Ailton Villanova

15 de setembro de 2018

APENAS UM SONHO

Excepcional criatura humana, o ex-prefeito e ex-deputado Jota Duarte legará às gerações mais novas modelares histórias que vivenciou ao longo de sua vitoriosa carreira política. De sua vida pessoal, deixará à posteridade exemplos de grandeza de espírito e de como se conduzir na política sem deixar nódoas.

É um dos homens mais íntegros que conheço e isso certamente tem orgulhado familiares e amigos.

Tanto como prefeito de Palmeira dos Indios, como deputado representando sua terra na Assembléia Legislativa, sempre dispensou a melhor das atenções aos seus conterrâneos palmeirenses, principalmente aos mais carentes. Esse, foi um dos motivos pelos quais nunca perdeu uma eleição em Palmeira dos Indios. Afastou-se da vida pública por livre arbítrio, mas deixou seu filho, o médico Fernando Duarte, fazendo as suas vezes.

Jota Duarte sempre foi um político criativo. Certa feita, ele inventou de promover excursões turísticas à Maceió, excursões estas destinadas aos matutos que nunca assentaram os solados dos pés na Capital. Periodicamente, mandava encher ônibus e mais ônibus de caipiras, que só faltavam morrer de felicidade quando avistavam as coisas bonitas que Maceió tem, principalmente o mar, ponto culminante da excursão. Todo sonho do matuto é conhecer o mar.

Numa dessas últimas viagens de recreio à Maceió, Jota Duarte incluiu o agricultor Severino Xavier (seu Biu) que, como seus amigos das viagens anteriores, nunca tinha visto o mar na vida dele. Quando ele bateu os olhos naquela boniteza de água azul quebrando na praia, ficou mudo de espanto, a baba escorrendo pelo canto da boca!

Em todas essas incursões, o deputado Jota Duarte se fazia presente. Era uma felicidade pra ele, também, ir junto com a turma.

Saindo do espanto, seu Biu correu para junto do parlamentar, mal podendo falar:

– Dotô Jota, qui coiza mais linda é essa, meu Deus do céu?! Qui açudão!

E o parlamentar, muito didático, ensinando ao palmeirense:

– Essa, seu Biu, é realmente, uma das coisas mais belas que a natureza já fez. E quando esse mar cresce, que lindo espetáculo!

O queixo do matuto caiu:

– E esse mar cresce, dotô Jota?

– Cresce de acordo com a variação do tempo, posição do vento, movimento da terra, etc, etc…

O matuto arregalou os olhos, esfregou uma mão na outra e propôs:

– Entonce, dotô Jota, bóra fazê um negóço.

– Vamos!

– O sinhô manda pegá um marzinho bem pixototinho, bota dentro de uma lata, leva pra Parmêra e dá munto pêxe pra ele, pra móde ele crecê, inté ficá grandão cuma esse açudão daí. Agaranto qui nunca mais vai fartá água nem no Agreste e nem no Sertão!

 

 

O quépi do Zé Luiz

 

O policial civil aposentado José Luiz, mais conhecido como “Du”, sempre foi um mulherengo incorrigível. Desde quando era molecote no distrito do Mutange. Morava quase em frente ao campo do CSA, onde tentou ser goleiro, mas não deu. Era “frangueiro” demais! Hoje em dia, garante o velho Du que, “apesar de um pouco gasto, ainda dou os meus pinotes!”

Zé Luiz ingressou na Polícia Civil assim que foi extinta a Guarda Civil estadual, que era uma corporação de respeito. Apesar de não ter as mordomias e as modernidades que as polícias de hoje em dia possuem, a GC cumpria o seu dever constitucional sem os arroubos e as frescuras que a gente vê hoje em dia. Mas essa é outra história.

Certa feita, quando ainda vestia a farda da GC, Zé Luiz perdeu o quépi e quase foi à loucura, porque ai do guarda que perdesse uma peça de sua vestimenta! Era punição na certa.

Para esfriar a cabeça, Zé Luiz resolveu entrar na igreja de São Benedito, já que era o encarregado de controlar o tráfego de veículos na esquina da rua do Alecrim com a rua Augusta.

O guarda Du sentou no banco da frente e ficou de cabeça baixa, sem prestar atenção na missa que o padre Luiz Sarmento celebrava. Na hora em  o reverendo subiu no púlpito para pronunciar o sermão, ele reparou na figura tristonha do guarda Du. Terminada a cerimônia religiosa, padre Sarmento chamou o Du e perguntou:

– O que está acontecendo com você, meu filho? Nunca o vi triste desse jeito!

E o Du, com a cara mais descontraída:

– Tô mais triste não, padre. Já passou!

– Graças à São Benedito! Mas por que você estava tão acabrunhado?

– Pelo seguinte, padre… eu havia perdido o meu quépi, não sabia onde, e estava com medo de ser punido. Era detenção, na certa! De repente, me lembrei onde tinha deixado quando o senhor chegou naquela parte do adultério!

Dada a explicação, Zé Luiz deu meia-volta e saiu disparado da igreja. Foi bater na Levada, onde o quépi encontrava-se bem guardado na residência de um certo funcionário do Serviço Nacional de Malária. A mulher do referido, que era muito cuidadosa, costumava receber, com frequência, a visita do guarda Du. Sempre de madrugada.

 

Com Diego Villanova