Alisson Barreto

7 de abril de 2020

A política e o encantador de pessoas – O que tem a ver um brasileiro, um nazista e um anglicano?

Publicação: 7/4/2020

Autoria: Alisson Barreto

A política e o encantador de pessoas

O que tem a ver um brasileiro, um nazista e um anglicano?

Da indagação acima duas perguntas devem seguir: (1) o que tem a ver um brasileiro com um alemão e um inglês? (2) Dizem que futebol, política e religião não se discute, mas até que ponto isso seria verdade e por quê?

Vamos à história.

  1. A Igreja, por mais de 1500 anos, levou a missão de levar o Evangelho a toda criatura e realizar a oração sacerdotal de Cristo para “que todos sejam um”, n’Ele, o que levou a um senso de unidade propício à formação de reinados e deu origem aos países europeus e, mais tarde, a União Europeia. Primeiramente, o propósito era de unidade em Cristo, no senso de pertença ao Corpo de Cristo. Quando Lutero deu início à Separação Protestante, em 1517, membros de realezas de diversos países viram, na possibilidade de reinterpretar a influência da Igreja em seus territórios, uma oportunidade de romper com a liderança da Igreja, dando origem a uma série de igrejas, ou mesmo voltando a agnosticismos e superstições. Em 1534 foi a vez da Inglaterra: o rei queria casar-se novamente e, como a Igreja não permitia, ele rompeu com a Igreja e fez sua própria igreja, a anglicana. Para ela migraram não apenas os leigos fiéis ao rei como também padres e bispos.
  2. Em 1919, um indivíduo chamado Adolf Hitler entrou para o Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei), o qual mudou de nome em 1920, passando a chamar-se de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, também conhecido como partido nazista. O nome gera controvérsias, mas tentemos destrinchar os nós: com o rompimento do socialismo com o comunismo, o termo socialista ficou um tanto em aberto e chegou a ser disputado por ambos os lados, não obstante muitos o confundiam com o comunismo. Para alguns comunistas, os socialistas seriam traidores da causa e para outros passou a ser um meio para se atingir a causa (sem contar que há marxistas que afirmam dizer que Marx toma o socialismo como momento histórico sucessor do capitalismo como este seria sucessor do feudalismo); enquanto os direitistas, num primeiro momento buscaram usar o termo em favor da sociedade direitista e, depois, passou a combater associando-o ao marxismo. Aparentemente, o partido de Hitler tinha um viés comunista e, quando muda de nome, adota um aspecto socialista, conquistando apoio da direita alemã e chegando ao poder. Sendo extremista, transforma a luta de classes econômicas em luta de classes étnicas, elegendo os judeus como bode expiatório histórico para os fracassos dos alemães em guerras passadas e seus prejuízos financeiros. Assim, os nazistas foram considerados de direita pelos esquerdistas, por ser alçado ao poder pela direita, e vistos como de esquerda pelos direitistas, por se utilizar de ideais socialistas e comunistas. Portanto, o lado aqui é menos relevante, diante do fato que levou uma multidão de seguidores de Hitler a ovacionar seus feitos e lutar pela causa hitleriana.

Tais situações levam a um questionamento: o que levou os ingleses católicos a seguirem o Henrique VIII e se tornarem anglicanos e o que levou os alemães a seguirem Hitler? Um dos aspectos foi o patriotismo enaltecido por ambos, o qual é uma face de uma impulso popular que leva a mover-se, passionalmente, pela causa. No mover-se passional, o cérebro do sujeito primeiro age pela parte primitiva para depois utilizar a parte reflexiva. Em regra, a paixão não dá tempo para a reflexão prévia, podendo ainda levar a tentativas de justificação racional da emoção sentida. Assim, um torcedor primeiro grita por seu time e luta com um rival, tomando-o como inimigo, sem conseguir parar e olhar de fora, imparcialmente, para só depois poder pensar nas consequências de seus atos. Seu ímpeto subjetivo não dá espaço para a análise objetiva do agir, tentando justificar o ato com os anseios. É assim que um torcedor escolhe uma cor, um time pelo qual pode chegar a matar ou morrer. Quando a torcida ocorre no aspecto político, os envolvidos vestem a camisa do partido que abraçaram, negando tudo o que lhe possa contestar e defendendo tudo o que possa enaltecê-lo. Note que algumas pessoas têm o carisma de pegar o gancho que fisga seguidores (por ex., o patriotismo) e motivá-los a segui-los. Quando líderes carismáticos, conseguem o nível de fidelidade de um time, eleitores passam a ser seus apoiadores, defensores e sustentadores. Nesse nível, os nomes dos partidos ou seus lados já não afetarão a causa, pois o empenho é de cada indivíduo, uma vez que foi alcançada uma fidelidade na subjetividade de cada um.

Portanto, independentemente da nacionalidade de um cidadão, seu país não está livre dos estragos que um líder carismático pode fazer. E em tempo de polarizações, os riscos são sempre preocupantes.

Maceió, 06 de abril de 2020.

Alisson Francisco Rodrigues Barreto

Em poesia:

Sobre o autor:
Alisson Francisco Rodrigues Barreto é poeta, filósofo (Seminário Arquidiocesano de Maceió), bacharel em Direito (Universidade Federal de Alagoas), pós-graduado em Direito Processual (Escola Superior de Magistratura de Alagoas), tendo também cursado, parcialmente, os cursos de Engenharia Civil (Universidade Federal de Alagoas) e Teologia (Seminário Arquidiocesano de Maceió). Autor do livro “Pensando com Poesia” e escritor do blog “Alisson Barreto” (outrora chamado de “A Palavra em palavras”), desde 2011, e da Revista Pio.
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