Ailton Villanova

10 de fevereiro de 2020

Um cão especial

O delegado de polícia civil Antônio Rosalvo Cardoso, o proverbial Mamão, também sabe ser esperto.

Certa noite de maio cumpria plantão no seu local de trabalho, a delegacia distrital de Novo Lino. Na falta do que fazer, contava anedotas de papagaio e de português para seus auxiliares. A algazarra era grande quando o telefone tocou, um policial atendeu, demorou alguns segundos escutando e, em seguida, estendeu o transceptor à autoridade:

– É pro senhor, doutor!

E o Mamão, na maior má vontade do mundo:

– Quem é, porra?

– É uma mulher, doutor. Parece agoniada!

O delegado pegou o aparelho e disse:

– Aqui é o doutor Mamão, digo, o doutor Cardoso. Às suas ordens, madame…

Do outro lado da linha disparou uma voz histérica:

– Seu delegado, aconteceu uma coisa horrível…!

– Calma, dona…

– Uma desgraça! Me ajude, pelamordedeus!

– Tranquilize-se e me diga qual é a tragédia!

– Uma catástrofe! Uma desgraça!

– Diga logo o que houve, dona…! Acabe com essa lenga-lenga!

A mulher deu uma fungada e sapecou:

– O meu cachorrinho sumiu!

– Putaquipariu, dona…! Então, esse escândalo todo por causa do filho da puta de um cachorrinho que sumiu?!

– Mas doutor, esse não é um cachorrinho qualquer. É um cachorrinho especial. Olha, ele é tão inteligente que às vezes dá a impressão de que está conversando com a gente! Ele entende tudinho o que a gente diz!

De saco cheio e irônico, Mamão cortou o barato:

– Tudo bem, madame. Então é melhor desligar porque, a esta hora, ele deve estar tentando telefonar pra senhora!

 

O chefão e a “tóia”

Mudança de chefe na repartição onde o Lourival Tibúrcio trabalha. O tal chefe, todo cheio de frescura, já chegou dando bronca:

– O riscado vai mudar por aqui, minha gente! Acabou-se a malandragem e a moleza, estão entendendo?

A partir daí o cara começou a cair em cima dos subordinados hierárquicos. Ele caminhava pelos corredores da repartição fiscalizando tudo quando, em dado momento, reparou numa ponta de cigarro atirada no chão. Aí, chamou o contínuo Lourival e indagou, cheio de grossura:

– Ô rapaz! Quem foi que jogou essa “tóia” de cigarro aí…?

E o coitado, querendo ser agradável ao novo chefe:

– Num é minha não, doutor. Garanto que não é. Se o senhor quiser pode ficar com ela, que num falo pra ninguém!

 

Único amor

E aquele locutor boçal comandava um programa musical em certa emissora de rádio da capital, todo saltitante e falante:

– Alôôôrrrr, galeraaa…! Bom diaaaa! A gente tamos iniciando, nesse instante, mais uma audição do pôgrama…

O referido é aquele de sempre. Muita conversa mole e oferecimentos musicais através do telefone. No meio da audição entra no ar um tal de Alfredão, morador da Brejal:

– Ô meu, eu quero oferece uma musga…

– Apois não, caro ouvinte! Você quer dedicar pra queeemmm?

– Quero oferece pra Maria, pra Conceição, pra Fátima, pra Cicina, pra Inêis, pra Socorro, pra Suzana e… edicéutra!

Muuuiito bem! E qual a música?

O cara mandou:

– “Meu único amô”!

 

E por que não?

O amigão Luís das Neves tem fama de “tapado pacas”, mas não acho que seja tão tapado assim.

É certo que vez ou outra ele desanda. Mas isso não chega a ser tão grave. No rabo da discussão sobre os vacilos da inteligência desse ilustre, seu parente Valdomiro das Neves resolveu testá-lo na presença de vários amigos, entre um gole e outro de cerveja, no Massaguerinha:

– Ô Lula, me diz aí três palavras com o prefixo hiper…

– Ora isso é fácil. Deixa ver… huummm… Hipermercado!

– Muito bem. A segunda?

– Espere um pouco… Hããã… Hipertensão!

– Jóia! E a última?

– Huummm… Drogaria…

– Ôxi! Drogaria, Lula?!

– Peraí! Você não me deixou acabar de falar: Drograria IPERFumaria!

 

 O macacão pode ser o mesmo

Botelho era um pobre coitado que não tinha onde cair morto. Servente de pedreiro, morava num barraco de papelão no pedaço mais encardido da Brejal. De repente, incrivelmente, enriqueceu!

Por causa de um sonho, jogou no milhar do galo os últimos 2 reais que tinha no bolso e ganhou uma nota preta.

Com tanta grana à disposição, Botelho inventou de ser gente fina. Comprou uma casa bacana na Jatiúca e mandou decorá-la no capricho. Mas faltava o que ele mais queria: um quadro a óleo de sua pessoa instalado bem no centro da parede principal. Procura daqui, procura dalí, eis que finalmente encontrou um pintor de categoria.

– Quero que o senhor me pinte de corpo inteiro! – pediu ao pintor. Pago quanto o senhor cobrar!

O artista plástico mirou a figura de alto a baixo. Botelho vestia uma camisa surrada, calças amarrotadas e calçava alpercatas. Depois do exame, o artista falou:

– O senhor não prefere com traje a rigor?

E o Botelho:

– Não carece. Pode pintar com o macacão que o senhor tá usando mesmo.