Alisson Barreto

31 de março de 2020

Os Marxistas da Direita

Publicação: 31/3/2020

Autoria: Alisson Barreto

Os Marxistas da Direita

O título, de imediato, pode impulsionar críticas. Mas as linhas que se seguem poderão fazer muita gente repensar a própria visão ou até mesmo levar a repensar a própria posição.

As polarizações extremistas acabam acarretando alguns equívocos político filosóficos. Por exemplo, pensar que tudo da esquerda é marxista é um engano; pois o anarquismo e o progressismo também são concepções de esquerda e não são por si marxistas, ou seja, não fazem parte do marxismo, diretamente, sendo um paralelo e outro mais abrangente.

O marxismo apresenta uma proposta de divisão e fomentação da luta de classes. Ironicamente, o antagonismo polarizado entre os de extrema esquerda e extrema direita acabam por produzir esse efeito. Mas isso ainda não soa suficiente para classificar a dicotomia como algo por si marxista, afinal, esquerda e direita são conceitos mutáveis e que antecedem o marxismo.

A primeira referência ao se falar em marxismo é justamente a luta de classes, especialmente, entre pobres e ricos, o proletário e o patrão, o corpo e a cabeça. Nisso, logo se vê que é por si contrária ao Cristianismo. Enquanto este busca a unidade cristológica, aquele busca o diabólico antagonismo. Enquanto o Cristianismo busca o amparo ao mais fraco; o marxismo, propriamente dito, busca a excitação da classe operária para se tornar mais forte e suplantar a classe mais rica, ainda que para isso possa apresentar-se como socorro da solução ao mais fraco.

Acontece também que, se o marxismo é pobre versus rico, nele está o pobre e também o rico. Observe as seguintes hipóteses:

  • Hipótese A – uma suposta direita é conduzida ao poder para acabar com a dicotomia pobre-rico. Mas se alguns de seus apoiadores querem fomentar o rico deixando o pobre à própria sorte ou até que uma rede social sinta a falta deles, transformando-os em “pobres úteis”. Então, esses apoiadores estão a fomentar a divisão entre classes com foco inicial não do proletário, mas no empresário rico. Ora, se o marxismo sugere a divisão pobre versus rico e há uma esquerda que foca no pobre e uma direita que foca no rico, logo essa esquerda e essa direita são dois lados do marxismo: pobre e rico. Consequentemente, ambas fomentam a divisão de classes, querendo o poder e, ainda que se digladiem em acusações mútuas, servem ao mesmo propósito.
  • Hipótese B: o líder que sobe ao poder como de direita e ao chegar ao poder destrói a imagem da direita com ações que prejudicam o trabalhador, o aposentado e marginaliza o excluído. Tal líder acaba fomentando uma reação adversa em tantos quantos não os sejam seus seguidores fiéis, mas gera adversidade suficiente para que os excluídos se direcionem para a esquerda explícita como seus salvadores. Viabilizando o retorno da esquerda explícita com mais força de apoio popular. É o tal do jogo das tesouras: dois lados supostamente opostos, executando o mesmo objetivo.
  • Hipótese C: a hipótese do cavalo de Troia: um indivíduo infiltra-se na oposição ao marxismo, buscando conquistar a confiança; ouve o que a oposição quer, propõe implantar o proposto e apresenta-se como porta-voz. Defende as vozes da oposição ao comunismo até chegar o poder, quando começa a adotar práticas utilizadas pelas vozes a que combateu. No início, isso é tolerado e até defendido pelos apoiadores, em nome da governabilidade, ocultando um caráter de crença em que “os fins justificam os meios”. O cavalo de Troia avança até que o estrago seja suficiente para a esquerda assumir seu posto.

