Ailton Villanova

19 de outubro de 2020

Corrigiram o ladrão na base do cacete!

Lá pelos idos de 1939, barbarizou no Sertão alagoano um certo Pretextato Ataíde, sargentão PM, que era perverso até dizer basta. Analfabeto de pai e mãe, vivia se gabando de ter dado combate ao bando do capitão Virgulino Ferreira, o indefectível Lampião, pelas caatingas alagoanas e sergipanas, mas sua grande frustração foi não ter participado da emboscada de Angicos onde o rei do cangaço foi trucidado juntamente com Maria Bonita e parte do seu bando. Nessa época, Pretextato era cabo.

Tempinho depois de ter sido promovido a sargento, Pretextato se viu investido no honroso cargo de delegado de polícia. Nessa época, para quem não sabe, não eram exigidos nem o preparo intelectual e nem o diploma de bacharel em direito daquele que se dispusesse exercer a função de autoridade policial no interior.

Pretextato pintou misérias, acolitado pelo cabo PM Herculano  Vilela, o Gereba, indivíduo doido varrido que adorava torturar presos.

Ocorre que, certo dia, pintou lá pras bandas de Delmiro Gouveia uma quadrilha de assaltantes baianos, que roubou metade da grana que havia na cidade. Dita quadrilha era liderada por um tal de Caetano, cujo vulgo era “Português”, dado o fato de que ele não apreciava tomar banho. A notícia das incursões do tal bando em terras delmirenses bateu ligeirinho na capital e o então secretário do Interior e Segurança Pública agiu rápido: mandou um telegrama pro delegado Pretestato:

“Prenda bandidos com urgência pt”.

Dois dias depois, sargento Pretextato respondia ao ilustre secretário, através de outro telegrama:

“Prazê emformá Voça Incelênça vg qui nóis prendeu todos ladrão pt”

O secretário ficou radiante com a informação e disparou de volta um novo telegrama elogiando a eficiência do delegado e finalizou a mensagem da seguinte forma:

“… Parabéns belo trabalho vg mas corrija português pt”

Sargento Pretextato, cabo Gereba e o resto da milicada  mataram o líder da quadrilha no cacete.

 

 

Cumprindo a palavra

 

Em Palmeira dos Indios prenderam um sujeito acusado de haver assassinado a esposa, e o levaram à presença do delegado distrital José Rangel Ataíde Wanderley,

– Por que cometeu esse bárbaro crime, rapaz? – inquiriu, na dureza, o delegado.

O acusado foi bastante sincero:

– Purque num sô hôme de quebrá juramento, dotô. Sô uma pessoa munto religiosa…

– Sei… mas o que tem isso a ver com o assassinato de sua mulher?

– É o siguinte, dotô… quando me casei cum a minha mulé Margarida, jurei só me separá da disinfiliz no causo de morte. De manêras qui me livrei-me dela pra pudê mantê a promessa! Fiz certo ou fiz errado?

 

 

Avisando com sutileza

 

Promovido de aspirante a segundo tenente da Polícia Militar de Alagoas, o jovem Fernando Theodomiro Santos Lima (que, anos mais tarde, viria a ser comandante-geral da corporação e duas vezes secretário de Segurança Pública) cheio de gás, foi mandado para destacar em Santana do Ipanema. Um dia, ele chamou à sua sala de trabalho o sargento Batista, que tinha a fama de desenrolado e pagou-lhe uma delicada missão:

– Acabei de receber uma notícia triste e diz respeito ao soldado Severino… Você sabe que ele é cardíaco e, além disso muito apegado aos pais…

– Sim, meu tenente. E qual é o problema?

– O problema é que que recebí a notícia dando conta que a mãe do Severino morreu num acidente!

– Coitadinha!

– Encontre um jeito de comunicar ao Severino sem lhe causar nenhum trauma… nenhum susto, entendeu?

– Pode deixar, meu tenente!

De posse da missão, sargento Batista correu pro pátio, mandou reunir a tropa e ordenou:

– Quem tem mãe, dê um passo à frente!

A turma toda avançou e o sargento deu o breque:

– Você não, soldado Severino!

E o PM:

– Por que eu não, sargento? Eu tenho mãe!

– Tinha!

 

 

Morto, mas bastante vivo!

 

Famoso no Brasil inteiro, e em vários países da América Latina, o artista plástico e ex-pracinha da FEB, o saudoso Mestre Deodato, primo de Theodomiro, resolveu, anos atrás, fixar residência em sua terra natal e escolheu Marechal Deodoro para ser definitivamente o seu chão. Na antiga capital, chegou a ser secretário municipal de Cultura, para alegria, orgulho e satisfação dos deodorenses.

Bom papo, espirituoso, Deodato teve sua primeira ameaça de infarto e quase bateu as botas, anos antes de partir de vez, por causa de um susto filho da égua. É que sua esposa, a exemplo do que fizeram centenas de deodorenses, passou a usar a tradicional vela de cêra em substituição a lâmpada elétrica, em razão de um apêlo formulado pelo prefeito aos seus munícipes, “para economizar energia”…

Esse dia de “apagão voluntário”, Deodato havia tirado para descansar de papo pra cima. Em cada canto da casa, a madame havia colocado uma vela acêsa, detalhe que o ilustre artista desconhecia. No pé da cama, queimavam duas daquelas velas imensas, do tipo usado em velório.

De madrugada, quando Deodato acordou para beber água e fazer o seu costumeiro pipi, assustou-se ao ver aquele monte de velas acesas pela casa inteira e saiu disparado porta afora, aos berros:

– Socorro! Socorro! Eu morri! Eu estou morto!

Para acalmá-lo, foi preciso requisitar os préstimos do primo Fernando Theodomiro, a época comandante de Polícia Militar.

 

(O episódio acima papeado, foi contado ao autor pelo próprio protagonista, meses antes de morrer).

 

 

Apenas pra não desidratar

 

O veterano Orgalpho Liberiano procurou o médico Nilton Jorge Melo, com a queixa de que não estava se sentindo bem. O doutor o examinou com bastante cuidado e, em seguida, saiu da sala. Daí a pouco, voltou com três frascos de pílulas e recomendou:

– Tome um comprimido verde com um copo d’agua bem cheio, assim que acordar. Na hora do almoço, o senhor toma o vermelho com outro copo grande de água e, finalmente, antes de dormir, tome a pílula azul com mais um enorme copo d’água!

Feitas as recomendações, doutor Nilton Jorge dispensou o paciente. Assustada com a prescrição de tanto remédio, dona Marlene, assistente do médico, perguntou:

– Pelamordedeus, doutor! Qual é exatamente o problema desse coitado?

– Nenhum! Ele só está precisando tomar mais água!

 

    Com Diego Villanova

 

16 de outubro de 2020

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14 de outubro de 2020

“Segura a barra, companheiro!”

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Médico é diferente: ele corta depois!

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Azuniu os vridinho!

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