Ailton Villanova

31 de outubro de 2019

“Batida” Violenta!

Praia de Cruz das Almas, quarta-feira, finzinho de tarde. Um corpo estendido no asfalto, sangue pra todo lado e um monte de curiosos em redor dele. O infeliz estava morto.

Em meio aquele tumulto, eis que surge o tal de Guilhermino Carlos, mais conhecido na região como “Pinto com Gogo”, ou simplesmente Pinto. Bêbado, como sempre.

– Dá licença, dá licença… – era ele tentando abrir passagem entre os curiosos, para chegar mais perto do cadáver.

A galera permitiu que o Pinto chegasse bem pertinho da vítima. Ele reparou na cara da referida, fez uma careta e comentou:

– Coitado! Tão moço, se acabar desse jeito…

Em seguida, virou-se para o cidadão ao lado e indagou:

– O que foi que houve com ele? Hic…

O cidadão respondeu:

– Foi uma batida.

– Batida?! Tá vendo? É no que dá o cara tomar certos tipos de bebida. Comigo não acontece isso, porque eu só tomo cachaça pura!

 

Durão de araque

Os dois sujeitos estavam na fila de um dos guichês do finado BANESPA, onde o Claudélio Aldeman de Oliveira era gerente. A fila, enorme, quase rodeando o quarteirão. Apesar disso, todo mundo tranquilo.

Um dos sujeitos acima referidos, de nome Permínio, disse pro outro, em determinado momento, só pra puxar conversa e matar o tempo:

– Mulher é bicho perigoso. A minha, por exemplo, não larga o meu pé. Não posso nem ir à esquina, meu irmão! É marcação cerrada!

– Verdade? – disse o outro que, por sinal, era o Osvaldo.

– Verdade. – respondeu Permínio.

E o Osvaldo:

– Ah, esse negócio pra cima de mim, não! Mulher comigo é na dureza. A de lá de casa me dá banho de manhã, de tarde e de noite. E ainda me bota talquinho, penteia o meu cabelo e faz a minha barba… É mole, ou quer mais?

– Você é um felizardo, cara.

– Minha mulher me adora. Quando eu saí de casa pra vir pra cá, sabe o que ela falou?

– Nem imagino.

– Falou assim: “Olha, meu amor, demore não, viu? Se você demorar, eu irei lhe buscar na marra”. O amor é lindo, ou não é?

– Com certeza.

– Como eu lhe disse, você tem que ser durão, rapaz! Va lá, dê um pau na sua mulher, e mostre pra ela quem é que manda no pedaço. Mulher adora porrada, bicho!

– É por isso que a sua lhe adora?

– Mas é claro! Ela me adora por isso e outras coisas mais, morou?

– Morei. A minha nem isso. A gente dorme de costa um pro outro.

Aí, o Ormídio botou mais moral:

– Chega, meu irmão! Eu não posso nem ouvir um papo desse. Que homem é você? Eu já falei: tem que ser durão!

– Na maior?

– É isso aí! Na maior!

Nesse momento, parou ao lado dos dois um carrão zerado. A fila não tinha avançado quase nada. Um louríssima botou a cabeça do lado de fora do automóvel e soltou um “psiu”. Mais que depressa, o falastrão Osvaldo escondeu a cara e, nervoso, disse pro Permínio:

– Iiihhh! Não quero nem olhar. Disfarça! Disfarça, que é a minha mulher!

– Aquela loura do carro?

– A própria. Não falei? Ela não se aguentou de saudade e veio me ver. É bem capaz de fazer um escândalo. Sabe como é mulher apaixonada…

De lá do carro, a bonitona gritou pra todo mundo da fila escutar:

– Ei, seu vagabundo! Eu não falei pra você voltar logo pra casa?

E o Osvaldo, se afrouxando todo:

– E você num tá vendo que eu ainda estou na fila, meu amor? Calma!

– Calma o quê? Você tem 10 minutos pra se mandar, tá me ouvindo bem?

– Ôxi, meu amor! Nem de avião a jato eu chego tão rápido à Jatiúca!

– Se vire! A casa tem que ser varrida e lavada. Ah, os pratos do jantar de ontem e do café da manhã de hoje, precisam também ser  lavados. Quando eu voltar pra casa, quero ver tudo limpinho e arrumado…

– E você vai voltar que horas, amor? Posso saber?

– Sei não. Talvez eu volte lá pras duas da madrugada.

– Tão cedo assim, amor?

A mulher pisou fundo no acelerador e arrancou cantando pneus.

Aí, Osvaldo virou-se pro Permínio e falou de peito inflado, cheio de orgulho:

– Viu? Viu como ela me adora?

 

 

O melhor do mundo

Ex-subversivo, sobrevivente dos tempos da ditadura militar que se instalou no Brasil a partir de 64, o corretor de imóveis Athaydes Ferreira é capaz de vender um lote de terra no meio do Oceano Altântico, só na base do papo, garante o seu conterrâneo e amigo Rômulo Monteiro, delegado de polícia civil.

Apesar da conversa melíflua, educada, Ferreira não é fraco, não. Topa qualquer briga, na base do tapa ou do tiro. Depende do freguês.

Belo dia, cansado de viver na capital, onde o ramo imobiliário andava mais devagar do que enterro de rico – e por sugestão do amigo Rômulo Monteiro -, Ferreira partiu para investir sua competência no interior. Pegou uma casa situada no cume de um morro sertanejo, e colocou a dita à venda. Num instantinho apareceu candidato à aquisição do imóvel. Era um fazendeiro baiano, que vinha procurando um lugar tranquilo e calmo por essas bandas alagoanas, para curtir com a família.

– Parece que o lugar é bom! – comentou o candidato pro Ferreira, enquanto percorria a propriedade.

– Ah, aqui é bom demais, doutor! – respondeu o corretor – Está nesta região, meu amigo, o melhor clima do Brasil. A água é a mais pura do mundo. Aqui ninguém fica doente!

– Não diga!

– Digo e garanto.

– Não morre mesmo ninguém por aqui?

– Morre, não. Pro senhor ter uma idéia, nestes últimos 10 anos só morreram duas pessoas nesta região.

– Mesmo? Duas pessoas só, em 10 anos!!! E quem eram essas pessoas?

Athaydes respirou fundo e mandou:

– O médico e o dono da funerária.

– Morreram de quê?

– De fome!

O cara comprou a proriedade, na hora.