Ailton Villanova

4 de fevereiro de 2020

Um detalhe elementar

Quando o Sindáulio Prado nasceu, provocou o maior reboliço na maternidade e sua mãe, a finada Emerenciana, passou um mês inteirinho, chorando de desgosto. É que, apesar de bonitinho, gordinho e bem vivinho, o rebento não possuía as orelhas.

Sindáulio nasceu saudável e, naturalmente, cresceu complexado. Na escola e nas ruas arrumou muitas brigas por causa das chacotas que lhe faziam.

Os tempos passaram e aos 42 anos de idade, Sindáulio conheceu uma jovem muito distinta chamada Maria de Fátima e com ela contraiu núpcias. Formou-se em contabilidade quando completou 46 primaveras e instalou um escritório muito bacana, no centro da cidade. O serviço cresceu tanto, que Sindáulio precisou contratar um chefe-adjunto para a contabilidade geral. De modo que fez publicar um anúncio no jornal e no dia seguinte já tinha agendados três candidatos à função. O primeiro dos tais a ser entrevistado pelo contador, era ótimo. Conhecia tudo do ramo e mais alguma coisa. Entretanto, ao final da entrevista, Sindáulio não gostou da franqueza do rapaz, quando lhe perguntou:

– Você percebeu alguma coisa diferente em mim?

E o candidato:

– Percebi. O senhor não tem as orelhas!

O segundo entrevistado foi uma moça. Bem apessoada, ela pareceu melhor preparada que o pretendente que a antecedeu. O contador fez à candidata a mesma pergunta:

– Você percebeu alguma coisa diferente em mim?

E ela, prontamente:

– Você não tem orelhas!

Sindáulio arretou-se mais ainda:

– Mas será que vocês só reparam isso em mim?

O terceiro e último candidato foi o melhor dos três. Era bastante jovem, recém-saído da faculdade. Boa pinta, chamava-se Jalon, que não era o Cabral. O contador estava tão puto com as respostas anteriores, que foi logo direto ao assunto que tanto o constrangia:

– Você percebeu alguma coisa diferente em mim?

Para sua surpresa, o rapaz respondeu:

– Percebi. O senhor usa lentes de contato…

– Puxa, Jalon!!! – exclamou Sindáulio – Que observador incrível você é! Como foi que descobriu isso?

– Tá na cara, não é? O senhor jamais conseguiria usar óculos sem orelhas!

 

 

Todos dão, menos ele!

 

O farmacista Odsmobílio Demétrio era muito querido em certa cidade do interior. Atendia a todos com presteza e educação. Ele era uma espécie de médico no vilarejo onde instalara a sua farmácia, já que lá nem posto de saúde existia. Mas, coitado, o seu Odsmobílio tinha uma família meio diferenciada.

O filho, desde garotinho, era uma libélula encantada, a alegria da garotada. A filha, dizem, dava mais que chuchu na serra. E enquanto seu Odsmobílio, na farmácia, aplicava injeção no bumbum da freguesia, em casa era o bumbum da mulher dele que tinha freguesia própria.

Essas coisas eram comentadas de boca em boca, no povoado, mas ninguém tinha coragem de tocar no assunto com o coitado do farmacista, sempre entretido em seus serviços à comunidade.

Até que um dia, um gaiato achou de pintar no muro da casa dele:

“Nesta casa todo mundo dá”.

À noitinha uma pequena multidão ficou de campana, esperando para ver qual seria a reação de seu Odsmobílio ao chegar em casa. Tinha gente até com receio de que ele pudesse cometer algum ato impensado em relação à família.

Conforme ocorria todo fim de tarde, seu Odsmobilio fechou a , farmácia e foi direto pra casa. Ao chegar em frente a sobredita, ele leu a frase e entrou. Expectativa geral. A vizinha toda ficou esperando voar braço na casa do farmacista. Daí a pouco, ele saiu muito calmamente, com uma latinha de tinta na mão, e acrescentou à frase, pintada no muro:

“Menos eu”.

 

 

O batom revelador

 

O sujeito, bastante delicado, entrou no bar e, desmunhecadamente, pediu ao cara que atendia ao balcão:

– Meu lindo, por gentileza, me veja aí um suco de tomate…

O barman deu uma manjada na figura e disse, na maior grossura:

– Aqui não servimos viados.

Passado o primeiro choque, o delicado deu um suspiro e se mandou, tristinho, tristinho.

Meia hora depois, entrou no bar um sujeito abrutalhado, ombros largos, vestindo jeans e jaqueta de couro, cabelos lisos, óculos escuros. Deu uma porrada no balcão, cuspiu de lado e pediu com um vozeirão de dar medo:

– Botaí um uísque! Duplo!

Novamente, o barman respondeu com indiferença:

– Neste bar nós não atendemos viado!

O machão se olhou no espelho que havia em frente e deu um gritinho, assustado:

– Ai, meu Cristo! Esqueci de tirar o batom!

 

 

O refrigerante e os anões

 

Mirinho, o anão, entrou na lanchonete cheio de sede, e pediu um refrigerante. Dada a sua pequena estatura, ninguém reparou na sua pessoa. Então, ele decidiu utilizar-se do recurso do pulo, e pediu:

– Ei! Me dá uma Fanta!

Ninguém respondeu nada. E Mirinho continuou pulando e gritando:

– Ei! Alguém aí, me dá uma Fanta!

E o anão ficou um tempão assim. Até que, puto da vida, ele deu uma volta até o outro lado do balcão para procurar alguém lá dentro. Foi quando ele viu, atrás do balcão, um outro anão também pulando e gritando:

– Laranja ou uva? Laranja ou uva?…

 

Com Diego Villanova