Gerônimo Vicente

22 de julho de 2018

Para entender o Circo-Brasil do presente, leia livros do passado

“É pena que o Brasil ande se queimando em atitudes e gestos imprudentes que, por vezes, lembram subgerência norte-americana, por vezes até sub pentágono”.

Parece uma citação dos dias atuais em que este País se transformou em circo,  hospício, pandemônio ou coisas assim. Porém, a frase foi dita por dom Hélder Câmara, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil  (CNBB), entidade que criou e que está, extremamente, apagada nesses dois anos sombrios para o povo brasileiro. A entrevista foi dada ao genial Joel Silveira, jornalista que teve uma marca histórica na profissão: foi o primeiro correspondente de guerra brasileiro. Era um profissional que não se vendeu às elites que satirizava os ricos e poderosos e que  no livro as Grandes Reportagens de Joel Silveira colocou a igreja católica para discutir paz e justiça social, representada por dom Hélder Câmara, dom. Aloísio Lorscheider, dom. Evaristo Arns e  d. Ivo Lorscheider. Isto em 1980, plena era da ditadura militar que censurava qualquer expressão desses religiosos citados.

O Brasil-Hospício  a que assistimos hoje, fez-me  voltar-se para os livros antigos, editados nas décadas de 1970 e 1980. E neles encontrei, uma espécie de prova cabal do quanto regredimos 20, 30, 40 anos em dois, como cita a  própria marca da gestão que se alojou no Palácio do Planalto.

No livro de Joel Silveira, por exemplo, dom Helder Câmara analisa tão bem a conjuntura sócio-política econômica mundial diante da guerra fria que parece estar vivo e chega a prever a globalização do capitalismo ao citar que “Rússia e China eram a pior contrapropaganda para uma saída  socialista, uma vez que estavam comprometidas com as multinacionais e haviam acabado de se aliar ao Japão que, por sua vez era aliado dos Estados Unidos”. O religioso vaticina ainda sobre sobre a integração da América Latina, sem imperialismo vindo de fora, nem imperialismo de dentro. “Se os países da América Latina se integrassem como irmãos, sem lideranças de A, de B ou de C, teríamos não mais um bloco econômico, mas uma experiência nova, uma fórmula nova, a ser citada pela juventude do nosso continente com a abertura fraterna para a África  e para a Ásia”. Essa era a representatividade da CNBB nos anos de chumbo, muito diferente do que se vislumbra hoje, quando a igreja católica é orientada até mesmo a se aliar às mesmas elites que teimam em manter seus privilégios para ampliar, ainda mais, um fosso de desigualdade social entre a opulência e a miséria. Duvido que hoje tenha algum representante da sociedade civil organizada com um discurso tão autêntico, afinado e previsível quanto dom Hélder Câmara.

CNBB e OAB foram entidades de referência na década de 1980 na luta pelos direitos civis e humanos, quando a juventude brasileira lutava pela redemocratização do país. Hoje, ambas sumiram do mapa da defesa da justiça  e da paz social.

Agora leitor, imagine um patrocinador das manifestações verde-amarela contra Dilma, Lula em 2015 e 2016, visto por ele, como  líderes de governos comunistas, ter um dia, saído em defesa da “ ideologia vermelha”. Pois é!. Ler livros do passado no Brasil mostra, evidentemente, que os privilegiados se aproveitam da situação política quando essa lhes é favorável. Por exemplo, em uma releitura rápida do livro  Jornal Nacional – A Notícia faz história, de 2004 deparei-me, no prefácio intitulado “A Pura Verdade”, com uma citação de  João Roberto Marinho, presidente do Conselho Editorial das Organizações Globo sobre o pai Roberto Marinho, patriarca das empresas, “Desde o começo, meu pai buscou profissionais competentes não importando o matiz ideológico.Os comunistas de Roberto Marinho não são apenas parte do folclore político, mas  a prova de que, para meu pai importava a capacidade de trabalho do que as divergências de pensamento”.

Parece não ser nos dias atuais preservada essa corrente de pensamento dentro das organizações dos Marinho pelo número de colunistas amestrados pelo segmento político-econômico que defendem a produção e ajuda a massacrar os desfavorecidos.

Como também não é “Pura Verdade” uma outra declaração  de João Marinho que fecha o prefácio do livro e que afirma: “Quando o leitor virar a última  página, esperamos que ele tenha a mesma certeza diária que tem ao terminar de assistir ao Jornal Nacional: a de que o que acabou de ler, goste-se ou não é pura verdade”.

Nos últimos dois anos, as correções forçadas por pressão dos telespectadores no JN passaram dos limites normais. Basta acessar os links abaixos e vê para crer.

JN corrige informação sobre cineasta e produtora Prole

 

Jornal Nacional corrige informação sobre Guilherme Estrella

 

            JN SE CORRIGE E NEGA CONTAS DE LULA E DILMA NO EXTERIOR

             Pois então, para entender o Circo-Brasil de hoje, basta abrir os livros do passado.