Gerônimo Vicente

3 de maio de 2020

Ignorância voluntária e a dominação de uma nova Era

Não basta afirmar que a ignorância tomou conta do poder no Brasil e que o país, hoje,  é controlado por uma pessoa com transtornos de personalidade. É preciso entender qual o motivo de muitos adeptos a este modelo perverso de gestão serem, propositadamente ignorantes, apesar de ter obtido conhecimentos suficientes  para apontar que o fato contestado por ele  não se sustenta, cientificamente, como por exemplo, o terraplanismo, as curas messiânicas e tantas outras elucubrações estranhas que, rapidamente  se espraiaram pelo mundo ocidental, amparado por segmentos militares, religiosos e armamentistas que têm acolhidos jovens e adultos idosos para esse modelo comparado a seita.

Na semana passada, lendo no site Médium,  um artigo intitulado A Era da Ignorância, de autoria de  um escritor paquistanês e radicado na Inglaterra, chamado  Umair Haque,  tive uma melhor compreensão sobre  o que já desconfiava  quanto à ação desses grupos políticos  denominados de extrema-direita.

Haque trata este tipo de ignorância como voluntária , uma forma de dissonância cognitiva, ou seja,  a discordância das verdades cotidianas para se apegar em mitos e pregar informações que eles tentam aplicar na prática como novas verdades.

É por isso, as fakes news têm sido o mecanismo mais eficiente para convencer e até provocar o proselitismo, ou melhor,  chamar gente para aceitar os seus argumentos.

Exemplo: há dez dias, o presidente dos Estados Unidos recomendou aos norte-americanos beber desinfetante como medicamento  contra o coronavírus. É não é que muitos  compatriotas dele tomaram o produto!

Como resultado, os  hospitais atenderam várias pessoas com problemas de intoxicação depois de ingerirem produtos de limpeza, o que levou as entidades médicas a implorarem para que  os conselhos presidenciais não fossem atendidos
O  caso de assemelha  à recomendação do governo brasileiro pelo uso desordenado da cloroquina pela população. O assunto somente sumiu, depois que as entidades médicas norte-americanas desaconselharam o uso do medicamento contra a Covid-19.
No artigo Umair Haque afirma o seguinte: “Quando olho ao redor do mundo hoje, vejo uma ignorância devastadora no trabalho, como nunca antes em nossas vidas. Devo citar alguns tipos? Intolerância, racismo, ódio, xenofobia, nacionalismo, ganância, despeito, crueldade, fascismo. Ignorância sobre ignorância, de todos os tipos do diabo. Mas a coisa realmente estranha não é tudo isso – a ignorância sempre existe, não é? Hoje, a ignorância é voluntária nas formas de deliberar orgulhosamente, ser arrogante, exultante, pomposo, sonoro e engrandecedor. Acena faixas, canta cânticos e discute filosofias”.
O que quis afirmar, segue o escritor, é que hoje a ignorância se manifesta como iluminação, ou seja se apresenta, orgulhosamente como sabedoria, nos best-sellers, por meios dos influenciadores do youtuber, por professores universitários que anunciam seus ideais, teorizam, vendem e dispõem de compradores à beça.
 O conteúdo desses produtos é composto, segundo Haque, por  dissonância cognitiva, regressão infantil e narcisismo maligno.
Quem está lendo deve ter percebido que essas características se assemelham muito ao que se vivencia no Brasil atual.
No caso da dissonância cognitiva, essa surge por meio da disseminação de notícias falsas. Alguém diz por exemplo:
“Ei, você sabia que os americanos vivem cinco anos a menos que os europeus?” Junto com afirmativa vem uma série de justificativas, negações, desinformação, pontos de discussão  na mídia, seguidos de desconfiança, ataques pessoais e, finalmente,  a raiva. São  novas informações, que, segundo o escritor, conflitam, fortemente com crenças pré-existentes e confrontam como velhos mitos. E, assim as pessoas terminam aceitando sem contestar.
É como se dissessem “como não há conceito definitivo nem dono da verdade, a negação também pode ser uma verdade”.  Para Haque é uma espécie de autopreservação desesperada. 
O escritor paquistanês cita ainda a regressão  infantil como outra característica de ignorância voluntária e aí,  veio-me à lembrança a ministra da  Mulher e da Cidadania Damares Alves  ao caracterizar personagens de desenho animados,  como o lesbianismo de Elsa, do filme animado Frozen e do machismo desenfreado do Pica-Pau e  Popeye. 
Umair Haque diz que a ignorância por iluminismo faz com que seus adeptos voltem  ao estado infantil. “O conto de fadas permite que a criança exista, pertença, sinta-se segura, a única, a escolhida – o cavaleiro ou a donzela, faça a sua escolha – e, desse modo, se sinta amada da maneira que eles precisam ser amados”.
Mas por que os adultos, que regressaram a estados infantis, precisam se sentir grandiosos, onipotentes, os únicos em todo o mundo? pergunta o autor. Ele mesmo responde: “porque o mundo é realmente um lugar hostil e assustador hoje em dia. Dificilmente se pode sobreviver a estes dias, seguindo humildemente as regras. 
O capitalismo predatório cria um mundo que, constantemente destrói o senso de autoestima das pessoas – e é precisamente por isso que as pessoas estão sempre buscando embasar esses egos ausentes com mitos grandiosos de quão especiais, únicas e maravilhosas elas são”.
A terceira característica é o narcisismo maligno.  O paquistanês lembra que o narcisista  não é aquele que pensa demais e si mesmo. Ao contrário, ele pensa pouco, tão pouco que não tem senso de valor ou de propósito. Ele não nada para si mesmo, e, assim precisa constantemente de  garantias, elogios,  admiração, mesmo que seja de maneiras destrutivas, abusivas ou ruinosas. E mais: a tudo isso ele chama de amor, embora seja apenas poder, sobre você, sobre o mundo, sobre a sociedade.
 “O poder de, se não merecer elogios, exige pelo menos sua submissão, sua dor, seu desamparo – que é o que dá ao narcisista maligno a validação necessária para preencher oseus espaços. A dor de sua impotência é a única coisa que pode validar a auto-existência do narcisismo maligno.”
O narcisismo maligno passou a existir porque o capitalismo predatório fez dele uma imagem de espelho de si mesmo – não deixou nada nele, nem mesmo um eu. 
A existência do narcisismo se apoia no fato de o mundo inteiro estar em chamas, mas que não o atinja. E,  diante da impotência da maioria, o narcisista sente poderoso, numa espécie  “quanto  mais você sofre, mais em existo”.
O escritor termina o artigo com uma recomendação: Talvez você e eu devêssemos ser mais sábios do que aqueles que orgulhosamente se dedicam a isso.

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