Ailton Villanova

1 de novembro de 2019

A Agonia da Repórter

Inteligente repórter da antiga Tribuna de Alagoas e da Gazeta de Alagoas, a jornalista Linda Lobo decidiu, um dia, alçar vôo mais alto e tomou a iniciativa de se transferir, com malas e bagagens para São Paulo, onde tentaria um emprego em qualquer jornal daquela capital. A bem da verdade, ela estava seguindo os passos do marido, que tinha viajado na frente, porque arrumara serviço certo na paulicéa.

Linda Lobo pegou os dois filhos e com eles montou num avião, que teve de fazer conexão em Salvador. Aí, deu a maior confusão: a jornalista perdeu-se dos filhos no aeroporto, justo na hora do traslado e abriu a boca a chorar. Se fosse um chorozinho contido, educado… tudo bem. Mas ela fez o maior escarcéu, berrando tanto, que o aeroporto parou. Até PE da Aeronáutica entrou em cena

– O que houve, minha senhora? – indagou um major da Armada.

E a Linda, dando uma meia embreagem no berreiro:

– Sequestraram os meus filhos! Buáááá´… Snif, snif…

A aeronautica mobilizou a Polícia Federal, que imediatamente interditou o aeroporto.

– Não desce e nem sai nenhum avião! – determinou o delegado da PF encarregado da operação.

Ligeirinho, Brasília tomou conhecimento do fato e o Ministério da Aeronáutica mandou um recado:

– “Prendam os sequestradores de qualquer jeito! Devem ser terroristas internacionais!”

Enquanto isso, sentadinhos num cantinho da estação de passageiros do aeroporto, os filhinhos amados da colega Linda Lobo estavam adorando aquela movimentação toda. Por outro lado, a jornalista era mantida afastada da imprensa, com ordem para não abrir a boca nem para beber água. A empresa que transportava LL & Cia.  mandou avisar que já havia lhes reservado um apartamento no hotel mais luxuoso de Salvador, com direito a todas as mordomias, inclusive médicos, psicólogos, enfermeiros, etc.

Quando a repórter, protegida por verdadeiro aparato policial se deslocava para o hotel, um dos agentes reparou numa dupla de garotos que desfilava, lampeira, pra lá e pra cá. Imediatamente o agente comunicou o fato a seu superior hierárquico, que abordou os menores:

– Onde estão os seus pais, meninos?

Um eles respondeu:

– O meu pai está em São Paulo e a minha mãe é aquela alí, que está sendo carregada pela polícia!

Em síntese, a aventura terminou bem para a jornalista, que foi conduzida com os filhos para São Paulo, em avião especial. Ninguém sabe porquê!

 

Somente o Bozó!

Nos tempos em que Cleto Marques Luz, José Sebastião Bastos (o Bastinhos) e o Jacques Cardoso eram garotões no Bom Parto, lá morejou a singular e analfabeta figura do cabo PM Xavier, cupincha do subdelegado de então Irineu Alencar, que vivia se vangloriando:

– O cabra que for preso na minha delegacia e disser que não levou uma dúzia de “bolos” de palmatória ou não tomou um purgante de azeite de carrapato, é um mentiroso safado!

Se o velho Irineu era malvado, cabo Xavier não ficava atrás. Acobertado pelo subdelegado, que era funcionário da fábrica de tecidos Alexandria, o milico pintava e bordava. Xavier tinha um xeleléu conhecido como Zero-Oitenta, elemento meio abestalhado que o mecânico Godofredo Chagas (o Godô) apelidou de “Devagar Quase Parando”.

Certo dia, eis que chegou a notícia no bairro dando conta que o governo federal havia proibido o jogo de azar. O subdelegado Irineu Alencar não perdeu tempo: chamou o cabo Xavier e deu uma ordem ortodoxa e cruel:

– Xavier, o cabra que você pegar jogando no bicho, pode pendurá-lo pelos quibas!

O perverso milico vibrou:

– Possa dexá, seu Arineu. Cumigo o lema é: “sê, ou dexá de num é”!

Naquela época, no Bom Parto, havia um certo Chico Bozó, figura bastante popular no bairro, que era um jogador inveterado. O cara reinava nas bancas de jogos de azar. Ocorre que, cheio de más intenções, o subdelegado, que não gostava do Bozó, viu aí a oportunidade para pegá-lo de jeito. Então, determinou que o cabo Xavier desse um flagra nele e o arrastasse para o xadrez.

De posse da ordem, o cabo procurou o Bozó no local que ele mais gostava de frequentar: a barbearia do João Bagé. No local, a turma de sempre estava entretida numa partida de dados. De surpresa, o militar e seu xeleléu Zero-Oitenta pularam no meio do salão, ambos de trabucos engatilhados. Xavier deu o brado:

– É a puliça!

João Bagé reclamou:

– Que negócio é esse, cabo?! Invadir a minha propriedade desse jeito! Tá desconhecendo o pessoal?

– É orde do seu Arineu! É “sê, ou dexá de num é”! Cadê o infeliz do Bozó?

– O que é que você quer com ele?

– Eu quero prendê o safado. Pur mim eu levava todo mundo aqui, inté você, mas o delegado só qué sabê do Bozó!

A sorte do caçado é que, na hora em que o militar e seu mequetrefe invadiram o local, ele se achava fazendo “precisão” no mato que havia no fundo do quintal da barbearia. Só fez levantar as calças e, sem se limpar e nem nada, danou-se a correr sem rumo. Quando deu fé, estava nadando na lagoa Mundaú, localizada por detrás da fábrica Alexandria. Foi bater em Marechal Deodoro, de onde só voltou quando Irineu Alencar não era mais subdelegado e nem Xavier o seu cupincha. Vingou-se dos dois, mais tarde. Mas essa é outra história.

 

Azar do turista!

Um casal de turistas franceses parou na barraca de coco verde do Anísio, na Jatiúca, e o estrangeiro, que não falava nadinha de português, perguntou:

– Comments’ apelle çá?

E o Anísio, na moral, dando uma de entendido da língua francesa:

– Come-se o conteúdo, a pele não.

– Comment?

– Com a mão, não. Parte-se com o facão.

– Je ne comprend pas…

Aí, o Anísio, que é um cara grosso pra burro, arretou-se:

– Se não quer comprar, vá pra puta que pariu!