Ailton Villanova

28 de julho de 2018

O GRANDE CULPADO

A década de 50, no bairro Bom Parto, em Maceió, foi a década do esporte e da cultura. A finada Fábrica Alexandria (Cotonifício Alexandria) incentivava e patrocinava os grandes eventos nessas áreas. Quando a rapaziada do pedaço se dividia em agremiações esportivas, por exemplo, rivalizava apenas nos momentos das disputas em campo ou em quadra – futebol, voleibol… Depois disso, todo mundo voltava a ser como era antes: tudo amigo, tudo irmão. Aquilo lá era uma imensa família.

Hoje, no velho Bom Parto a grande maioria das pessoas mal se cumprimenta, porque mal se conhece.

Engato uma marcha à ré no tempo e sinto uma saudade danada da minha infância e da minha juventude naquele bairro.

Tínhamos ali, além das agremiações religiosas e dos clubinhos sociais e esportivos, pelo menos duas equipes de teatro. A pioneira delas, constituída na sua maioria de crianças, era orientada pela dedicadíssima Edith Martins de Oliveira. A outra, do pessoal maiorzinho, tinha como líder o inteligente Benedito Fonsêca, maestro e tenor. Possuíamos um jornalzinho cujo inspirador foi o saudoso padre Brandão Lima, pároco do Bom Parto e também jornalista, que chegou a ser editorialista da Gazeta de Alagoas.

Bom. O grupo cênico dirigido pelo Benedito Fonsêca, intitulado Escola Teatral Três Moedas de Ouro – Etatmo – (não sei onde bubônica o Biu foi arrumar esse nome!) estava estreando a peça “A Carteira Fatal”, no auditório da Escola São José, que ficava ao lado da igreja. No meio do segundo ato, Fonsêca descobriu que um ator secundário, o José Alcides Sobrinho, havia faltado. Aí, ele botou o olho no garoto que fechava e abria as cortinas, o Manuel Messias, conhecido por todos como “Mané Doido”, e determinou:

– Prepare-se para entrar em cena!

Mané tomou um susto:

– Eeeuuu, Biu?!  Posso não!

– Como não pode?

– Eu tenho que tomar conta da cortina do palco!

– Deixe a cortina comigo!

– E o que é que eu vou dizer?

– Pouca coisa. Você vai entrar em cena e vai dizer: “Eu sou o médico” e pronto! Não precisa dizer mais nada.

Meteram uma roupa branca no Mané Doido e ele ficou na coxia ansioso, aguardando a sua vez de pisar no palco. A peça teatral se desenrolando, a platéia muito atenta e, a todo instante, o Mané Doido perturbando o diretor:

– Entro em cena agora?

– Não! Agora, não!

Daí a pouco, olha ele de novo:

– É agora, Biu?

– Calma, rapaz!

Finalmente, chegou o momento tão esperado pelo Mané. Fonsêca deu a ordem. No meio do palco, dois atores: um fingindo-se de morto; ao seu lado, o outro fazendo o papel de filho do morto. Aí, entrou o Mané, que deveria dizer apenas “Eu sou o médico!” No que ele entrou, o ator que representava o filho, antecipou-se à fala do Mané:

– Ah, doutor, o senhor chegou tarde demais! O meu pai morreu!

Ah, pra quê! Mané Doido revoltou-se. Virou-se pro diretor, que permanecia no local mais discreto das coxias e mandou:

– Tá vendo, Biu? O homem morreu! De quem é a culpa? Eu bem que queria entrar antes, não queria?

Dito isto, virou-se para os atores e em seguida para a platéia e disparou:

– O culpado de tudo é o Biu!

 

 

Sem culpa

.

Meu colega de turma na Polícia Civil de Alagoas, o delegado de polícia civil Belmiro Calvalcante, o proverbial “Camburão”, sempre preferiu exercer seu mister no interior do estado. Já atuou na Capital, mas sua tara mesmo é a região Norte. Antes de fincar raízes por lá, rodou um bocado por esse mundão de Alagoas. Certa feita, quando destacava em Santana do Ipanema, um auxiliar chegou pra ele e avisou:

– Doutor, estão trazendo aí uma bicha muito descarada, que estava perturbando na praça da igreja!

No rastro da palavra do policial, eis que foi introduzido no gabinete do delegado um camarada magrinho, com a cara toda pintada de rouge e baton, metido numa saia curtinha, que deixava dois cambitos à mostra – eram as canelas.

Camburão olhou para a criatura e lascou lá

– Você de novo, porra? Não é possível! Já é a centésima vez que sou obrigado a ver você na minha frente!

O pirobo sentou-se, cruzou os cambitos e respondeu cheio de ousadia:

– Ué, doutorrr, e eu tenho curpa se os hôme num promove o sinhô pra capitá?

 

 

Tá perdoada!

 

Muito da fresca e safada, madame Antiógena resolveu dar uma festa para celebrar o noivado de sua filha Nivalda com o garotão Aristofânio. Escolheu como cenário o sítio que possui no Tabuleiro do Pinto, herdado do finado marido, que era um tremendo pilantra. No dia marcado, um sábado, havia no pedaço um magote de gente, mas a anfitriã só tinha olhos para o futuro sogro da filha, seu Ostílio Paracambu, também viúvo e explorador do jogo de bicho. Cadê que ela queria largar o coroa! Num dado momento, atacou:

– Vamos dar uma volta pelo sítio, enquanto é cedo?

E Ostílio, todo contente:

– E por que não?

– De charrete é mais romântico, você não acha? – entrou firme a viuvona.

– É, sim. Vamos lá!

Era finalzinho de tarde. Montaram na charrete e sairam driblando coqueiros, mangueiras, cajueiros, sapotizeiros… De repente, o cavalo soltou o maior “pum”. Aliás, foi um “vabei”!

Envergonhada, Antiógena desmanchou-se:

– Oooohhh… Desculpe. Eu realmente sinto muito.

Ostílio respondeu:

– Eita peidinho da bobônica da peste! Mas num tem pobrêma. Tendo sido disparado por você, tudo bem. Eu cheguei até pensar que tivesse sido o coitado do cavalo!

 

 

Lá, como cá!

 

     O negrinho de cabelo cheio de trancinhas, roupa colorida, mil rosários pendurados no pescoço e os braços infestados de fitinhas do Senhor do Bonfim entrou no restaurante do Ari Boca de Bigorna, localizado na parte lagunar do bairro periférico Levada, em Maceió, e foi logo dizendo pro garçom José Nelson, vulgo Olho de Jipe:

– Me vê aí o prato da casa, meu rei!

O garçom girou nos calcanhares, correu pra cozinha e, sem demora, voltou com o pedido. O inusitado freguês chamou o garfo pra frente, deu uma mastigada, cuspiu fora a comida e estrilou:

– Porra, meu rei! Abóbora! Na minha terra, Salvador, a gente dá abóbora para os porcos!

E o garçom, na batata:

– Aqui também!