Ailton Villanova

18 de fevereiro de 2020

O supositório

Havia uma semana que o sertanejo Dorivaldo Batista da Cruz, o Dodô, padecia de uma terrível dor de barriga. Por mais que se espremesse no vaso sanitário, o infeliz do cocô não saía. Greve anal filha da mãe! Desesperado, Dodô resolveu procurar o Jorjão Cara de Sapato, na farmácia de sua propriedade, localizada na principal esquina de Dois Riachos. Cara de Sapato só não era chamado de “doutor” porque jamais frequentou uma faculdade de medicina, nem como objeto de estudo.

– Tô entupido, seu Jorge! Meu furico fechô de manêra tal, qui nem um peidinho sai!

Jorjão acalmou o infeliz:

– Se aperreie não que eu vou lhe passar um medicamento que é tiro e queda!

– Posso fazer fé, seu Jorge?

– Pode, claro!

Jorjão Cara de Sapato foi até a prateleira, pegou uma caixinha azul e amarela, entregou ao freguês, recomendando:

– Coloque esses dois supositórios no ânus, assim que chegar em casa.

Dodô pegou o medicamento, girou nos calcanhares e se mandou. Chegou em casa, consultou à mulher:

– Ô Arfreda, qui diacho é ânus?

–  Ôxi! Ânus deve de sê… Bem, ânus é… ispricá num seio não. Vorta lá na farmáça e pregunta pru hôme de lá!

Dodô deu novo pinote no estabelecimento do Jorjão e se desculpou dizendo que não havia entendido direito a prescrição. O farmacista explicou de novo:

– É o seguinte, seu Dodô… o senhor enfia dois desses bastõezinhos no reto, compreendeu?

– Ah, sim! Cumprendi!

E Dodô retornou ao santo lar com dúvida ainda maior:

– Agora, piorô, Arfreda! Dessa vêis ele me mandou infiá esses pedacinhos no “reto”! O qui  será esse tár de “reto”?

– Sei lá que bobônica é isso! Vorta no hôme dinovo!

Dorival não acatou a ideia:

– Vorto não, mulé! Vai qui ele fica neuvoso cumigo e me mande enfiá essa poicaria no cu… Aí, vou tê qui dá um tiro nele!

 

Sem entender       

 

Seu Amabílio Carposo foi um famoso papa-defunto que atuou no interior do estado durante décadas. Não região litorânea, não ficou uma só cidade fora do alcance dos seus serviços funerári0s. O velho fez fama e dinheiro. Quando seu único filho, José Carlos, terminou o curso ginasial, ele o mandou para a capital. Seu sonho era que o rebento se formasse em engenharia, quando concluísse o científico, no Lyceu Alagoano.

Zé Carlos ficou hospedado na residência de uma tia, no bairro do Prado, cumprindo determinação paterna:

– Só volte pra casa quando estiver formado. Dinheiro não lhe faltará!

Anos se passaram e eis que, finalmente, o filho do papa-defunto retornou ao lar, todo orgulhoso, anelão enfiado no dedo. Beijou a mãe, abraçou o pai e disse:

– Pronto, pai; pronto, mãe, me formei! Nossa cidade agora tem um médico!

Seu Amabílio arregalou os olhos, saltou para trás, encarou a esposa e disparou:

– Tá vendo,  Dezinha? Tá vendo que filho ingrato você pariu? Gastei tanto dinheiro pra mantê-lo estudando na capital… Agora, ele chega aqui querendo acabar com o meu negócio!

 

Sem entender

Nascido em Portugal, Armando Fernandes casou-se em Salvador com a baiana Francisca Felizberta da Paixão. Vieram, então, morar em Maceió. Um ano depois, a luta do casal era por um filho.

Cinco anos mais tarde, Armando e Francisca resolveram partir para a adoção, já que não tinham tido a felicidade de produzir uma criança… umazinha, sequer. O que fez o casal? O casal procurou o local conveniente e adequado, dentro dos conformes legais, e expôs a sua vontade, o seu sonho.

Recebidos por uma simpática e gentil assistente social, Armando e Francisca foram levados ao berçário e, dentre os bebês ali concentrados, todos lindinhos, eis que Francisca se encantou por um japinha que ainda não tinha um mês de vida:

– Ô mais que coisinha fofinha! Um japonesinho! Vamos adotá-lo, Mandinho?

E o português:

– Quêisso, mulher?! Tá maluca?!

– Maluca por quê?

– Ora, logo ele vai crescer, começar a falar e a gente não entender droga nenhuma!

 

Tá fora!

O caríssimo Eviltácio de Sena, solteiro por força de um divórcio, resolveu comemorar a liberdade encarando uma viagem sem tempo de volta, por esse mundão afora. Grana no bolso, montou num “asa dura” e foi aterrissar em Tóquio. Estrago só presta grande!

Sem saber bulhufas da língua japonesa, Eviltácio pegou um hotel de luxo, instalou-se confortavelmente numa suíte e pediu um rango caprichado. Hora e meia depois, barriga cheia, banhado e barbeado, caiu na noite nipônica a fim de conhecer as famosas gueixas.

