Ailton Villanova

8 de agosto de 2018

O estrangeiro

Pinguço contumaz, Filadelfo Pereira, o Dedéu Boca de Ninho, ou simplesmente Boca, mal tem onde cair morto. Mas é boçal ao extremo.

O Boca é baixinho, magrinho, tão magrinho que não precisa submeter-se ao aparelho de raios-X quando está doente. Todas as vezes que está tossindo ou espirrando e necessita de uma radiografia do pulmão, o radiologista o coloca contra a luz e o resultado sai na hora. Boca é um tanto transparente.

Além dessa sua magritude, Boca só tem pregados  no casco da cabeça uns oito ou dez fios de cabelos grisalhos. Venta da papagaio, só possui meia dúzia de dentes enfeitando a cavidade bucal.

Dedéu Boca de Ninho trabalha uma semana como biscateiro no Mercado da Produção, na Levada, e passa o resto do mês biritando nas bocas mais encardidas da Brejal, sendo que a sua preferência é pelo Bar do Negão, pelo motivo seguinte: o ambiente é cheio de mulheres da chamada “vida fácil”. Na presença dessas aí é que ele se exibe, esbanjando boçalidade.

Numa certa noite de quarta-feira, encontrava-se Dedéu biritando em companhia de uma novata no pedaço, chamada Jurema, quando, de repente, pintou na parada um magote de milicos da Rádio Patrulha.

– Todo mundo no lugar! – berrou o comandante da patrulha, um sargento adiposo, com ar belicoso.

Aí , o Boca viu, então, a oportunidade para exibir-se perante a morena. Pôs-se de pé, encarou os milicos e sapecou:

– Uquié qui hai? Num si pode mais bebê assussegado neste locáu?

– Cale essa boca murcha e… mãos na parede!  – outra vez ordenou o militar adiposo.

– Num calo e inzijo respeito! – rebateu o boçal.

– Quem e você? – quis saber o graduado.]

– Sô um visitante inlustre, falei?

– Que tipo de visitante ilustre é você?

– Sô istgrangêro, meu!

O sargento era chato. De modo que quis saber tudo bem explicadinho:

– Hmmmm…   Estrangeiro, é? Estrangeiro de onde?

Dedéu Boca de Ninho estufou o peito e mandou:

– Sô da Istranha. Sabe dadonde qui fica isso? Percure na Giografia!

 

O velório do anão

Era uma vila residencial, encravada nos cafundós do Sertão poeirento e esturricado. Essa vila tinha três casas geminadas de um lado e um terreno baldio do outro. Nos fundos, um quintal usado em comum pelos moradores das três casas.

Na primeira casa, a mais frequentada, moravam as quatro irmãs Terebentina, que nem sequer podiam ser chamadas de prostitutas, pois davam até de graça – o que as eliminava da categoria – pelo simples prazer de iniciarem sexualmente a molecada do lugarejo intitulado São Jeremias.

Na casa do meio morava o Febrônio, trabalhador braçal com mania de caçador, que tinha uns oito ou dez esfomeados cachorros de raça que infernizavam toda a vizinhança à procura de comida, já que Febrônio mal podia comprar alimentos para ele e a mulher. Eram cachorros magros, vorazes, que nunca enjeitavam qualquer tipo de comida.

Na última casa, dois amigos incomuns: Zezão “Pé de Coqueiro”, com mais de dois metros de tamanho e Dinho Anão, com metro e vinte de altura. Zezão protegia O Dinho das brincadeiras da molecada e até mesmo dos cachorros do Febrônio, que lhe tinham muito respeito. Zezão e Dinho eram amigos inseparáveis.

Um dia, Zezão viajou à cidade de Água Branca e mal chegou lá recebeu pelo telégrafo a notícia de que o seu amigo anão havia morrido pouco depois de sua saída.

Não deu tempo nem para o cavalo descansar. Voltou imediatamente para São Jeremias. Chegou em casa às dez da noite, com frio, e encontrou o velório já armado. O anão morto estava estirado numa mesa na sala, com quatro velas acesas, mas não tinha ninguém dentro de casa. Havia uma fogueira na ruela, no meio da vila, e todos estavam em sua volta, tomando cachaça e contando piadas. Velório no interior é assim.

Triste, Zezão saiu e ficou olhando o pessoal e ouvindo a prosa animada. Voltou para dentro de casa, demorou uns vinte minutos e dirigiu-se para perto da fogueira, ouvindo as piadas sem achar graça nenhuma. Entrou de novo em casa, demorou, voltou…  Assim fez várias vezes.

A certa altura, apareceu na porta com o anão morto debaixo do braço, gritando:

– Pode ir todo mundo embora, magote de pestes! Vocês estão aqui pra beber e contar piada, ninguém tá ligando pro coitado do defunto! Vão beber na puta que pariu!

– Mas o que é isso, Zezão? Nós todos gostamos muito do Dinho, mas velório é assim mesmo! – rebateu um os festejadores.

– Não, não! Vão todos embora!

– Ora, Zezão, por que você tá assim tão invocado? O que aconteceu?

– Porra! É a terceira vez que pego os cachorros do Febrônio arrastando o defunto lá pro fundo do quintal…

 

Com Diego Villanova