Ailton Villanova

22 de julho de 2018

Solidariedade grandiosa

O finado repórter Ródio Nogueira foi um cara bastante sensível. Vez ou outra estava se derramando em lágrimas. Essa é uma qualidade de pessoas do bem. O colega não fogia à regra. Certa feita entrou no IML, para dar cumprimento à sua rotina diária de colheita de informações para o noticiário policial do Jornal de Alagoas, quando se deparou com uma cena comovente: desesperadíssima, uma madame chorava aos berros.

– Qual é o seu caso, minha senhora? – indagou o Ródio, já com lágrimas nos olhos.

E a chorosa madame:

– É o meu filho… O meu filho morreu! Buááááá…

– Morreu? Como?… Snif!

– Afogado! O coitadinho morreu afogado! Buáááá…

Ródio não conseguiu se segurar:

– Snif! Afogado? Doloroso, madame! Buáááá…

Aí, ele perdeu totalmente o controle e agarrou-se com a desesperada mãe. A choradeira aumentou de tom, a ponto de chamar a atenção até das pessoas que passavam na rua.

– Buáááá… Urghaaaaiiii!

– Snif! Buaaaaahhhaiiii!

Maior drama! O negócio ficou tão emocionante que o IML encheu de gente. Daí a pouco, uma fila enorme de populares e curiosos era formada diante do casal chorão.

Ródio era o mais consolado dos dois. Com certeza pelos seus cabelos brancos.

– Tenha calma, meu velhinho. A vida é assim mesmo! – disse um.

Chegou outro e apertou-lhe a mão:

– Meus pêsames, vovô! Segure firme! Fé em Deus!

Mais outro:

– Tenho muita pena do senhor… Cuidado com o coração. Nessa idade é perigoso emocionar-se desse jeito!

Em resumo: Ródio Nogueira deixou o IML desmaiadão, nos braços de uma multidão comovidíssima.

 

 

Dois de trinta

 

José Florisvaldo Ferreira, o folclórico Zé Flor, fez fama no Sertão das Alagoas. Era um homem decente, honesto, mas brabo virado no cão. Nunca perdeu uma eleição porque sempre foi homem de honrar a palavra. Analfabetão, mal sabia assinar o nome. Aliás, não assinava, desenhava.

Certa feita, estava despachando em seu gabinete com a secretária, que vinha a ser sua esposa, dona Carola, quando o tesoureiro da prefeitura, Anacleto Barros, entrou lá com uma papelada nas mãos:

– Cô licência, incelênça?

– Uquié qui tu qué, Nacréto?

O auxiliar explicou:

– Tem aqui uma conta de 60 mirréis do impeletêro do açude, quiéra mode pagá derna d’onte!

– Ôxi! E tu num pagô não, condenado?

– E o sinhô arturizô?

– Arturizei não, Nacréto? Entonce, agora tá arturizado!

Anacleto pegou papel e caneta e ficou parado diante do alcáide, que indagou

– Uquié qui tá ispiando, dizinfiliz? Fáis logo esse ricibo da bobônica!

O tesoureiro então falou, todo chateado:

– E cuma é qui s’iscreve 60? É cum “S” ou cum “C”?

E Zé Flor:

– Nesse causo tu fáis dois de trinta, narfabeto dos inferno!

 

 

Bebida provocante

 

Não se pode negar que o garçom Deraldo, do Bar do Duda, é gente boa. Do mesmo modo é justo reconhecer que, mais das vezes, é estouvado.

Dia desses, o bar entupido de clientes – maioria os de sempre. Todo mundo rangando ou biritando – mais da metade biritando – numa boa. E o Deraldo numa atividade febril. De repente, tropeçou num pé de mesa e deixou que o martini geladíssimo que carregava na bandeja derramasse nas costas de uma loura de fechar comércio.

– Oooohhhhh!

A gostosura levantou-se dando pulinhos, jogou o cabelo para trás, sacudiu os ombros arrepiados e gritou para o namorado, que, de boca aberta, espiava o saculejo dela:

– Vamos embora Edmilson! Vamos logo pro motel!

Na mesa ao lado havia um casal de veteranos. A madame chamou o e pediu, ansiosa:

–  Por favor, garçom, me traga com urgência, uma dose dupla da bebida que você serviu para aquela loura!

 

 

Riu e quase morreu!

 

Depois de ter apresentado mais uma edição do seu programa de televisão, o jornalista Jeferson Morais – que ainda atuava na TV Alagoas -, se preparava para deixar a emissora quando foi procurado por um certo Manuel Jorge, que caminhava com certa dificuldade e manifestava o desejo de lhe fazer uma denúncia.

Morais espantou-se quando reparou no estado do cara: hematoma pra tudo quanto era lado, um olho roxo, a cabeça rachada e a roupa toda rasgada e suja de barro.

– O que foi que houve com você, bicho? Foi assaltado? – perguntou Morais, bastante curioso.

– Não! – respondeu o infeliz.

– Andou brigando?

– Também não!

– Foi atropelado?

– Não!

– Ah, já sei! Levou um pau da polícia!

– Negativo.

– Então o que foi que houve com você, rapaz? Tá vindo de onde, esculhambado desse jeito?

– Tô vindo do cemitério!

– Do cemitério?! Quizeram lhe enterrar vivo, não foi?.

– Não foi bem assim. Minha sogra morreu e, então, fui pro enterro dela, no cemitério do Jaraguá. Até aí, tudo bem. Acontece que na hora em que ela estava sendo enterrada eu tive uma crise de riso e caí dentro da sepultura. Depois que me tiraram de dentro dela, todo mundo bateu eu mim. Inclusive minha própria mulher!

 

    Com Diego Villanova