Ailton Villanova

3 de fevereiro de 2020

O frustrado batizado do barco

Quando jovem, muito antes de ordenado sacerdote católico, Júlio Tibiriçá Paiva, pintou as canecas. Foi boêmio, tomador de cachaça nas quebradas do Recife, tornou-se subversivo e, depois de passar maus bocados na cadeia, entregou-se à Jesus. Mas nunca abdicou da sua cervejinha gelada, sempre aos domingos.

Um dia, eis que se encontrava dito padre Júlio entretido na leitura do seu Breviário, na sacristia da paróquia quando o telefone tocou. Ele atendeu e do outro lado da linha falou um antigo companheiro de lides revolucionárias.

– Grande Julinho! Aqui é o Marceu… o Muvuca!

– Ah, Muvuca, como vai você? Que fim levou, rapaz? – retrucou o sacerdote. Como foi que você me localizou aqui?

– Os amigos dos velhos tempos me informaram. Olha, Julinho, eu agora sou um engenheiro bem sucedido, bastante tranquilo na vida. Estou telefonando para lhe fazer um convite…

– Que tipo de convite?

– É o seguinte… comprei um barco e gostaria que você viesse benzê-lo…

– Ah, pois não. Com muito prazer. E quando que você quer eu vá?

– Bom, estou pretendendo inaugurá-lo daqui a uma semana… Pode ser no domingo, inclusive, com almoço e muita festa! Tá bom assim?

– Está ótimo!

Acertados os ponteiros, no domingo determinado, padre Júlio iria à casa de praia do amigo Marceu e lá benzeria o barco. Aproveitaria e celebraria uma missa.

Ocorre que, na véspera, o sacerdote teve que oficiar um casamento na residência de um figurão pernambucano, em Rio Doce. Depois de ter ministrado o ofício religioso, padre Júlio entreteu-se com as comidas e com as bebidas e só chegou em casa de madrugada, puxando o maior fogo.

De manhãzinha, seu eficiente auxiliar, o sacristão Valdemar, estava batendo na porta do quarto do reverendo:

– Acorda, padre! Olha o compromisso com o doutor do barco!

O sacerdote acordou baratinado. Ainda estava chapadão. Vestiu-se às pressas, pegou o livro dos Evangelhos, marcou a página específica com uma fitinha e, em seguida, chamou o Valdemar:

– Segure bem este livro e não deixe cair a marca, está ouvindo? Vamos embora, que estamos atrasados!

Na casa do Marceu a turma aguardava ansiosa a chegada do sacerdote. Chegou lá, ele procurou paramentar-se. Enquanto vestia a indumentária, o rapaz encarregado do som, pregava no seu peito o microfonezinho de lapela, idêntico aqueles que os apresentadores de telejornais costumam usar.

Finalmente, estava tudo pronto para o início do ofício religioso. Aí, aconteceu o imprevisto: Valdemar deixou cair o livro. Apanhou-o rapidinho, mas colocou a marca na página errada. O padre manjou na jogada e começou a reclamar, sem perceber que o microfone estava aberto e o som se espalhando pelo ambiente, através dos alto-falantes instalados em pontos estratégicos. De modo que todo mundo se ligou na arenga do padre com o sacristão:

– Você é mesmo desastrado, Valdemar! Desmarcou o livro, não foi?

– Desculpe, padre. Acho que não desmarquei, não…

– Desculpa porra nenhuma! Me dê aqui esse livro!

Valdemar entregou-lhe o livro. Padre Júlio pegou-o invocadíssimo:

– Olhe aqui! A merda da marca não está no lugar certo!

– E não é nessa página, padre?

– Claro que não, porra! Você merecia que eu lhe enfiasse este livro no cu, seu irresponsável! E agora, como é que eu vou fazer a prática?

Foi nesse ponto que o dono da festa resolveu interferir na discussão:

– Precisa mais não, padre Júlio!

– Não precisa por quê?

– Porque não vai mais ter inauguração. Todo mundo foi embora!

 

 

Um marido sem sexo!

 

Todos os dias, o camarada passava pela rua onde mora dona Rosaura, que sempre estava debruçada na janela. Num desses dias, ele resolveu abordá-la, timidamente:

– Queira me desculpar, madame…

– Pois não, pode dizer.

– Por acaso a senhora tem sexo?

Indignada com a pergunta do indivíduo, dona Rosaura bateu-lhe a janela na cara. Mas, antes, desabafou:

– Tarado! Safado!

Dia seguinte, o sujeito repetiu a mesma pergunta.

Nova janelada na cara.

Durante uma semana o sujeito, muito educadamente, e dentro do maior respeito, continuou insistindo. Aí, Rosaura resolveu matar a curiosidade:

– Olhe, meu amigo, é claro que eu tenho sexo. Não sou aleijada, se é isso o que o senhor está querendo saber.

E o cara:

– Então, minha senhora, veja se dá uma colher de chá pro seu marido, porque ele grudou na mulher lá em casa, que não tem sobrado nem uma brechinha pra mim!

 

 

O problema estava na cara!

 

O problema do Geraldo Evalgino se agravava dia após dia. Mais conhecido como Cara de Xibiu, ele não suportou mais, procurou o doutor Aílton Rosalvo, de saudosa memória, e desabafou:

– Minha situação é crítica, doutor. Gostaria que o senhor me ajudasse…

– Me conte o que está sentindo, meu santo.

– É que todas as vezes que me olho no espelho, fico excitado! Será que é o tal de narcisismo?

– Não, o seu problema é outro! – garantiu o médico.

– E o que é, doutor?

– Seu problema está na cara, rapaz! Só se resolve com uma cirurgia plástica!

– Cirurgia plástica!

– Sim. Você já reparou que a sua cara é uma xoxota escritinha?