Ailton Villanova

23 de agosto de 2018

Assassino Musical

Dentre incontáveis jóias do cancioneiro brasileiro – com realce, também, no cenário internacional -, destaca-se a composição do saudoso poeta e maestro alagoano Antônio Paurílio, intitulada Ansiedade. Belíssima obra musical. Comovente, do ponto de vista poético, ela inclue a importância do enriquecimento da linha melódica imposta à uma poesia suficientemente clara e precisa, muito pessoal, porque trata do amor, do sofrimento, da saudade, da expectativa daquele que aguarda nova oportunidade de reecontrar alguém que pode dispor, “quando quiser” do momento da volta.

Ansiedade é a exaltação do que existe de maravilhoso em uma mulher imaginária, bela como a canção, imagina-se, que apesar de distante daquele que sofre com sua ausência, entretanto algo jamais inalcançável.

Maestro Antônio Paurílio, autor de outras canções, teve a felicidade ver sua obra ganhar o Brasil e o exterior através da interpretação de Alcides Gerardi, que se destacou dos demais pela exigência da escolha do seu repertório.

Meus dias hoje são iguais,

            As minhas noites não terminam

            Horas, minutos,  passam tão banais,

            Que entristecem e alucinam”…

Essa, a primeira estrofe de Ansiedade. Romântica, sofrida, cheia de expectativa. Apesar de exaltado como excepcional músico e compositor, Paurilio permaneceu recolhido à sua humildade. Todos os grandes são assim.

Na Rádio Difusora dos tempos áureos, cujo “cast” era constituido de valores que marcaram época, e ainda hoje são lembrados com muita saudade – deixo de citá-los todos, para não cometer alguma injustiça. Com grande orgulho pertenci àquela turma.

A emissora oficial do Estado mantinha no ar os chamados programas de calouros, que iam ao ar ao vivo, tanto nos meios de semana – nos horários vespertinos e  até à noite -, como nos finais destas. E quantos valores revelou!

O Regional dos Professores, o Conjunto Horizonte, a orquestra do maestro Nicácio, abrilhantavam esses programas. Ajudavam os candidatos na conquista de prêmios valiosos, por suas participações vitoriosas nas referidas atrações. Como não havia televisão naquele tempo, os programas de auditório na RDA, então instalada na rua Pedro Monteiro, centro de Maceió, ocorriam entupidos de gente. Quando as atrações eram maiores, com participações de ídolos nacionais, o Teatro Deodoro era requisitado.

Os calouros tinham direito a um espaço à tarde, para o proverbial  ensaio, ou com o Regional dos Professores, com Paurilio ao piano, ou com Nicácio, ou maestro Passinha, comandando a orquestra. Era calouro que não

acabava mais.

Candidato atrás do outro, para apresentação do programa da saudosíssima Odete Pacheco. E Paurílio ouvindo todos, com paciência de Jó. Aprovava, ou desaprovava. Era com ele mesmo.

Certa feita, pintou na parada um sujeito grandão, muito risonho, cheio de si. Maestro Paurílio, que era baixinho e franzino, puxou os óculos para a ponta do nariz, e perguntou, olhando o cara de baixo pra cima:

–  Você pretende ensaiar para cantar o quê, meu filho?

E o cara, sem desmanchar o sorriso:

– Vô cantá “Ciedade”…

Paurílio já começou a ficar preocupado. Seria a sua música Ansiedade? Não custava nada saber:

– Quem é o autor dessa música, meu, filho?

– Seio não, sinhô. Só seio quié uma musga muito bacana. Posso iscolhê o tom?

Autorizado, o caboco escolheu o tom – um tal de “sibremô” -, o maestro Paurílio o autorizou começar, para, depois, o Regional dos Professores (que realmente só tinha professores), acompanhá-lo. O cara abriu o bocão e lascou lá:

– Meu dia hoje é INGUÁÁÁÁÁUUU…

Maestro Paurílio teve um ataque apoplético:

– Assassino! Pare aí! Você acaba de assassinar a minha música! Vá cantar “inguáu” assim, na casa da peste! Fora daqui! Fora!

 

 

Entendeu muito tarde

 

Quase idênticos, os irmãos Lupércio e Latércio Bezerra Villanova, são médicos no Recife. .

Certa feita, um deles, o Lupércio, encontrava-se de plantão no pronto-socorro e aí chegou lá um português com a perna quebrada. Lupércio perguntou:

– Como foi que ocorreu esse acidentei, meu amigo?

– Bain, doutoire – começou o português – há trinta anos, quando eu…

– Eu não quero que o senhor me conte sua vida. Me diga apenas como o senhor quebrou a perna. – rebateu  o Lupércio.

E o lusitano:

– Como eu estava a dizeire, há trinta anos eu trabalhava de bóia-fria numa fazenda. Na primeira noite, a filha do fazendeiro, uma rapariga lindíssima, entrou no meu quarto e perguntou se eu precisava de algo. Eu agradeci, ela  insistiu: “Tem certeza de que não há nada que eu possa fazer por você?” Então, eu respondi: “Não quero nada, muito obrigado”.

Aí, o médico manifestou:

– Porra, eu não estou entendendo o que essa história tem a ver com a sua perna quebrada!…

– É que hoje, quando eu estava a consertaire o telhado, foi que eu vim entendeire o que ela quiz dizer… e caí da escada!

 

 

E só estava encolhido!

 

O proprietário rural Drubaldo Calheiros teve de deixar de usar bermuda muito cedo, aí pelos oito anos de idade, mais ou menos. A explicação, o motivo para o problema são dados nas entrelinhas seguintes.

Calheiros não pode ir à missa, a não ser para ficar sentado ou em pé o tempo todo, até a palavra final do padre. Namorar, nem ver.

Em determinada ocasião ele saiu de sua fazenda e veio à Maceió, para espairecer um pouco. Primeira coisa que fez quanto assentou o solado dos pés na Capital, foi correr para o mar.

E Calheiros danou-se a caminhar na praia da Avenida da Paz, todo enfatiotado e feliz da vida. Olhando para aquele marzão azulzão, deu-lhe uma vontade danada de tomar um banho. Como não dispunha de calção, muito menos de cueca, achou de tirar as botas e entrar no mar de calça mesmo.

O problema é que a calça do Calheiros era de um finíssimo linho branco, e ficou transparante quando ele saiu do mar. A turma que se encontrava curtindo a praia, caiu na risada, porque dava pra ver nitidamente o “instrumento genital” do Calheiros que chegava a altura do joelho.

Sem se intimidar, nosso amigo encarou a rapaziada:

– Quê que hái? Não venham me dizer que a bilunga de vocês também não fica encolhida no frio!

 

Com Diego Villanova