A Palavra em palavras

13 de novembro de 2018

COMBATENDO DEMÔNIOS: INTERNOS OU EXTERNOS?

O cristão, muitas vezes, depara-se com situações de combate espiritual, encarando tempestades sentidas não na pele, mas no coração. Com o passar da caminhada, é preciso entender o que é o bom combate e quais são seus campos de batalha. Também no combate espiritual é preciso aprender a identificar o tipo de inimigo para poder preparar-se para a vitória.

A primeira pergunta a se fazer é justamente a ensejada no título: “o combate espiritual que estou a travar é, realmente, contra demônios? ”. A segunda pergunta, e semelhante à primeira, é “estou diante de demônios internos ou externos? ”. Naturalmente, o leitor deve estar perguntando-se se é possível demônios internos ou demônios externos. De que se tratam? Eis, pois, a explicação a qual deve ajudar a identificar a raiz do problema.

Muitas pessoas às vezes buscam orações e encontros de combate espiritual para afastar o Maligno e não se dão conta de que o problema não está fora delas. Daí, recebem algum consolo temporário, mas logo voltam às dificuldades, pressões, tempestades e pesos.

Algumas pessoas correm à procura de água benta ou água exorcizada, vão a missas de cura e libertação e cercos de Jericó, pedindo a Deus que afastem o Maligno delas ou outras pessoas de seus caminhos… E não percebem que há curas interiores, lacunas na própria alma que são as verdadeiras causas das penosas situações pelas quais passam.

É preciso distinguir as causas naturais das sobrenaturais. Se uma pessoa não consegue amar, perdoar e tratar bem, ela própria está contribuindo para o mal ao seu redor. Se uma pessoa quer autoridade para ser servida e tornar-se o centro das atrações, o egoísmo e o egocentrismo de que estão se alimentando são as raízes do mal ao seu redor. (Lembre-se de que a proposta de Cristo é servir, amar-se, doar-se)

Nos dois exemplos acima, não se tratam de fenômenos sobrenaturais e externos a causa dos tormentos, mas a falta de cura interior. Valendo notar que cura interior não é apenas a cura daquilo que outras pessoas fizeram a nós mesmos, mas as curas das marcas de nossos próprios pecados, dos nossos egoísmos e egocentrismos. Tratam-se de demônios nos sentidos impróprios do termo, ou seja, de forma figurada. Para tais casos, requer-se cura interior, pois o mal ali não é grafado com letra maiúscula, não é um ser angelical infernal, mas os resultados das marcas do pecado na própria pessoa.

O Papa São Paulo VI dizia que “tudo o que nos afasta do pecado protege-nos do Maligno”. E de fato, uma pessoa que se confessa (validamente) e comunga, que vive o amor, que pensa no outro, que se afasta da malícia, do maldizer, afastando-se do Mal e buscando a Deus, confiando na misericórdia divina, tem um coração luminoso que afasta as trevas do Maligno. O Demônio precisa da brecha do pecado para ter espaço na vida de uma pessoa. Mas ele não tem poder contra a alma que opta por Cristo em vez do pecado, pois ele não tem poder contra Cristo. O Demônio foge da cruz, foge da alma humilde e unida a Cristo, portanto, não aguenta o brilho das almas que participam da comunhão dos santos.

Um dos perigos que muitos não se dão conta é que algumas pessoas, com medo de forças espirituais malignas, recorrem a amuletos (como figa, pé de alho, pimenta etc.) e caem no pecado da superstição (que é um pecado contra o primeiro mandamento). Ora, considerando que o pecado abre espaço para a ação do Maligno, a pessoa entra numa bola de neve e, em vez de se libertar de seus medos, vai se viciando em superstição, podendo agravar e passar a recorrer a benzedeiros, a evocações de mortos (espiritismo) ou a entidades pagãs. Valendo lembrar que, em termos de questões espirituais, não existe diferença entre magia branca e magia negra, a proibição da Lei de Deus é para o uso de magia, indistintamente.

Pois bem, quer fortalecer-se contra os demônios (anjos decaídos, ou seja, anjos condenados eternamente, anjos do inferno), trate de curar-se das manchas do pecado, de tudo aquilo que afasta você da comunhão com Deus, de tudo aquilo que atrapalha a sua vivência no estado de graça.

