Ailton Villanova

5 de julho de 2018

Manchete preconceituosa

Contam que num domingo festivo de bate-bola, dois garotos tinham acabado de sair do estádio do Morumbi, em São Paulo, quando um deles foi atacado por um feroz rottweiler. O colega do garoto, num excepcional lance de coragem, utilizou-se de um grosso pau de bandeira que havia sido largado na rua, e aplicou violenta porrada na cabeça do cachorrão que, meio tonto, largou a vítima. O heróico rapazinho foi em frente repetindo as cacetadas no cão, que morreu alí mesmo. Enquanto isso, o amiguinho do corajoso garoto era levado para ser medicado no hospital mais próximo, com algumas escoriações. Ao ver a cena, o repórter de um certo jornal sensacionalista paulistano que passava de carro, parou o referido e dirigiu-se ao menino-herói:

– Parabéns, garoto! Isso merece uma manchete sensacional. Manja só nas letras garrafais, logo na primeira página: “Jovem torcedor são-paulino salva amigo de animal feroz”.

– Mas eu não sou são-paulino. – retrucou o garoto.

O repórter não se abalou:

– Ah, bom, desculpe. Achei que fosse, já que estamos na saída do Morumbi e você está tão feliz…

– Eu, feliz?

– Nesse caso trocarei a manchete: “Bravo garoto palmeirense evita tragédia com amigo”. Tá bom assim?

– Tá não.

– Como não está?

– É que eu não sou palmeirense.

– Mas, afinal, pra que time você torce?

Os olhos do garoto brilharam:

– Eu sou corintiano!

– Corintiano, hein? Tá bom. Então, a manchete vai ser a seguinte: “Delinquente corintiano assassina brutalmente adorável animal doméstico”.

 

 

Uma tarefa impossível

 

Torcedor fanático da seleção brasileira de futebol, Ediborde Pinto  voltava, a pé, de uma farra, depois daquele primeiro sofrido jogo da canarinha na Copa da Rússia. De repente, tropeçou numa garrafa. Pensando que nela havia uísque ou coisa parecida, começou a esfregá-la para tirar a poeira. Mas a garrafa era mágica e de dentro dela saltou um gênio negrão, que lhe concedeu um único pedido.

Atônito, Ediborde pediu:

– Olha, gênio, eu quero que você me traga de volta um grande amigo que perdi há vinte anos…

– Vinte anos, cara??? Impossível!!! O máximo que o meu poder pode alcançar são dez anos, no limite. Lamento, mas faça outro pedido.

– Quero, então, que a Seleção do Tite seja campeã do mundo.

O gênio parou alguns segundos, coçou a cabeça, torceu o nariz, pensou, pensou e perguntou:

– Bem… como é mesmo o nome do seu amigo?

 

 

Quem vê bunda…

 

Praia da Pajuçara, domingo ensolarado, mil mulheres gostosas no pedaço. Numa mesa de um daqueles bares que enfeitam a orla, os amigos Laurindo e Aborinaldo, dois bons apreciadores de bumbuns, praticavam seu ofício.

Em dado momento, vai passando uma morena de biquini azul e aí o Laurindo aproveita para perguntar ao Aborinaldo, que também tem a fama de ser pragmático:

– Que nota você dá para essa daí, amigão?

E ele:

– Nota três. Bunda malfeita, poucas carnes, uma tábua. Péssima mulher. Reprovada!

Laurindo contemporizou, cheio de romantismo:

– Calma aí, meu! Afinal de contas, quem vê bunda não vê coração!

 

 

Mas que livro invocado!

 

Cego de nascença, muito culto, inteligentíssimo, Verinaldo conseguiu, depois de muita luta, uma nova faxineira. Só que, antes de sair para o trabalho, esqueceu de ensiná-la onde guardar os objetos de sua casa. Ocorre que, sem querer, ela colocou o ralador de queijo em cima da pilha de livros em braile.

Ao voltar do trabalho, depois de ter jantado com amigos na rua, Verinaldo procurou um livro para ler, conforme sempre fazia, antes de deitar para dormir. Aí, pegou no ralador no ralador de queijo e levou o maior susto:

– Putaquipariu! Que livro violento!

 

 

Casamento celestial

 

Os noivos estavam a caminho da igreja quando ocorreu a tragédia: morreram num acidente de automóvel. Do local do sinistro, subiram para o céu. Chegando lá, a noiva foi logo protestando:

– Puxa, São Pedro! Logo hoje que a gente ia casar, aconteceu uma coisa dessas!

São Pedro retrucou:

– Assim é a vida, digo, a morte, minha filha.

– Mas será que não dá para o senhor quebrar o nosso galho e nos casar aqui no céu? – perguntou o noivo.

E São Pedro:

– Espere aí, deixa eu ver o que posso fazer.

Dito isto, o guardião celestial deu meia-volta e sumiu atrás da primeira porta. Duas horas depois voltou trazendo um padre à tiracolo.

– Pronto, meus jovens! Eu trouxe o padre para celebrar o matrimônio de vocês. Mas tem uma condição!

– Que condição, São Pedro? – indagou a noiva, curiosa.

– Aqui não tem divórcio! O casamento de vocês vai ter de ser para toda a eternidade!

– Puxa, São Pedro! Toda a eternidade é muito tempo! – reclamou o noivo.

A noiva tomou a palavra e emendou:

– E se nosso casamento não der certo?

São Pedro deu de ombros:

– Azar de vocês! Para achar um padre aqui já foi um custo, imagina um advogado!

 

Com Diego Villanova