Ailton Villanova

6 de agosto de 2020

– Que continue o furdunço!

Metido a arrochado, João Bosco das Neves Xavier largou tudo o que tinha em Minas Gerais, inclusive mulher e filhos, e se mandou para Maceió, onde se estabeleceu no ramo da eletrotécnica. Aqui, se apaixonou ligeirinho pela professora Dalvina, uma morena linda que tinha tudo nos seus devidos lugares. Dalvina era dessas criaturas capazes de arrepiar até cabelo de estátua, quando cismava de transitar pelas ruas da Pajuçara vestindo uma roupa sumaríssima, colada no corpo.

Apaixonadão, Bosco marcava a morena em cima. Dalvina não podia dar uma voltinha que ele estava do lado. Quando ela reclamava da marcação cerrada, o mineiro ameaçava:

– Um descendente legítimo do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, como é o meu caso, não pode confiar cegamente numa mulher. Do contrário ele se desmoraliza. E, veja bem, no dia em que eu ao menos sonhar que você esteve batendo um papo com outro homem…

– E o que é que você faz?

– Faço o que fizeram com o meu parente: esquartejo os dois!

A ameaça deixou Dalvina amedrontada, mas por pouco tempo porque, belo dia, entendeu de cair de amores pelo galã Adalberto Ferreira da Silva, funcionário do Ministério Público Federal e sobrinho-neto do “capitão” Virgulino Ferreira, o famigerado Lampião.

Valente talqualmente o tio-avô, Adalberto era o cão chupando manga. Sem querer, ficou sabendo da ameaça do mineiro. Aí, emputeceu. Emputeceu e mandou um recado para o Bosco, pela própria Dalvina:

– Diga e esse “gaiúdo”, que eu sou especialista em cortar chifre de corno pela cepa, na base do tiro de espingarda “doze”.

Dois dias depois do recado, Adalberto encontrava-se agarrado com a mulher, na cama que ela dividia com o Bosco, quando o sobredito entrou no quarto:

– Êêêpa! Que esculhambação é essa aqui?! Não acredito no que estou vendo!

Nuzão como nasceu, o sobrinho de Lampião pulou no meio do aposento, deu garra da espingarda “doze” da qual nunca se separava e que se achava encostada no canto da parede, e replicou:

– Pois acredite! E fique certo também que, agorinha mesmo, vou arrancar as suas pontas na base do tiro. Se prepare!

Nesse ponto, o outrora brabo mineiro se afrouxou:

– Êpa, meu amigo! Peraí! Tenha calma! Eu reclamei apenas por reclamar. Pode continuar à vontade com a nossa Dalvina e faça de contas que eu não vi nada demais…!

 

A mulher convenceu!

A turma curtia um barato legal no Bar do Duda, em Mangabeiras. Cervejinha gelada correndo solta, sem previsão de faltar nas prateleiras. De repente, emboca no ambiente, todo feliz da vida, um dos fregueses mais assíduos da casa, o Manuel Luiz, vulgo “Mané da Broa”:

– Cheguei, pessoal! Eu hoje tô pagando todas, falei?!

A reação da freguesia presente foi de satisfação e ao mesmo tempo espanto, porque o recém-chegado nunca foi capaz de promover esse tipo de estrago. Seu parceiro mais chegado, um certo Béo Bicudo, quis saber o motivo de tanta alegria e gentileza e Mané da Broa esclareceu:

– É que hoje consegui aumento de salário!

– Não diga! E como foi que você conseguiu esse milagre?

– Bem, o mérito é todo da minha mulher, que foi pessoalmente falar com o meu patrão.

– Aí, o cara deu o aumento na hora, não foi? – especulou o Bicudo.

– Não, não. Na hora, não! Pra poder convencê-lo, ela teve de dormir três dias na casa do filho da puta!

 

Rápido demais!

Gente finíssima, excelente caráter, o colega Jalon Cabral um dia botou na cachola a ideia de que o aniversário do seu filho caçula teria que ser o acontecimento do ano:

– Vou botar pra empenar! – anunciou.

E botou mesmo!

Um dia antes do ágape, a rua onde na época morava, no Barro Duro, foi toda interditada.

– Pra que esses estragos todos, Jalon? Fechar a rua, rapaz! Você pediu permissão ao Detran? (na época não existia a SMTT) – ponderou o colega Valtenor Leôncio.

E ele, todo cheio de direito:

– E eu tenho satisfações a dar ao Detran, pra fazer festa de aniversário do meu filho, rapaz?

E tocou o pau pra frente. A vizinhança toda entrou na curtição. Num raio de 30 quilômetros não ficou uma garrafa cheia de birita dando sopa. Jalon Cabral requisitou todas.

Lá pelas tantas, ele era o mais embriagado da maioria dos convidados e participantes da festa. Além de ter dançado xaxado, fez um discurso de estremecer o morro do Barro Duro. Achou pouco, lançou a candidatura do filho à presidência da República, para o ano de 2.074.

A madrugada emendava com a manhã quando os convidados resolveram ir embora. Permaneceram no recinto uns poucos solidários, entre esses Jorge Vilar e Carlos Alberto Torres. Desorientado com tanta bebida na cuca, Jalon chegou pro Vilar e apelou:

– Companheiro, me arrume um taxi que eu quero ir pra casa!

Menos bêbado que o anfitrião, Vilar advertiu:

– Hic… mas tu já tá na porta de casa, bicho! É só entrar e pronto!

– Mas eu quero um taxi! Se num me arrumarem um taxi eu faço um escândalo nesta merda de rua!

Vilar chamou um taxi que ia passando, jogou o Cabral dentro e disse ao motorista:

– Parêia, me faça a gentileza de depositar esse camarada aqui na garagem…

O taxista entrou com o carro na garagem e fez conforme Jorge Vilar solicitou:

Assim que se viu dentro de casa, Jalon Cabral arregalou os olhos de espanto:

– Porra! Esse taxi e rápido demais! Num instantinho eu cheguei!

E caiu desmaiado.

 

Com Diego Villanova

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