genro bilionário de Orbán e beneficiário de grandes fundos da União Europeia que, por decisão da suprema corte, também está livre de ter sua  vida de fortuna contada nos veículos de comunicação daquele país.

Nos últimos nove anos, os assuntos públicos tornaram-se gradualmente assuntos particulares das pessoas com poder, e todas as leis, regulamentos e práticas relevantes ecoam essa mudança de perspectiva. Oficiais do governo e políticos tratam os jornalistas fazendo-lhes perguntas como forma de intimidação.

A imprensa alternativa, essa então, sofre ameaças diariamente. Erdelyi  conta no artigo que um site extremista publicou um post, abertamente anti-semita, xenófobo  e homofóbico no próprio canal 444 onde ele trabalha. A última frase diz: Você não é mídia. Você se tornou o maior inimigo do povo húngaro e precisa ser exterminado da Hungria.”.

Apesar de os jornalistas manterem um nível de proteção sob as leis da União Europeia quanto aos direitos humanos, os repórteres que criticam Orbán e seus aliados são frequentemente “ameaçados” pela imprensa pró-governo. Os profissionais alternativos são chamados de  agentes estrangeiros e fantoches do bilionário húngaro-americano George Soros. Essa mega máquina de mídia é, indiretamente financiada pelos contribuintes. Segundo a Associação Húngara de Publicidade, o Estado é o maior anunciante único na Hungria. Nos últimos anos, eles gastaram centenas de milhões de euros em publicidade e anunciam quase exclusivamente em agências pró-governo.

Durante a década passada, o presidente húngaro consolidou a propriedade da mídia nas mãos de seus aliados, que agora possuem cerca de 80% dos meios de comunicação do país, garantindo que os jornalistas apoiem ​​o governo e manchem seus oponentes, segundo o relatório Freedom and the Media.(Liberdade e a Mídia). E o que contribuiu para esse feito é que, de repente, cerca de um ano atrás, na Hungria, os bilionários proprietários de mais de 400 meios de comunicação decidiram doar todo o seu portfólio de mídia à Fundação de Imprensa e Mídia da Europa Central (KESMA), pró-governamental, o que afunilou ainda mais o filtro da informação na imprensa húngara. Esse modelo já se espraia  para Macedônia, Eslovênia e aos poucos ocupa espaço na Áustria.

Os sinais dados pelo primeiro ano de governo no Brasil com acirramentos frequentes  entre autoridades brasileiras e profissionais da mídia, demonstram não estarem tão distantes do modelo húngaro de noticiar os fatos.

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