Ailton Villanova

29 de agosto de 2018

A lição do “exemplar” Pantaleão

Inteligente, culto, estrategista, Fernando Theodomiro Santos Lima, hoje exercendo a atividade de advogado, ingressou na história da Polícia Militar de Alagoas como um dos seus mais brilhantes oficiais. Depois de exercer, por duas vezes, o cargo de secretário de Segurança Publica e de comandante-geral da PM, aposentou-se ainda moço, passando a integrar o honroso quadro de oficiais RR/1, claro que no posto de coronel.

Apesar de falar mansinho, com ares de frade franciscano, Theodomiro é caboco durão. No começo de carreira como oficial PM, ele ocupou o cargo de assessor do então diretor-geral do Detran, o saudoso coronel PM Antônio Monteiro de Souza. Observador contumaz da finesa e dos bons costumes, Theodomiro, ao assumir posto de responsabilidade naquele órgão, tratou de mostrar serviço. Primeira coisa que fez foi promover um curso de reciclagem para o pessoal que trabalhava no trânsito. As reclamações contra as “grossuras” da milicada da área se acumulavam no gabinete do DG do Detran.

Coronel Monteiro derramou-se em elogios ao moço Theodomiro pela iniciativa e o incentivou:

– É isso aí, meu filho! Mostre a esses meninos como se deve trabalhar. .

Ao cabo de dois meses, Theodomiro, que já era capitão, deu por  concluído o treinamento do pessoal, baseado nas melhores e mais modernas técnicas das relações públicas e humanas. Entretanto, seu maior desafio foi  o de procurar colocar nos “eixos” um certo sargento Pantaleão, que era mais grosso do que papel de enrolar prego.

Pantaleão era sertanejo e foi remanejado para a capital a fim de aquirir bons costumes. Aí, caiu nas mãos de Theodomiro, por sugestão do seu colega, o também capitão PM Marcelo Zoomilx Gomes Costa, que trabalhava no setor equivalente a hoje Diretoria de Pessoal da corporação.

Concluído o treinamento, teria que haver uma solenidade para a entrega dos certificados. A imprensa foi convidada tanto para registrar o evento, quanto para se fazer presente à  primeira exibição da nova Companhia de Trânsito – exaltada como “um exemplo a ser seguido por toda a corporação” – ocorreria no sábado seguinte, à noite, na área da antiga Estação Rodoviária, localizada no bairro do Poço e bem próxima da praça Senhor do Bonfim. O logradouro – quem se recorda? – era cheio de lupanares disfarçados de “hotéis”.

A exibição resumia-se nas proverbiais e indefectíveis “blitzen” – que significam “fiscalizações”.

Capitão Teodomiro ao lado do coronel Monteiro, cada um de apito no  bico, comandavam o espetáculo. Logo, uma multidão se formou para assistir e aplaudir a performance dos militares, todos eles dando aquele show de finura, eficiência e competência.

Tudo ia correndo às mil maravilhas, quando coube ao soldado Valter ( o mais fino e educado entre os demais) a incumbência de parar o carro de uma madame finória, que, muito posuda, dirigia um carrão no sentido Poço-Centro. Cheia de arrogância e de direito, ela protestou:

– Que é que você quer, seu meganha? Não respeita mais as senhoras  da alta sociedade?

Munido do melhor das suas paciência e educação, o PM explicou à mulher que estava cumprindo uma missão e que, tanto o carro dela, como os demais que por ali trafegavam, estavam sujeitos a fiscalização. Então, indagou:

– A senhora é habilitada?

E a mulher:

– Interessa se sou habilitada ou não?

– Claro que interessa, senhora. O seu veículo só sairá deste local quando for revistado e a sua carteira de habilitação apresentada. – retrucou o militar, aumentando o tom da voz.

– Pois fique sabendo que nem deixo o meu carro ser revistado e nem lhe mostro a minha carteira. – rebateu a mulher.

Um pouco adiante se achava o sargento Pantaleão, que observava o diálogo entre o soldado e a finória. Ele não gostou de ver o “espetáculo” que ela estava oferecendo. Perdeu a paciência e chegou junto:

– Ô soldado, deixa que eu resolvo esse problema. Se afasta daqui, que eu vou mostrar pra essa piranha que ela tem que respeitar a polícia!

Pantaleão bateu na capota do carro da mulher e disparou:

– Ô sua quenga, o assunto agora é comigo! Por que é que você num tá querendo apresentar a carta de guiar, hem? Tá pensando que isto aqui é zona? Bota logo pra fora a bosta da carta, se não quizer levar umas palmadas nessa sua bunda nojenta, cheia de pereba!

A mulher ficou tão indignada e com tanto medo do sargento Pantaleão, que não teve como segurar o xixi, que escorria de enxurrada por entre suas pernas.

Foi aquele escândalo!

No final do rolo, a turma toda, e mais a platéia, ficaram sabendo que a  exibida e arrogante mijona, era esposa de uma destacada autoridade do Estado e, coincidentemente, amiga de Monteiro e Theodomiro que, justiça se faça, não livraram a cara dela.

 

 

 

Ladrão por ladrão…

 

O empresário Agrício Xavier, gente fina, marcou audiência com certo parlamentar e na hora aprazada, olha ele lá. Enquanto aguardava a vez de ser introduzido no gabinete do político, foi tratado com a maior cortesia pelo chefe de gabinete do indigitado.

Quando, finalmente, foi recebido pelo deputado, Agrício resolveu conferir a hora e aí tomou o maior susto: o relógio havia sumido do pulso!

Muito constrangido, ele disse ao político:

– Não sei como lhe contar, excelência… Mas, enquanto eu aguardava para ser recebido por sua pessoa, meu relógio sumiu! Só estávamos eu e o seu chefe de gabinete. E…

O deputado mal esperou o empresário terminar de falar. Deu uma saidinha e voltou em seguida, com o Rolex do Agrício na mão. Emocionado, este agradeceu:

– Muito obrigado, excelência. Espero não ter causado nenhum constrangimento pro seu assessror quando sua excelência pegou o relógio de volta.

E o deputado:

– Esquente não! Ele nem percebeu!

 

Com Diego Villanova