Ailton Villanova

4 de dezembro de 2019

ASSASSINO MUSICAL

O rádio de época não muito distante em Alagoas, dava gosto ser ouvido. O ouvinte era levado na mais alta consideração e respeito. Afinal, sua finalidade precípua era a de servi-lo, educando, informando e instruindo. Os locutores eram profissionais da melhor qualificação, escolhidos mediante exigentes testes. Dava gosto escutar rádio. Eu sou dessa época. E me orgulho disso.

 

No ano de 1948, eis que, por iniciativa do governador de então, Silvestre Péricles de Góes Monteiro, instalou-se em Maceió, a primeira emissora radiofônica de Alagoas, a Rádio Difusora, cujo “cast” legou à posteridade nomes como os de Aldemar Paiva, Haroldo Miranda, Ezechias Alves, Jesualdo Ribeiro, Cláudio Alencar, Lima Filho, Osvaldo Braga, Jorge Sá, Florêncio Teixeira, Odete Pacheco, Ednai Mesquita, Zezé de Almeida, Antônio Paurílio, Sandoval Caju, Juracy Alves, Ascendino Santos, Nely Luna, Juracy Alves, Maestro Passinha, Roland Benamor, Zezé de Almeida, Duílio de Almeida, José Renato, José Prezado, Alcides Teixeira… – apenas para citar os PIONEIROS.

 

A Difusora funcionava na rua Pedro Monteiro, centro da Capital, numa parte do suntuoso prédio-sede do Jardim Infantil da Secretaria da Educação e Cultura. A emissora nada ficava a dever às congêneres famosas do País. Na sua eclética programação, incluíam-se os jornais falados, as novelas (que eram irradiadas ao vivo) e os programas de auditório (também ao vivo), que eram sempre superlotados.

 

Das audições que eram irradiadas diretamente do auditório, destacavam-se aqueles que eram conhecidos como “programas de calouros”, sempre apresentados pelos animadores Odete Pacheco e Luiz de Barros. Os melhores classificados saiam de lá agraciados com brindes ofertados pelos patrocinadores das sobreditas atrações.

 

O programa comandado por Luiz de Barros, intitulado Vesperal das Senhorinhas”, ía ao ar às quintas-feiras, principiando às 15 horas e se estendendo até às 17 horas, sendo sequenciado pelo “Chá das Cinco”, sob o comando de Cláudio Alencar – um programa primoroso. Os candidatos concorrentes ao prêmio de “melhor calouro” compareciam à emissora às terças-feiras para os devidos ensaios com o Regional dos Professores – conjunto musical de primeira linha – que, na maioria das vezes, contava com a regência do maestro Paurílio.

 

Numa bela quinta-feira, “por motivos imperiosos”, os calouros do programa do Luiz de Barros – entre eles um tal de Tancredo Messias – tiveram que se exibir diante da plateia no peito e na raça. Cada um deles encarava o maestro, o conjunto musical fazia “tchan, tchan, tchaann” e o candidato mandava o bocão pra frente.

 

Aí, chegou a vez do tal Tancredo. Luiz de Barros, cheio de animação perguntou pra ele:

 

– E então, meu amigo, qual é a música que você vai cantar para o nosso distinto auditório e para os nossos caros ouvintes?

 

O cara exibiu um sorriso cheio de dentes, deu uma chupada num deles e respondeu:

– Seu Luiz, eu vô cantá um sucesso nacioná munto fino e apraudido, num sabe?

– E que sucesso é esse, meu caro?

– U viru dú…

– U vir udu? Muuuiiito bem! Mas, eu não conheço esse sucesso… Pessoal aí do auditório, vocês conhecem?

 

E a platéia, em coro:

 

– Nããããõoooo…

– Deve ser sucesso novo…! Não é auditórioooo?

– Éééééé…

 

Luiz de Barros se virou para o calouro e determinou:

 

– Muito bem, seu Tancredo… Pode cantar…

 

O cara abriu o bocão e lascou lá:

 

– Uviru du piranga/nas maga práááticas…

 

Tancredo só cantou até aí, porque, indignadíssimo, Luiz de Barros o expulsou do palco sob a seguinte ameaça:

 

– Criminoooso! Você está assassinando o Hino Nacional Brasileiro! Se você parar de cantar agora, eu chamo a polícia!

 

O infeliz quase foi linchado.

 

COMPENSAÇÕES

 

Bela tarde de sábado, no Bar do Duda, em Mangabeiras, os amigos Benedito Camarão e Federaldo Pimpo, transferiam para seus respectivos buchos, o conteúdo de um monte de garrafas de cerveja. Entre um gole e outro, mastigavam canelinhas de caranguejos e conversavam miolo de pote. Em dado momento, eis que Biu Camarão saiu-se com esta:

 

– Veja como a natureza é sábia, amigo Fedé: ela trata sempre de dar compensações. Por exemplo, se uma pessoa perde um olho, a outra vista se torna mais forte. Se alguém ensurdece de um ouvido, fica escutando mais nitidamente pelo outro…

 

Aí, o Federaldo que já estava pra lá de embriagado, temperou a goela e emitiu o seu parecer concordativo:

 

– Joia, bicho. Você tá coberto de razão. Eu também já percebi isso. Por exemplo eu notei que quando um cara tem uma perna mais curta, a oura fica sempre mais comprida!

 

MAIOR FORA!

 

No cafezinho da Câmara dos Deputados, em Brasília, dois parlamentares muito amigos se encontram. Um deles adiantou o papo:

 

– Precisava te encontrar mesmo, para lhe contar que tomei uma grande decisão…

– Iiihhh, companheiro é tão séria assim? – indagou o outro.

– Seríissima! Resolvi me separar…

– Porra meu louro! – interrompeu o companheiro. – Decisão acertada, rapaz! Até que enfim, hein? Aquela sua mulher realmente é uma tremenda vagabunda! Todo mundo, aqui na Câmara, já fodeu com ela!

– Minha mulher???!!! Eu não acredito! Eu estava começando a lhe contar que estou pretendendo me separar… Mas, é do partido!

 

Com Diego Villanova