Ailton Villanova

28 de setembro de 2019

O cúmulo do exagero

Presbítero dissidente da Igreja Evangélica do Amor Divino, o distinto Hermegaldo Prudente autointulou-se pastor, fundou uma  igreja protestante e instalou-se na biboca mais distante do Tabuleiro Martins. Deu à sobredita o prolixo e complicado nome de “Igreja Evangélica da Salvação e do Amor da Mãe de Deus no Céu, na Terra e nos Demais Planetas”. Coisa de louco!

Povo crédulo e tolo ao extremo, o tabuleirense da periferia logo aderiu à nova seita. Ao cabo de seis meses, pastor Hermengaldo se viu na obrigação de arrumar um auxiliar, porque os serviços evangélicos ali estavam exigindo isso. Não foi difícil convocar entre os fiéis o assessor pretendido. Pastor pegou o camelô Eunóflio Soares, bom de papo, e o nomeou presbítero.

No dia da estréia do cara no púlpito, o templo estava superlotado. No lado de fora, tinha até gente trepada nas árvores, para ver o novo  irmão discursar. Notando que Eunóflio estava meio tenso, o pastor Hermengaldo chegou junto:

– Fique calmo, meu irmão. Olhe, faça o seguinte… vá lá na dispensa, pegue um litro de uísque e tome uma lapada, pra descontrair. Pode ir, que eu fico aqui quebrando o galho até sua volta. Vá!

Eunófilo foi. Ele não tomou apenas um gole. Bebeu garrafa e meia. É que, antes de ingressar na “lei do evangelho”, o cara era biriteiro de marca maior.

Eunóflio voltou ao púlpito pisando macio. Pegou o microfone, e lascou lá:

– Caríssimos irmãos… Alelúia!

E todo mundo:

– Alelúia!

Eunóflio deu uma temperada na goela, uma cusparada de lado e mandou ver um sermão com gosto de gás. A platéia delirava e ele estraçalhava na falação. Quando terminou, transpirando por todos os poros, a galera explodiu em vivas e alelúias. Foi carregado nos braços e quase fizeram um carnaval.

Assim que tudo ficou calmo, o pastor-chefe Hermengaldo, entusiasmado com o novo ministro, comentou:

– Gostei. Você teve um bom desempenho na sua estréia. Precisa, apenas, “manerar” um pouco no seu entusiasmo.

– Manerar?

– É, rapaz. Você exagerou em tudo. Na bebida e na oração. Não precisava tomar garrafa e meia de uísque e nem chamar Nossa Senhora de “Mãezona Boazuda”.

– Não?

– Não. Também não era necessário mandar o demônio para a puta que o pariu!

 

 

Demais pra ser verdade!

 

O sujeito entrou na delegacia de plantão e pediu para falar com o delegado – na ocasião o doutor Benígno Portela -, alegando que era “assunto de suma importância” que exigia “certa urgência”. O agente que atendia na portaria fez a gentileza de conduzí-lo à presença da autoridade.

O delegado Portela manjou na figura à sua frente: um cara pálido mais da conta, olheiras profundas… debrrubadaço!

– O amigo está adoentado? – indagou o delegado.

E o infeliz:

– O senhor está perguntando isso por causa do meu aspecto, doutor?

– Exato. Você está parecendo que acaba de sair de um túmulo, rapaz!

– Ressaca, doutor…

– Ressaca?

– Venho biritando sem parar faz duas semanas e só estou aqui porque uns amigos me aconselharam…

– E o que tem a ver sua farra com sua presença nesta repartição policial?

– Bom, doutor, é o seguinte: durante todos esses dias eu estava comemorando o desaparecimento da minha sogra. Minha mulher foi procurá-la e também não voltou mais!

– Entendo.

– Pois é, doutor! Esse acontecimento na minha vida é melhor do que ganhar na loteria, concorda comigo?

O delegado chamou o escrivão, ordenou que fossem registrados os desaparecimentos das mulheres e, em seguida, liberou o camarada, que saiu aos pinotes da Deplan e entrou no primeiro bar que encontrou, vibrando de felicidade.

 

 

“Cadê as provas?”

 

Estando meio à toa, e não tendo coisa melhor a fazer, o Fiderbaldo pegou a esposa Esterlina e foi com ela ao cinema. Pegaram a última sessão. Quando saíram de lá, foram fazer um lanche. Cerca de 1 hora da manhã, resolveram voltar pra casa. Assim que o carro parou na porta, Esterlina tomou um choque: estavam acesas todas as luzes da casa e o portão escancarado.

Fiderbaldo correu pra dentro e voltou alarmado:

– Os ladrões levaram a Tv, o som, o vídeocassete, minhas garrafas de uísque…

Num instantinho os vizinhos se juntaram ao casal. Fiderbaldo disse à mulher e aos vizinhos que ia chamar a polícia. Antes de correr para a Deplan, recomendou à esposa:

– Pelo amor de Deus não mexa em nada. Os ladrões deixaram aí um monte de pistas. Aguente firme que eu volto logo!

O delegado de plantão pediu a ajuda do Instituto de Criminalística. Quando os peritos chegaram ao local, o chefe da equipe (advinha quem?) perguntou ao dono da casa:

– Onde foi que ocorreu o furto? Foi aqui mesmo?

É que a polícia e a perícia encontraram tudo arrumadinho, tudo bonitinho, tudo limpinho, tudo lustrando e cheirando a novo. Não parecia que ali tinha se verficado a ação de ladrões.

Todo chateado, Fiderbaldo chamou a mulher:

– Amor, por que você arrumou tudo?

E ela:

– Essa é muito boa, meu filho! Você saiu daqui dizendo que ia trazer a polícia, não foi?

– Foi.

– Então você acha que eu ia receber as visitas com a casa toda desarrumada daquele jeito?

 

Com Diego Villanova