O problema das conjeturas acima é que a situação tende a ser agravada quando a população, não ciente da gravidade, acaba tomando postura de defesa dos líderes das hipóteses acima, deixando de consumir qualquer informação que lhes conteste ou desmitifique. É a situação na qual parte da população deixa de ler qualquer jornal que não apoie seu líder incondicionalmente e concentra o máximo de esforços possível na pesquisa de argumentos que corroborem com a defesa do seu líder, fazendo uma espécie de barreira de proteção contra os anticorpos do organismo social.

Obviamente as hipóteses acima não são autoexcludentes e podem juntarem-se umas às outras como instrumentos da conquista de poder. O que corre por fora, coadunando com a proposta divisória do marxismo, é o cidadão comum que passa a defender a direita por interesse em estar de um lado rico a ver a classe pobre como um mero outro lado da sociedade. É o tipo do cidadão que pode até não querer a luta de classes, mas quer a divisão da sociedade em classes e até fomenta o sectarismo com atitudes como a bajulação dos grandes e humilhação dos pequenos. É o tipo de postura tragicômica do “eu odeio pobre”. Tal postura é assumida pelo pobre que vê com bons olhos a humilhação de outros pobres desde que ele fique do lado “opressor”, como diriam os marxistas.

Convém, entretanto, uma ressalva: algum líder pode ser de direita e acabar fazendo o joguinho da propaganda negativa à direita, favorecendo a esquerda, sem ter o interesse de promover a esquerda. Mas promovendo-a apenas por sua incapacidade de gestão. Pois da mesma forma que um bom líder pode pegar uma equipe desacreditada e torná-la vencedora, um mal gestor pode pegar uma equipe vencedora e levá-la ao fracasso.

Mas cuidado com os líderes carismáticos. Eles podem chegar até desacreditados, mas tomarem a confiança de tal modo que seus seguidores passam a fazer a campanha por conta própria, apoiando-o, defendendo-o e sufocando reações de oposição. Isso aconteceu, por exemplo, na Alemanha, onde o partido nacional socialista dos trabalhadores da Alemanha, que acabou se transformando em simplesmente Partido Nazista conseguiu tomar o poder inflamando o povo com o anseio de voltar a fazer da Alemanha um país de força imperial. E nesse intuito acabou fazendo a divisão de classes no aspecto biológico: considerando de um lado a suposta raça ariana, como superior às demais, e do outro as demais etnias, tomando os judeus como o representante máximo do empecilho ao desenvolvimento alemão.

Como se sabe, a divisão das sociedades em raças e motivação ao enaltecimento de uma etnia ou outra não é novidade e não se findou no passado histórico. Aliás, convém dizer que, biologicamente, não existem raças na espécie humana; sendo, portanto, uma classificação meramente “sócio-preconceituosa”. O critério socialista biológico continua sendo utilizado, mas não mais tomando o judeu como bode expiatório, ainda que exista muito fortemente uma reação forte contra os de fé judaica ou cristã. A perseguição aos judeus e cristãos tem origens, entretanto, não será aprofundada neste texto, pois ela é de interesse não apenas de marxistas, mas também de ateus e de outras denominações religiosas.

Como se vê, há muitos na direita que assumem posturas convenientes ao marxismo e podem, consequentemente, serem chamados de marxistas práticos ou elípticos. Pois promovem o marxismo sem aparentarem querer promovê-lo. Talvez até não sem ciência disso.

Maceió, 30 de março de 2020.

Alisson Francisco Rodrigues Barreto

 

Poesia relacionada ao texto:

Sobre o autor:

Alisson Francisco Rodrigues Barreto é poeta, filósofo (Seminário Arquidiocesano de Maceió), bacharel em Direito (Universidade Federal de Alagoas), pós-graduado em Direito Processual (Escola Superior de Magistratura de Alagoas), tendo também cursado, parcialmente, os cursos de Engenharia Civil (Universidade Federal de Alagoas) e Teologia (Seminário Arquidiocesano de Maceió). Autor do livro “Pensando com Poesia” e escritor do blog “Alisson Barreto” (outrora chamado de “A Palavra em palavras”), desde 2011, e da Revista Pio.

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