Antônio Pereira

11 de fevereiro de 2021

Participantes negros do BBB21 fazem um desserviço ao movimento antirracista

Significado de Desserviço

substantivo masculino

Ação ou efeito de desservir.

[Figurado] Ação que denota falta de lealdade; perfídia.

 

 

A 21ª edição do ‘Big Brother Brasil’, ou BBB21 inovou ao colocar vários integrantes negros das mais variadas formações na casa. Essa iniciativa da Rede Globo de Televisão é pioneira no Brasil. Assim, Karol Conká, Lumena, Negro Di, João, Projota, Lucas Penteado, Gilberto e Camila entraram na casa com uma responsabilidade de representatividade jamais vista no programa de vida real mais popular do país.

Logo no início do programa, o ator Lucas Penteado ensaiou o que deveria ser uma ‘guerra’ racial, unindo todos os integrantes negros contra os integrantes brancos. Essa estratégia foi muito mal recebida por todos, levando Lucas a se perder no jogo, sendo hostilizado por praticamente todos os membros da casa, com exceção de Sarah e Gilberto. Daí para frente foi só ladeira abaixo, culminando com a desistência de Lucas, depois de receber um sermão daqueles da integrante Lumena, que é psicóloga social.

Paralelo a esta briga, formou-se um grande grupo dentro do BBB21, tendo o cantor Projota como líder máximo, determinando posições no jogo, inclusive como cada integrante deveria votar para colocar Lucas e Gilberto no paredão, com a determinação clara de tirar Lucas do programa.

Assim, durante as primeiras semanas do BBB 21 o grupo liderado por Projota, tendo como aliados mais próximos Negro Di e Arthur, configurou-se uma guerra interna. Fã de Projota, o ator Lucas Penteado passou a ser alvo permanente do grupo liderado por seu ídolo, que agiu sem o menor pudor para manobrar o jogo contra o agora desafeto.

Em meio a essas jogadas normais do BBB 21, Karol Conká e Lumena passaram a ser uma espécie de palmatória moral da casa, ditando normas e metendo o dedo na cara de todos os que, para elas, são inimigos ou simplesmente não gostam.

Se dizendo militante da causa antiracial, Lumena desde o início do programa deixou claro que queria marcar posição em favor do movimento, combatendo tudo o que ela considerava racismo estrutural. Com uma régua torta, a psicóloga foi o ponto de virada para a saída de Lucas Penteado e já se indispôs com vários integrantes do programa, com destaque para a atriz Carla Diaz, a quem Lumena procura para demonstrar todo o seu asco. Em conversa com Karol Conká, Lumena teceu comentários sobre a aparência de Carla Diaz. ‘Sem melanina, desbotada. Ela tem olho estranho, de boneca assassina’, declarou a psicóloga.

O humorista Negro Di é um capítulo a parte, já que fez declaração polêmica sobre o bárbaro assassinato da vereadora carioca, Marielle Franco. Em conversa no BBB 21, Negro Di disse que Marielle foi morta por ‘defender bandido’, reproduzindo o discurso das milícias cariocas e dos bolsonaristas.

Marielle Franco, junto com seu motorista, foram mortos a tiros em 2018. Marielle combatia à violência militar e a invasão das milícias nas comunidades do Rio de Janeiro.

“Abusos de Karol e chatice de Lumena não são a militância”

Em entrevista ao portal Terra, a ativista, psicanalista e fundadora do Coletivo Di Jejê, Jaqueline Conceição analisou comportamento das sisters e o impacto do ‘BBB21’ na luta antirracista.

Veja as principais resposta da especialista sobre as duas integrantes do BBB 21, Karol Conká e Lumena:

‘A questão da Conká é delicada, porque o que vimos foi uma pessoa com personalidade abusiva e violenta, e isso não está ligado ao fato de ser militante do feminismo negro. Porém, em muitos momentos, ela usou da retórica do feminismo negro para agredir psicologicamente o Lucas e a Juliette. É lamentável todos os desdobramentos que isso teve na carreira dela, mas isso faz parte do tão falado jogo do ‘BBB’: a exposição de pessoas e da sua privacidade. Nenhuma outra edição do programa foi tão assertiva em cumprir essa missão. Espero que as pessoas não associem o feminismo negro e as feministas negras com a postura da Conká’.

‘Há só um ponto importante nisso: muitas vezes ser militante é ser chato e até agressivo. A questão é que estão confundindo a personalidade das pessoas negras na casa com o que é ser militante. São coisas distintas. Conká é abusiva e agressiva, e Lumena é chata. Ponto. Elas não são assim porque são militantes. Elas são assim e militantes, e usam da militância para afirmar suas personalidades. Isso não tem nada a ver com ser militante. É importante diferenciar isso. As pessoas são chatas, agressivas, abusivas, afetuosas, companheiras, independentemente de serem brancas ou negras. Exacerbar o traço da personalidade delas, demonizando as duas, é um traço do racismo preso no inconsciente coletivo, porque o racismo espera das pessoas negras perfeição e docilidade. Mas pessoas negras têm temperamentos e personalidades próprias, como as pessoas brancas. Acredito que o Brasil está espantado com o fato de pessoas negras terem personalidades diferentes do imaginário social, de que o negro é sempre sorridente, afetuoso e brincalhão. Aliás, essa foi a imagem que a Conká construiu para ser aceita no mundo da branquitude: a da negra politizada, feliz, acolhedora e brincalhona’.

Movimento Negro

O que denominamos movimento negro é, na verdade, um conjunto de movimentos sociais que lutam contra o racismo e pela igualdade social e de direitos entre negrose brancos, sobretudo no mundo ocidental, marcado pela escravização de povos africanos.

Desde o século XIX, vários movimentos surgiram em defesa da igualdade de direitos civis, contra a escravidão e contra o racismo. A maior parte desses movimentos concentrou-se em países americanos e na África do Sul, por conta da escravização (nas Américas) e do imperialismo inglês e do apartheid (na África do Sul). No século XX, os movimentos ramificaram-se, desenvolvendo pautas de lutas sociais distintas de acordo com as necessidades da população negra local.

*Com informações do portal Terra e do brasilescola.uol.com.br