Ailton Villanova

1 de agosto de 2018

Medalha difícil de encarar

Chamava-se Milton Neves, mas era conhecido como Milton Tatu. Ele morava no Alto da Conceição, distrito-limite Bom Parto/Farol, em Maceió. Na época em que trabalhava na finada Fábrica de Tecidos Alexandria, apreciava caçar preás, pacas, tatus, cotias e capivaras nas matas do Rolo e do Remédio. De vez em quando capturava um jacarezinho no mangue de Marechal Deodoro.

Milton Tatu não era a exceção da regra. Como todos os caçadores, gastava noites inteiras contando causos e cantando loas.

Quando não estava trabalhando ou enfurnado nas matas, Milton Tatu era visto proseando com o pessoal da velha guarda bompartense, no calçadão que existia ao lado do casarão onde morou, durante anos, o pároco do Bom Parto, padre Luiz Marinho e, depois a família do boníssimo Werther Moura.

Remota noite,  numa rodinha de amigos, ele era, como de costume, o centro das atenções. Explicava à turma que havia ficado 30 dias perdido numa mata, juntamente com um colega.

– E vou dizer uma coisa pra vocês – prosseguia empolgado – se eu não fosse tão católico, ainda hoje estava lá!

– Não diga! – interferiu o amigo chamado Hildebrando, o “Leão”.

– Se digo? Digo, sim. Tive de rezar um terço inteirinho!

– E você tinha levado o rosário?

– Tinha não.

– Então, o seu parceiro…

– Também não tinha. Mas eu explico: é que esse meu amigo era tão magro, que pedi pra ele tirar a camisa, e a cada nó da sua coluna eu rezava um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Cheio de curiosidade, Hildebrando Leão insistiu:

– E deu certo?

– Olha, certo deu, sim. Mas, duro mesmo foi beijar a medalha no fim do terço.

 

Mas que bom!

José Nêudo sempre apreciou andar de bicicleta. Desde criancinha. Entretanto, por insistência da esposa, Maria Creolínea, foi forçado a comprar um carro novinho zerado. Isso há mais de 10 anos. Até hoje não conseguiu tirar a carteira de motorista porque todas as vezes que se submete ao exame respectivo, é reprovado.

Outro dia, lá ia ele pra casa, com a Creolínea ao lado, ziguezagueando em plena Via Expressa. Os dois, marido e mulher, completamente biritados, haviam saído de uma festa de aniversário na casa do amigo Valter Lessa, localizada no Barro Duro. No meio do caminho, foi parado por um guarda que montava numa moto:

– Bonito, né?

E Zé Nêudo, achando que o guarda estava elogiando o veículo:

– Bonito e veloz!

O guarda acrescentou, cheio de direito:

– E cadê o cinto de segurança?

Menos biritada que o marido, Creolínea achou de responder por ele:

– Tá lá atrás, segurando o botijão de gás, seu guarda.

O agente de trânsito, então, deu a dura:

– Nesse caso, eu vou ter que tirar a carteira dele.

– Ah, muito obrigada, seu guarda! – exultou Creolínea – Faz um tempão que ele vem tentando tirar essa maldita carteira, mas nunca passa nos exames!

 

Mas qui aduvinhona!

Quando o celular pintou na parada, dezenas de anos atrás, quem tinha grana disponível tratou logo de adquirir o seu. Afinal, celular era a grande novidade mundial. Na primeira semana de lançamento do aparelho – que não era tão leve e delicado como os de hoje em dia – só se via neguinho se exibindo de celular no ouvido, em tudo quanto era lugar. O aparelho da época era tão grande e pesado que mais parecia um tijolo.

Ao saber da novidade, um certo prefeito interiorano se mandou de sua cidade para a capital, a fim de adquirir umas dessas peças. Chegou na finada Telasa e falou para uma das recepcionistas:

– É aqui qui vosmicês tão vendendo aquele treco chamado celuláro?

E a mocinha:

– Celular? Ah, sim, temos vários aparelhos à venda.

– Entonce me dê um! Pode imbrulhá pra viáge…

– Não é preciso. O senhor carrega no bolso da calça.

O alcaide saiu da loja entusiasmadíssimo e a primeira coisa que fez foi ligar para casa. Sua mulher atendeu e ele mandou:

– Tervina! Comprei o tá de celuláro! É a coisa mais chique do mundo!

E dona Etelvina, igualmente emocionada:

– Parabém, meu véio!

– Óia, Tervina, iscreva aí o númuro do bicho. Se caricê, é só vosmicê ligá pra eu!

Mais que depressa, madame garatujou o número do celular num pedaço de papel e encerrou o papo. Já que estava na capital, o ilustre alcaide aproveitou a oportunidade para comemorar a grande aquisição, no lugar que mais conhecia por estas bandas: a zona do meretrício. Chegou lá, agarrou uma quenga e foi com ela pro quarto do furdunço. Estava bem à vontade com a mulher, na posição horizontal, quando o celular disparou. Ele atendeu e assustou-se, quando escutou o “alô” do lado de lá:

– Ôxi, Tervina! Cuma tu aduvinhô qui eu tava aqui na zona das puta?

 

Cabrita mentirosa

Padre Diocleciano era um sujeito bastante animado. Quando jovem, bateu um bolão, na posição de centroavante. Teria sido um cracaço, inclusive de seleção, não houvesse optado pela batina.

À medida que passava o tempo, ele ia se aprimorando numa outra predileção, apenas para se divertir: o ventriloquismo. Um dia, transferido de cidade, foi exercer seu ministério no Agreste pernambucano. E já chegou lá munido do propósito de conquistar a meninada. Assim que pôde, resolveu levar um grupo de fedelhos para passear pelo campo.

Foi aí, então, que resolveu mostrar a sua habilidade como ventríloquo. Aproximou-se de um touro que pastava próximo a uma cerca e falou:

– Bom dia, seu touro, como vai?

Ao que o “touro” respondeu:

– Eu vou bem, seu padre. O pasto é bom, mas o que me incomoda um pouco são esses chifres que eu carrego…

A molecada ficou abismada e ao mesmo tempo chocada. Mas o passeio continuou até que a comitiva parou ao lado de uma cabrita. E o padre, novamente:

– Bom dia dona cabritinha? Tem namorado muito?

Nesse momento um menininho lourinho se destacou do grupo, puxou o sacerdote pela manga da batina e falou aflito:

– Seu padre, não acredite nessa cabrita não. Ela é muito mentirosa! Vamos embora daqui!

 

Com Diego Villanova