Antônio Pereira

15 de janeiro de 2021

Ao estabelecer data para início da vacinação, Dória força Bolsonaro a agir, mesmo que a contragosto

O governador de São Paulo, João Dória Júnior deu o que se chama em política de xeque-mate no presidente Jair Bolsonaro ao estabelecer o dia 25 de janeiro para início da vacinação, mesmo dependente de autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Deixo claro aos leitores deste blog que não tenho absolutamente nenhuma simpatia pelo governador de São Paulo, apenas estou tendo uma leitura da conjuntura política do momento.

Dória, que já foi grande aliado eleitoral do presidente, agora trava com Bolsonaro uma disputa renhida pelo protagonismo durante a maior crise sanitária da história. O governador paulista, desde o começo da pandemia, se postou em ‘defesa da ciência’, contra o negacionismo bolsonarista. Foi assim durante as duras decisões de fechamento total e parcial das atividades econômicas e também ao determinar que o Instituto Butantã buscasse uma vacina para a terrível doença.

Quando Dória conseguiu a vacina, em parceria com uma empresa da China, seu cacife político aumentou substancialmente, chegando ao ponto do ministro da Saúde, general Pazuello anunciar que iria comprar toda a produção, sendo desautorizado horas depois por Bolsonaro, que desdenhou mais uma vez da pandemia e lançou mão do seu esporte preferido: fake news, acusando os chineses sem qualquer prova de absolutamente nada, apostando única e exclusivamente no anticomunismo enraizado há décadas no Brasil.

A briga entre os dois políticos teve um capítulo decisivo quando o governador João Dória estabeleceu o dia 25 como início para a vacinação, forçando Bolsonaro, mesmo a contragosto, a se render e anunciar, através do ministro Pazuello a compra do estoque de vacinas já prontos vindos da comunista China. O engraçado da história é que tanto Bolsonaro como Dória são inimigos dos ideais comunistas e de esquerda.

Na sua campanha deliberada de sabotagem contra a vacinação ou qualquer outra medida que diminua o impacto da doença no Brasil, Jair Bolsonaro ainda tem a ANVISA para jogar, forçando o governo paulista e o Instituto Butantã a reunir páginas e mais páginas de documentos, numa ação deliberada de retardo da autorização emergencial do uso da vacina. Mesmo assim, um constrangido ministro Pazuello teve que se reunir com prefeitos e governadores para anunciar, finalmente, que o governo federal trabalha com os dias 21 ou 22 de janeiro para início da vacinação, deixando claro que a primeira foto será no campo bolsonarista, tudo para impedir que João Dória seja ‘coroado’ como responsável pela vacina no país.

Como vemos, a politização da saúde e de todas as outras áreas desde a ascensão de Bolsonaro ao poder tem sido um duro golpe no Brasil.