Eviltácio entrou numa casa de massagens, requisitou uma daquelas gatíssimas de olhinhos rasgadinhos e propôs à sobredita o devido amasso, com “etc e tal”.

A coisa começou com um beijo oriental. Daí a pouco, o bravo Eviltácio rolava, a mil, no tatame com a japinha, ora por baixo, ora por cima, ora de lado. E créu! – a primeira “pregada”. Créu, a segunda. Créu, a terceira…

E a japonesinha no seu ouvido:

– Tanaka! Tanaka! Tanaka!

Aí era que Eviltácio chamava na grande. Tome nhéco, nhéco…

E a japinha:

– Tanaka! Tanaka! Tanaka!

O heróico Eviltácio não dava trela para a mulher, que não parava de gritar: “Tanaka! Tanaka” …

É óbvio que Eviltácio não é de ferro. Quatro horas depois, ele deu um “stop” no “nhéco-nhéco”  e voltou para o hotel, acabadão, mas satifeito. Na portaria ele chegou pro recepcionista, por sinal brasileiro, e perguntou:

– Escuta aqui, ô meu… o que vem a ser “Tanaka”, na nossa língua?

O recepcionista respondeu:

– É… “Tá fora”!

 

Com Diego Villanova

17 de fevereiro de 2020

Terremoto pai d’égua!

    Está com uma porção de anos a história que vai abaixo papeada. É verdadeira mesmo e ocorreu nas Alagoas. A Segunda Guerra Mundial ainda nem tinha começado, quando um pedaço de solo do Sertão andou experimentando uns tremores invocados. Nenhum cristão ferido, graças a Deus. Prejuízos materiais muito poucos. Mas o susto foi grande! […]

14 de fevereiro de 2020

Remédio pra caspa

Eu e o finado colega Reinaldo Cavalcante tínhamos um amigo que é pirado todo. Trata-se do Fedúlcio C. Pimpo. Há décadas ele conviveu conosco. Na época em que Reinaldo foi acadêmico de Psicologia, seu laboratório era o Fedúlcio. De outra parte, o irmão dele, Federaldo virá a ser, mais tarde, uma grande contribuição à ciência […]

13 de fevereiro de 2020

O significado da palavra

A família Nelsino Barbosa é muito conservadora. Conservadora e religiosa ao extremo. Dona Quininha, sua santa genitora, só de frequência à igreja tem mais de 80 anos. Isso, de manhã de tarde e de noite. Nos tempos das saudosas Santas Missões do não menos saudoso frei Damião, de madrugada também. Pois, lá se encontrava o […]

12 de fevereiro de 2020

Campo impedido

Amigos inseparáveis desde os tempos de garotos no outrora pacato e tradicional bairro do Bom Parto (hoje transformado no maior antro de marginalidade da Capital), os ilustres José Maria dos Santos e Abelardo Pinto pintaram as canecas nas quebradas desta velha e histórica Maceió. Tecelões da finada fábrica de tecidos Alexandria, eles também davam uma […]

11 de fevereiro de 2020

O Valente borrado

Esta é do tempo de Pedro Álvares Cabral . Diz que, meses depois da partida do almirante português à procura de um Brasil para descobrir, da terra de além-mar também partiu um navio comandado pelo bravo capitão Expedito Gonçalves, com a missão de dar combate a uns piratas que andavam barbarizando tripulações de embarcações em […]

10 de fevereiro de 2020

Um cão especial

O delegado de polícia civil Antônio Rosalvo Cardoso, o proverbial Mamão, também sabe ser esperto. Certa noite de maio cumpria plantão no seu local de trabalho, a delegacia distrital de Novo Lino. Na falta do que fazer, contava anedotas de papagaio e de português para seus auxiliares. A algazarra era grande quando o telefone tocou, […]

7 de fevereiro de 2020

“Vai um cocozinho aí?”

      Edbordy Ribeiro tem uma vida complicada pacas! De tudo o que é ruim ele tem padecido, nem que seja um pouquinho. Uma das suas últimas desditas foi a de haver virado corno, depois de ter ficado mais de três meses estirado num leito hospitalar com as canelas, braços e costelas quebrados, em consequência de […]

6 de fevereiro de 2020

Uma questão de gentileza

      Rapaz finíssimo e de boa família, Rodonivaldo Tobias é incapaz de ofender uma mosca, quanto mais um seu semelhante. Boa-pinta, está sempre na dele. Pelo seu jeito delicado há quem o confunda. Garantem seus parentes e amigos mais próximos que ele é muito macho. Rodonivaldo só teve uma namorada na vida, a lourinha Nilza, […]

5 de fevereiro de 2020

Deu tudo certo!

Montado na grana, o veterano Lindolfo Guerra, seu Dodô, era um solteirão convicto. Um dia, resolveu deixar de ser celibatário e anunciou aos quatro cantos que decidira se casar, mas com uma condição: a mulher teria que ser zerada. Em função disso, raríssimas fêmeas se aventuraram aparecer como candidatas ao casório. Semanas depois do anúncio, […]