Ailton Villanova

14 de setembro de 2018

Deputado é mesmo difícil!

Batalhador incansável pela melhoria de vida do povo das Alagoas e político de lingua afiada, Albérico Cordeiro morreu em acidente automobilístico quando tentava recuperar o mandato de deputado federal, que havia largado para ser prefeito de Palmeira dos Indios. Na época em que era alcaide palmeirense, ele enfrentou uma oposição nada ética. Mas, em compensação, recebeu os aplausos de agrestinos profundamente agradecidos pelos benefícios que, por seu intermédio, obtiveram, direta ou indiramente, do poder público municipal. .

Em Brasília, Cordeiro era uma pessoa conhecidíssima tanto de poderosos quanto e de gente simples. Afinal, durante mais de quarenta anos ali residiu atuando como jornalista, ou exercendo seguidos mandatos de deputado federal.

“Cordeiro Trabalha!” – esse era o seu slogan, a sua bandeira de luta.

Enquanto outros parlamentares permaneciam distante do povo, dele só se aproximando nas épocas eleitoreiras, Cordeiro percorria as mais distantes bibocas alagoanas, ouvindo pessoas, escutando os seus lamentos, as suas reinvindicações. Por isso sempre foi um vitorioso.

Um dia, necessitando descansar as canelas, ele resolveu estacionar sua pessoa na terra que um dia também fora adotada por Graciliano Ramos, a encantadora e histórica Palmeira dos Indios.

Voltando aos tempos anteriores aos daqueles em que cumpriu o mandato de prefeito de Palmeira dos Indios, encontramos Albérico Cordeiro percorrendo o Sertão alagoano, em campanha para voltar à Câmara dos Deputados.

Enfrentando um sol causticante, Cordeiro caminhava por umas quebradas da distante Delmiro Gouveia, suando mais do que tampa de chaleira. Um aperto de mão aqui, outro alí, um abraço acolá…

E lá ia ele aplicando tapinhas nas costas dos mais velhos e passando a mão nas cabeças dos mais novinhos. De repente, ele parou na porta de uma casinha humilde, abarrotada de menininhos sambudinhos. Com aquele vozeirão de locutor dos antigos jornais-falados de emissoras de rádio, ele cumprimentou a dona da casa:

– Bom dia, minha irmã! Eu sou o deputado federal Albérico Cordeiro…

– É? – fez a mulher, com indiferença.

– Sou. Estou em campanha aqui pelo Sertão, sentindo o drama da gente humilde e sofrida deste torrão…

– Torrão? Ah, bom.

Sol quente, tinindo, e o ilustre parlamentar matraqueando no ouvido da mulher. Daí a pouco, começou a sentir fome. Já passava do meio-dia. Então, Cordeiro propôs à distinta senhora almoçar ali mesmo, comprometendo-se pagar a comida.

Madame preparou uma galinha de capoeira ao molho pardo, rango, aliás, da preferência do deputado. Cordeiro estraçalhou a penosa em questão de segundos. Em seguida, tomou um caneco de água, estalou a lingua no céu da boca, soltou um arroto caprichado e finalmente falou:

– Quanto foi a despesa, dona Maria?

– Déis mirréis, dotô! Tá bom?

Conhecido como tremendo “figa de aço”, Cordeiro espantou-se:

– É difícil encontrar galinha por aqui, minha irmã?

E ela:

– Inté qui num é, sabe dotô? É meio facizinho. Puraqui, difíci mêrmo é deputado!

 

 

Imagem e prosa

 

Excepcional criatura humana, crânio privilegiado, Raymundo Tadeu permanece insubstituível no quadro técnico das rádios Gazeta (capital e interior). Deus achou de levá-lo mais cedo, certamente para manter nos trinques as emissoras celestiais.

Tadeu era que nem o professor Pardal: pintava as canecas na eletrônica. Se não tivesse ido embora pro céu, hoje estaria concorrendo com os candidatos mais fortes ao Nobel.

Em razão da fama de gênio que angariou no Nordeste, Raymundo Tadeu andou prestando assessoria a diversas entidades, públicas e privadas da região.

Então, seu nome chegou aos ouvidos de determinado prefeito interiorano, que pretendia por todos os meios instalar uma emissora de TV na sua cidade. Tadeu foi lá e, com a sua competência e humildade, expôs ao alcáide as condições mínimas para a implantação da repetidora.

– Me dê aí a relação dos materiá, dotô! – pediu o prefeito.

Ali mesmo, na hora, Raymundo Tadeu preparou a relação solicitada e o prefeito perguntou:

– Adonde qui eu vô comprá esse materiá todo?

– Em São Paulo! – respondeu o técnico. – O endereço está aí!

Semana e meia depois, Tadeu recebeu um telefonema do prefeito:

– Comprei, dotô! Chegue pra cá pra mode a gente cumeçá logo o selviço.

Nosso bom Tadeu bateu lá num instante. Assim que botou os olhos no equipamento adquirido pelo chefe da edilidade interiorana, ele reagiu:

– Esse material é fajuto! Não foi esse o que eu recomendei! Presta não!

Onde o senhor comprou…?

– Eu comprei na Bahia, pela metade do preço… Quando o sinhô vai cumeçá a “estalá” a ripitidora?

– Com esse material eu não instalo. Não vai funcionar. A imagem vai ficar cheia de chuvisco…

O prefeito insistiu:

– Óia, dotô, num é mais milhó a gente tê uma imáge chuviscada, do qui nada?

O alcáide tanto pediu, tanto apelou, que o Tadeu, coração imenso, topou a parada, tendo antes solicitado ao mandatário que firmasse um documento se responsabilizando por qualquer contratempo ocorresse. O cara garatujou uns hieroglifos num papel e Tadeu meteu mãos à obra.

Uma semana depois caiu o maior toró na cidade e a repetidora apresentou o maior “galho”. Apavorado, o prefeito ligou pro Tadeu:

– Dotô, pelamordedeus! A ripitidora tá toda invocada!

– Como, invocada? – perguntou o técnico.

– Discontrolô! Indoidodô! Quando ela imagêia, num prosêia… E quando prosêia, num imagêia!

 

Com Diego Villanova