Ailton Villanova

6 de dezembro de 2019

BEBEU ERRADO

Morador de um dos pedaços mais encardidos do proletaríssimo bairro Brejal, Jotalênio Messias, o Jota Macumba, nunca foi de enjeitar uma bebidazinha alcoólica. É de tomar todas. E sem fazer careta, ainda mais.

 

Além de biriteiro, o Jota é tido como arruaceiro e chegado a um terreirozinho de macumba, tendo sido o de sua preferência aquele que ficava na beira da lagoa da Levada, cuja ialorixá era “Mãe Nazinha”, com a qual manteve um breve e incrementado romance, pontilhado de tapas e beijos. Seu amigo mais chegado, Biu Coconha, o definiu da seguinte maneira: “Aquilo não foi um namoro; foi uma verdadeira luta de boxe”.

 

Aos trancos e barrancos, Jota e Nazinha compareceram ao altar, onde contraíram núpcias, com promessa de “amor eterno”. Mas, que “amor eterno” foi que esse que só durou três semanas e arrastou à morte trágica um infeliz chamado Galileu, que a fatalidade o colocou no caminho do casal. Galileu não tinha nada a ver com Jota e Nazinha. Ela, dona de temperamento expansivo e ele, ciumento ao extremo.

 

A primeira briga séria entre Jota e Nazinha verificou-se mal principiaram os festejos da lua-de-mel. Enciumado porque a mulher havia permitido receber o abraço de um convidado na festa, Jota aplicou-lhe um tabefe na cara. Madame revidou desferindo-lhe uma garrafada no meio da testa.

 

A partir daí, todos os dias uma contenda. Até que, não mais tendo como manter o casamento em harmonia, Nazinha, depois da ultima surra que tomou, resolveu vingar-se de maneira definitiva. Aí, idealizou o maquiavélico plano de matar o marido envenenado.

 

A mulher aproveitou a ocasião em que Jota tomava cachaça, na companhia de amigo na porta de casa. De fininho, e sem que ele percebesse, despejou todo o conteúdo do saquinho do veneno conhecido como “Estriquinina”. Aí, ficou esperando o resultado.

 

Ocorre que, mal a mãe-de-santo acabou de envenenar a bebida do marido, bateu no sobredito uma súbita vontade de ir ao “mictório”. Ele se levantou e disse ao amigo:

 

– Bertoldo, aguenta a mão aí, um pouquinho, que eu vou alí na privada soltar uma mijadinha, falei?

– Falou, bicho! – respondeu o parceiro.  Vai lá. Mija à vontade!

 

Mal o Jota sumiu de vista, pintou no pedaço o vizinho Galileu que, reparando no copo com bebida dando sopa, em cima de uma mesinha posta na calçada, cresceu o olho e lambeu-se todo:

 

– Mano, de quem é essa bebida, que está aqui desprezada? Ôxi! É crime abandonar uma gostosura dessa!

 

O indagado nem teve tempo de responder alguma coisa. Apoderando-se do copo do Jota, sem pedir licença e nem nada, o vizinho já estava despejando goela a dentro a bebida envenenada. Assim que a dita assentou no estômago, ele arregalou os olhos, soltou um pum violento, um berro canino e estabacou-se no chão, estrebuchando. Dois minutos depois, estava de canelas esticadas.

 

Ao voltar ao local da biritagem, Jota se deparou com a cena dantesca: o vizinho estendido no chão, segurando o seu copo (dele, Jota) vazio. Uma grossa e sanguinolenta espuma escorria pelo canto da boca do infeliz.

 

– O que foi que houve com o Galileu, hein,  Bertoldo? O que ele está fazendo aí, deitado desse jeito, com o meu copo na mão? – indagou Jota, sem entender o que estava ocorrendo.

 

E o Bertoldo, todo atrapalhado:

 

– Rapaz, sei direito, não. Só sei que, quando você foi lá dentro mijar, ele chegou aqui, apossou-se do seu copo, e bebeu toda a birita que tinha dentro. Em seguida, soltou um berro filho da mãe e caiu aí, estatelado. Eu tenho pra mim que essa bebida fez mal à ele!

 

Desse causo, o que se tem como notório é que o casamento de Mãe Nazinha com o Jota Macumba deixou de existir na noite em que Galileu involuntariamente bateu as botas. Por outro lado, a “causa mortis” do indigitado nunca foi oficializada.

 

IDEIA MUITO LOUCA

 

De manhã, logo cedo, o Fedúlcio me ligou:

 

– Meu nobre e insigne Mestre Villa…! Acabo de ter uma ideia brilhante, maravilhosa e assaz extraordinária!

– Não me diga, Fedúlcio! – exclamei. – Você tendo uma ideia já um fato extraordinário!

 

E ele, empolgadíssimo:

 

– Nada neste mundo é inaproveitável, grande mestre. Escute só e vibre com a grande ideia deste seu criado…

– Estou escutando. Mande brasa!

– Acabo de bolar um projeto incrível para acabar com a crise no crematório…

– Que crematório, Fedúlcio?

– Todos! O meu projeto irá render uma grana preta!

– Não estou entendendo!

– Pois vai entender agora, grande mestre. O senhor já imaginou eu vendendo cinzas de defuntos para os canibais da África como gente instantânea?

Bati o telefone no seu ouvido.

 

Com Diego Villanova