Ailton Villanova

30 de agosto de 2018

Defecador de preciosidade

Nos seus diversos segmentos, o rádio alagoano produziu excepcionais valores, daqueles que hoje em dia não se vê mais. Um exemplo: Arthur Rodrigues (“Rodriguez”) de Melo, quase réplica do ator Grande Otelo. Seus colegas o chamava carinhosamente de Guaxebinha.

Filho de renomado jurista alagoano, redator eclético, Arthur “Rodriguez” de Melo era, na Difusora, o responsável pela produção do noticioso “O Furo do Dia”, espécie de Repórter Esso dos bons e felizes tempos da emissora oficial do Estado. Esse boletim tinha a duração de 5 minutos, e ia ao ar de segunda a sábado, às 21 horas, invariavelmente nas vozes de Jesualdo Ribeiro, Cláudio Alencar ou Roland Benamor. A década era a de 50 e a Difusora tinha um time invejável de locutores.

Também produtor de programas humorísticos – o mais famoso deles intitulado “Pelos Atalhos da História” – Guaxebinha caprichava no Furo do Dia. Não aceitava que ninguém o substituísse na sua elaboração. Certa feita, na véspera de entrar em gozo de férias regulamentares, ele se trancou no Departamento de Notícias da emissora e, exaustivamente, passou horas e horas projetando os boletins que seriam irradiados durante todo o seu período de repouso remunerado. Ele escreveu trinta Furos do Dia e foi  embora pra casa cansado, mas tranquilo, certo do dever cumprido.  Guaxebinha era assim.

Dono de um texto primoroso, o Arthur era extremamente conservador. Não permitia termos chulos e nem informações “muito populares” nos noticiosos sob sua responsabilidade. Foi com certa relutância que, belo dia,  teve de abrir espaço no Furo do Dia para falar de um bandido.

O elemento vivia infernizando a vida de moradores do bairro do Farol e se constituía num persistente desafio à policia que, num lance de sorte, o pegou dando bobeira na praça do Centenário. Nessa ocasião, segundo a

contabilidade da polícia, o meliante estava sendo preso pela 100a. vez. De modo que o fato merecia uma comemoração, conforme recomendação da Secretaria do Interior e Segurança Pública de então.

E foi assim, exaltada como “a grande façanha da polícia”, que Rodriguez de Melo redigiu a informação e a inseriu como “a última notícia do horário”, do Furo do Dia, que foi ao ar na palavra do locutor Cláudio Alencar:

– “E atenção ouvintes para a notícia final do horário! A polícia prendeu hoje, pela centésima vez, o gatuno Alonso da Silva, vulgo “Defeca Preciosidade”…

Risão ao extremo, Cláudio Alencar deu uma paradinha na leitura do texto, para segurar a gargalhada. Disfarçando, temperou de leve a garganta e continuou a leitura do texto até o final. Terminado o noticiário, Alencar desceu até a sala do redator, rindo à valer:

– Ô Guaxebinha, onde diabo você arrumou esse apelido pra botar no marginal? Defeca Preciosidade!!! Essa foi demais!

Com o cigarro no canto da boca, Rodriguez de Melo respondeu ao colega no mesmo tom:

– E você acha que eu sou maluco pra escrever no texto o verdadeiro apelido do meliante?

– E como é o apelido dele?

E o Arthur, muito sério:

– “Caga Ouro”!

 

Ele era apenas o carona!

 

Este mundo está mesmo doido! Fatos os mais singulares, casos os mais absurdos se sucedem – e não estou falando da ladroeira promovida por esse magote de políticos brasileiros -; também não estou querendo me referir à pedofilia desenfreada envolvendo até o próprio clero, nem às reiteradas matanças urbanas e aos repetidos assaltos do MST, com o apoio do governo; tampouco, do tráfico renitente de drogas que amiúde se registra no Brasil.

Segundo o professor Frebrônius Anaversus, observador mais ortodoxo de ocorrências inverossímeis, o fim do mundo está próximo e o sintoma mais eloquente disso está no fato que vai abaixo papeado:

Numa rodovia federal um agente da PRF mandou parar um carro que trafegava na maior velocidade – 200k/h. Na direção estava um cachorro. No banco do carona, havia um cara completamente embriagado. Foi à ele que o guarda se dirigiu:

– Que esculhambação é essa, rapaz? Isso é de uma irresponsabilidade sem limite! Como é que você deixa um cachorro dirigir o carro?

E o bebão:

– Calma aí, seu guarda! Eu não tenho nada a ver com isso! Só tô pegando uma carona!

 

Oportunista de circunstância

 

Desempregado, endividado até a raiz do cabelo, Dióxido Nistatino encontrava-se parado numa esquina, pensando na vida, quando, de repente, reparou num carrão esporte importado passar puxando “mil” pela rua e se estabacar num poste.

Enquanto o Dióxido ia se aproximando do veículo, o ricaço dono da “máquina”, se arrastava para fora do carro e se estirava na calçada, todo ensanguentado. Aí, o Dióxido chegou junto do cara e perguntou:

– Tá muito machucado?

– Sim… ai… bastante!…

– O senhor tem seguro?

– Seguro total…

– E ele cobre todas as despesas?

– Todas. Até o hospital… que eu escolher…

– E o dinheiro sai rápido?

– Na mesma hora…

– Então… posso ficar aqui deitado com o senhor?

 

Com Diego Villanova