Antônio Pereira

29 de janeiro de 2021

Sentindo cheiro de carniça, Mourão articula fim de Bolsonaro

A traição está no ar. Desde o final da ditadura militar que o Brasil vive a síndrome do vice. Sarney que assumiu no lugar Tancredo Neves, que morreu de câncer. Itamar Franco que assumiu no lugar de Collor de Mello quando este foi retirado do poder por um impeachment, Michel Temer que ficou no lugar de Dilma Roussef, depois que articulou um golpe parlamentar, retirando a presidente eleita num esquema considerado golpista, onde envolveu o parlamento, o Supremo e as Forças Armadas, culminando com a eleição do capitão reformado do Exército, Jair Bolsonaro.

Agora, como que dando sequência a essa sina de vices que assumem no lugar do titular, o general aposentado, Hamilton Mourão foi pego de calças curtas, quando um dos seus assessores mais próximos foi flagrado articulando a queda de Bolsonaro, através de um impeachment. Já há algum tempo Bolsonaro e Mourão não trocam nenhuma palavra.

Tanto Mourão como Bolsonaro eram completamente inexpressivos na política, até vencerem a eleição de 2018 marcada com a retirada de cena do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que até então liderava todas as pesquisas de opinião pública. Mourão, um general que tem no currículo o fato de fazer parte do minúsculo partido do folclórico Levy Fidelis, foi alçado ao primeiro time da política nacional na esteira dos acontecimentos que culminaram com a retirada de Dilma, prisão de Lula e vitória do então deputado federal Jair Bolsonaro, famoso no baixo clero por proferir frases contra a esquerda, agredir mulheres, ser reconhecidamente homofóbico e racista.

Recentemente a imprensa divulgou um diálogo do assessor de Mourão, identificado como Ricardo Roesch Morato Filho, que procurou um chefe de gabinete de um deputado federal para iniciar os preparativos para a possibilidade do vice assumir a presidência, com a saída iminente de Jair Bolsonaro.

Veja abaixo o diálogo do assessor de Mourão com o chefe de gabinete parlamentar

– Tudo bem irmão?

– Fala Ricardo, tudo excelente!

– Quando deputado quiser agendar com Mourão só avisar.

– Opa! Obrigado. Possivelmente ele vai querer sim.

– Muito trabalho aí?

– Sempre tem.

– Precisamos tomar um café mais reservadamente.

– Bora ué.

– Eu tenho conversado com os assessores de deputados mais próximos é bom sempre estarmos preparados.

– Putz, preparados para que?

Nada demais articulação normal mesmo.

– Sabe que Mourão dividiu a ala militar.

– Antes, Heleno dominava agora estão divididos – capitão está errando muito na pandemia. General Mourão é mais preparado e político. Você sabe disso.

– Cara – não posso ter esse tipo de conversa – chefe não iria gostar.

– Mas vamos nos falando.

– Relaxa.

No fim da tarde, o vice-presidente condenou a atitude de Ricardo Roesch Morato Filho e disse que o assessor vai ser exonerado.

“A conversa houve. É algo que me deixou extremamente — vamos dizer assim — chateado porque o único patrimônio que eu tenho é a minha honra. E a minha honra está ligada à lealdade. São valores que eu não abro mão. Posso algumas vezes discordar de algumas coisas do presidente Bolsonaro, mas jamais vou trabalhar contra ele. E esse meu assessor avançou um sinal totalmente fora do foco, fora daquilo que são as minhas orientações. Como consequência, ele será exonerado brevemente”, afirmou Mourão.

  • Com informações do G1.