Ailton Villanova

4 de outubro de 2019

Desejo não atendido… Olhaí!  

Rapaz fino, aluno aplicado, o galego Eberlânio Noribaldo  apaixonou-se pela lourinha Floripes, colega de faculdade, mal bateu nela os seus olhos azuis. Amor à primeira vista. Também pudera! Quem não se apaixonaria por uma gatinha curvilínea de bunda empinada e pernas bem torneadas?

Eberlânio ficou tão maluco pela gatinha que, ao cabo de um mês de namoro, levou-a ao altar.

Pouco tempo depois de casados, Floripes começou a mostrar as unhas. Ao lado de sua casa morava um crioulo atleticão, o Rubão, do tamanho de um poste, com quem passou a curtir, muito na moita, uma aventura amorosa das mais arrochadas.

Belo dia, depois de sentir umas tonturas e ânsias de vômito, Floripes descobriu que estava grávida. Acometeu-lhe, então, a dúvida atroz: de quem seria o bebê? Do Eberlânio ou do Rubão? Na dúvida, começou a arquitetar um plano para justificar, perante o apaixonado marido, a gravidez com o consequente nascimento de um possivel escurinho.

Certa noite, acordou pedindo:

– Amor, eu quero comer urubu!

O marido pulou da cama, assustado:

– O quêêê??? Você está querendo comer urubu?! Você ficou doida, mulher?

E ela, batendo o pé:

– Eu quero comer urubu, sim! Estou desejando!

– Nem ver! Tire já essa idéia da cabeça!

– Não é “idéia” nenhuma! É realidade! É o desejo de uma mulher grávida. Quer matar o seu filho que vai nascer, quer?

Diante de argumento tão forte, Eberlândio não teve como resistir:

– Tá bom, tá bom, meu amor! Amanhã bem cedinho eu vou caçar um urubu pra você. Agora, vamos dormir!

Foram.

Ocorre que, por mais o infeliz Eberlâdio procurasse a ave carniceira, não foi possível capturá-la. Foram inúmeras e persistentes as buscas, até que o maridão desistiu, frustradíssimo.

Meses depois nasceu o filhinho tão ansiosamente aguardado. Gordinho, bonitinho e barulhentozinho, tinha com ele um detalhe altamente preocupante: era pretinho. Logo, a mãe se desculpou argumentando que o bebê nascera escurinho dado o fato de que tivera frustrado o seu desejo de comer urubu.

Eberlândio se mostrou compreensivo:

– Tudo bem, minha flor. É nosso filho e nós o amamos não importa a cor.

Quando a mãe do ilustre chifrudo, dona Hipotenusa, foi visitar o netinho recém-nascido, tomou o maior susto:

– Ah, meu Deus! Trocaram o menino na maternidade! Vocês não repararam nisso, não?

E Eberlândio, com cara de pateta:

– Trocaram não, mãe. É que a Floripinha teve um desejo não atendido…

– Que história é essa de desejo não atendido, menino?

Aí, o apaixonado Eberlânio contou para a mãe a estapafúrdia história do urubu, bolada pela esposa. Ao concluí-la, a mãe comentou, cheia de ironia:

– Ah, bom! Isso acontece, meu filho. Quando você ainda estava na minha barriga, senti vontade de comer um touro. Acontece que o seu pai não conseguiu trazer um animal desses pra mim, e ai nasceu você, chifrudo desse jeito!

 

As de sempre, menos a rural

 

Na década de 50, Sinderbaldo Garisto era um vereador muito conhecido no agreste alagoano. Possuía a fama de limitado intelectualmente mas, no cômputo geral, gente muito fina.

Sinderbaldo gostava de frequentar ambientes onde pululava o fino da política e sempre era motivo de riso pelas gafes que cometia. Certa ocasião, ele veio a Maceió para participar de um conclave destinado a parlamentares e gestores municipais, promovido pelo governo do estado, na finada Fidam. Num dos intervalos das discussões, um garçom, muito gentil, lhe ofereceu um cafezinho, acrescentando:

– O senhor prefere com açúcar ou sem açúcar?

– Sem açúcar. – ele respondeu.

– O senhor é diabético?

– Não. Eu sou de Palmeira dos Índios.

Ao seu lado, um colega aproveitou a dica:

– Ah, você é de Palmeira, hein? Como é que vai aquela zona?

– Com as putas de sempre.

– Eu estou falando da zona rural, meu amigo.

– Ah, a rural o prefeito trocou por um jipe!

 

Autêntico imortal

No Bar e Restaurante do Duda, filial de Mangabeiras, só pinta biriteiro da melhor qualidade, orgulha-se o dono da casa. Sábado desses, encontravam-se abrilhantando aquele o ambiente o simpático Magnovaldo Tibiriçá. Ocupando uma mesa de canto, ele chupava a boca de um copo. Com ele, dividindo essa mesa, o velho conhecido de farras Cleufécio Venúsio, visivelmente embriagado. Em dado momento, ele enxugou uma lágrima que escorria pela cara e desabafou, entre um soluço e outro:

– Sabe, meu caro Magnovaldo, hoje em dia eu me considero um imortal!

– Não diga, rapaz! Eu já o conheço há algum tempo e não sabia disso. Parabéns! Você é membro de qual academia de letras? De Maceió ou de Alagoas?

– Nenhuma das duas. Sou imortal porque não tenho onde cair morto, entendeu?

 

Relógio não anda!

Refastelado na poltrona mais confortável da sala de casa, lá estava o corintiano Reolândio de olho pregado na televisão, e roendo as unhas. É que, na telinha, rolava o jogo Corinthians x Palmeiras, válido pelo campeonato paulista. Zero a zero no placard.

O jogo era eletrizante. Bola lá e cá, em cima e em baixo.

Em dado momento Reolândio deu um pulo da poltrona, alarmado com o berro dado pela mulher:

– Reosinhôôôô!

– Quê que é Ederlinda? Eu tô vendo o jogo! – respondeu, depois de refeito do susto.

– O meu relógio caiu no chão e parou!

– E daí, cacete? Você queria que ele saísse andando pela casa?