Resumindo: faça um bom exame de consciência e pense em quais mandamentos da lei de Deus e quais os mandamentos da Igreja infringiu; reflita sobre como poderia ter amado mais perfeitamente nas coisas de seu cotidiano, no trato com as pessoas. Exercite a humildade de pedir perdão a quem ofendeu e de ir a um sacerdote para buscar o sacramento da Reconciliação. Não deixe para amanhã o amor que você pode viver hoje.

Na tempestade, o caminhar do cristão deve ser fortalecido na ida para Cristo. O olhar do cristão deve ser focado em Cristo. Assim, o cristão deve buscar a imersão no mistério da cristificação, a santidade, a unidade em Cristo.

Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança para um propósito maior do que um espelho a perder-se no tempo. Deus nos criou para sermos participantes d’Ele através da participação no Corpo do Filho.

Ora, Deus Filho venceu o Maligno. Assim também aquele que é convidado a alimentar-se do Corpo e Sangue de Cristo, fazendo parte do Corpo de Cristo também repele o Inimigo para longe de si.

Nossa confiança é Cristo. Nossa fortaleza é Cristo. Nossa paz vem Deus e nos guia para Ele. Sem Cristo, somos um nada, somos vulneráveis, fracos, presas fáceis. Com Cristo, confiados nos méritos de Cristo, somos luz no mundo de trevas, nesse mundo sedente de paz, de amor, de felicidade autêntica.

Nisso consiste vestir-se com a armadura de Cristo, protegendo-se com o escudo da fé. Esse belo escudo que recebemos de Cristo por meio dos apóstolos, que nos passaram por meio dos seus sucessores (os bispos) até que chegasse a nós. Fé que professamos na oração do creio (credo), em especial, o niceno-constantinopolitano. E vivemos nos sacramentos e na fidelidade e coerência entre o que cremos e praticamos, ou seja, na prática da verdade, da justiça e do amor.

Ora, quem não tem pecado entre nós? Quem ama o próximo como Jesus nos ama? Quem ama perfeitamente? Eis, pois, que precisamos aprender a amar para poder cumprirmos, fielmente, o preceito que o Senhor nos deixou: amemo-nos uns aos outros como Ele nos amou.

Talvez o leitor não esteja satisfeito com o que fora apresentado e queira saber mais formas para trilhar esse caminho de cristificação. Pois bem, oração, penitência e doação. Curar as marcas do pecado em nossos próprios corações por meio dos (1) exercícios que desenvolvem o autodomínio e libertam dos vícios (por ex.: jejuns e abstinências, sem faltar com o amor). E também (2) da intimidade com Deus e com Sua Igreja, participando dos sacramentos, buscando indulgências, fazendo adorações ao Santíssimo Sacramento, rezando o rosário, meditando a Sagrada Escritura, aprendendo com os ensinamentos dos santos a cumprir os preceitos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Enfim, vivendo a oração constante e integral. Ou seja, corpo, pensamentos, intelecto, alma espiritual em unidade com Cristo, todo o ser voltado para Cristo, glorificando-o, honrando-o em cada falar, silenciar, mover-se e abster-ser.

Se o amor não vencer em nós, estaremos combatendo de forma equivocada. E estaremos perdendo a guerra.

No combate espiritual que é encarar a vida, é preciso ter coragem para adentrar nas profundezas da própria alma e descobrir o que nos falta para vivermos bem a participação no Corpo de Cristo. É preciso coragem para olhar para dentro de si e descobrir o que falta para amar melhor. E, convenhamos, descobrir como amar melhor é tudo o que precisamos para sermos livres e felizes.

Desejo a todos a paz que é fruto do Espírito Santo, que nos guia para a verdade, que nos liberta para o amor, que nos faz felizes. Paz e Bem!

Maceió, 12 de novembro de 2018

No amor de Maria e em honra a Jesus Eucaristia,

Alisson Francisco Rodrigues Barreto[1]

 

[1] Poeta, filósofo (SNSA), bacharel em Direito (Ufal), pós-graduado (Esmal). Seminarista em teologia (SNSA – Seminário Nossa Senhora da Assunção) pela Arquidiocese de Maceió. Autor deste blogue – “A Palavra em palavras” – desde 2011, em TribunaHoje.com. Autor do livro “Pensando com Poesia” e membro-fundador do grupo Amme – Amigos Marianos Missionários da Eucaristia e da Pia Escuderia de Sigmaringen.