Ailton Villanova

15 de agosto de 2018

Música de milhões

O ilustre Gama Filho foi um esforçado corretor de anúncios para o rádio que, um dia, teve a ideia de também ser locutor. Estreou na Rádio Educadora Palmares de Alagoas, à época de propriedade da Arquidiocese de Maceió, com a bênção do saudoso Fernando Iório Rodrigues, que ainda não havia sido sagrado bispo. Ele era apenas o cônego Iório, diretor-geral da emissora.

Homônimo de uma das mais brilhantes inteligências brasileira – o renomeado professor- doutor Gama Filho, patrono de uma das maiores universidades privadas do país -, o nosso Gama foi o que se pode afirmar, o oposto em termos de cultura geral, sabedoria, principalmente no trato com a língua pátria.

Montado na condição de locutor de rádio, Gama Filho inaugurou na Palmares o programa “Gama Show”, aquele besteirol que a gente está acostumado a ouvir nas nossas rádios. Só, que mais terrível!

Meados de 62, estava ingressando nas paradas de sucesso do Brasil inteiro uma música lançada pelo grupo vocal Renato & Seus Blue Caps, que tinha o singular título: “467723”. Pronunciava-se assim: “Quatro-meia, sete-sete, dois-três”. Resumia o apêlo de um apaixonado rapaz, que pretendia contato com a garota dos seus sonhos. Num trecho da canção, emergia, desse modo, o apelo do tal jovem perdido de amor:

“Minha querida, preciso lhe falar/ligue pra mim: quatro-meia, sete-sete, dois-três”… etc, etc…

Gama estava por fora dessa canção. Aliás, ele sempre estava por fora de tudo quanto era música, apesar de se auto-intitular disquejóquei. Então, o discotecário (hoje denominado produtor musical) programou a dita música para o “Gama Show”, certo de que seu apresentador tinha conhecimento de sua existência.

O sonotécnico rodou a música. Quando esta terminou, ele abriu o som do estúdio para o locutor dizer o seu título e intérprete, conforme é praxe nas programações musicais radiofônicas. Gama Filho saiu-se aissim:

– Acabamos de ouvir, na interpretação do conjunto vocal Renato & Seus Blue Caps, o grande sucesso intitulado… Huuummm… eerrr… aahhnn… xovê… Aaarráááá! “Quatro milhões, seiscentos e setenta e sete mil e vinte e três” Eita musiquinha aloprada! É número que não acaba mais!

 

 

Ele até pensou em morrer!

 

Fernando Henrique Cardoso era senador da República e colega de bancada do saudoso Teotônio Vilela, o Menestrel das Alagoas. Certa ocasião, a convite deste, veio à Maceió.

Orgulhoso das belezas naturais da Terra dos Marechais, mais ainda das nossas comidas típicas, o velho Téo pegou FHC e o levou para um almoço no Bar das Ostras, conhecido internacionalmente pela gostosura dos seus pratos, principalmente. O camarão ao molho…

– Fernando, você agora vai comer o melhor camarão do mundo! – anunciou Teotônio com uma ponta de orgulho, ao sentarem os dois à mesa.

Fernando Henrique mostrou que é bom de boca e pegou firme no rango camaronífero. Teotônio só observando o ar de satisfação com que o companheiro parlamentar degustava o pescado. Terminado o almoço, Vilela com aquele vozeirão de causar inveja até ao Cid Moreira, perguntou a FHC:

– Como é, Fernando, depois de ter saboreado esse camarão o que é que você quer fazer agora?

E Fernando Henrique, mal podendo falar:

– Sabe, Teotônio, agora mesmo estou querendo morrer. Qualquer homem, como eu, depois de comer o camarão que eu comi, não tem mais nada de bom a fazer nesta vida.

Mas teve. FHC chegou a ser presidente do Brasil, sem jamais ter esquecido o camarão do Bar das Ostras.

 

 

Só a morte deu jeito!

 

No Bar do Duda, em Mangabeiras, uma patota de biriteiros discutia sobre sogras, só porque o Esclarildo Leão havia tomado uma tamancada da mãe da mulher dele, dona Marinalva. E o cara ainda fazia a defesa da agressora:

– Peraí, rapaziada… a coitada me bateu por engano. Ela me confundiu com um ladrão, quando eu estava pulando para dentro de casa, pela janela do oitão. De madrugada, tudo escuro, como era que ela podia me reconhecer? Me digam!

Aí, salta o Agajoel e dá o seu pitaco:

– Sogra é atraso de vida, rapaz!

– Diz isso não bicho.

– Digo! Com a minha eu nunca me entendi. Todas as vezes que a gente se via, o pau comia! Só teve uma vez que entrei na casa dela  e ela não esculhambou comigo!

– Quando foi isso? – quis saber o Esclarildo.

– Foi quando ela morreu!

 

 

Tremendo pé frio!

 

No último esforço, antes de morrer, seu Flósculo Leão segurava a mão da mulher, dona Balmásia:

– Quando voltei ferido da Primeira Guerra, em 1918, você estava ao meu lado. Quando me soltaram do campo de concentração, em 1945, você me esperava…

– Sem conter as últimas lágrimas, continuou:

– Quando a minha velha loja teve que fechar e fiquei sem um tostão, você sempre esteve comigo. Há alguns anos, quando o medico diagnosticou este câncer, você estava comigo. E agora, eu estou aqui morrendo, e você aqui, ao meu lado.

Engasgado de emoção e do esforço, o velhusco ainda conseguiu pronunciar mais uma frase:

– Puxa, minha velha, você é um tremendo pé frio!

 

Com Diego Villanova