Ailton Villanova

3 de julho de 2018

O Grande Culpado

A partir de determinada etapa de sua vida (a da adolescência), o grande sonho do Abelardo de Lima, o popularíssimo “Catenga Doida”, passou a ser ator de teatro. Culpa do professor Benedito Fonsêca (que à época não era o famoso e competente maestro de corais de hoje em dia), que botou a idéia na cabeça do cara. Fonsêca, ex-seminarista arquidiocesano, era apenas um esforçado diretor de teatro amador na Escola São José, do Bom Parto.

Tínhamos, no bairro fabril dos tempos dourados, um bom número de garotos entusiasmados, inclusive eu, com a perspectiva de um dia brilhar nas ribaltas… Por iniciativa do Biu Fonsêca instalou-se alí a Escola Teatral “Três Moedas de Ouro”, título inusitado para o qual o diretor jamais teve uma explicação. Algumas peças foram encenadas com relativo sucesso, maioria abordando temas religiosos. Um dia, porém, Fonsêca reuniu a turma e anunciou:

– Vamos arrasar com um novo drama! Trata-se de “A Carteira Fatal”!.

A galera vibrou com a idéia e o Abelardo Catenga Doida, que insistia em ter um papel mais destacado que o de simples contra-regra no grupo teatral, viu aí a grande oportunidade de sobressair-se como ator:

– Ô Biu, dessa vez você vai me dar um bom papel, não vai?

– Vou arrumar um na medida pra você. – prometeu o diretor.

Abelardo ganhou uma pontinha na peça. Fonsêca entregou-lhe o “script” com a sua fala – na verdade uma única fala -, que seria dita no final do último ato, e se resumia no seguinte: “Aqui estou, minha senhora!” Somente isso.

A partir de quando recebeu o texto, o jovem aspirante a ator teatral dedicou todo o seu tempo estudando o papel, testando inflexões, exercitando a colocação de voz, ensaiando a marcação. “Minha estréia no palco vai ser um estouro!”, garantia para os amigos, cheio de entusiasmo.

Cinco meses depois de ensaios topados, eis que chegou o dia da estréia no teatro da Escola São José, que era mantido pela paróquia de Nossa Senhora do Bom Parto e incentivado pelo pároco, , nopado. Era motivo de orgulho e entusiasmo dos moradores do bairro.

A peça se desenrolando na caixa cênica, lances dramáticos, tensão na platéia. Na coxia, o Abelardo, devidamente caracterizado, a todo instante consultava o diretor:

– É agora que eu entro em cena, Biu?

E o Fonsêca, cheio de paciência:

– Calma, rapaz! Agora não! Você vai entrar em cena na conformidade do que foi ensaiado. Antes disso, nada!

Dois minutos depois, atores esbanjando categoria no palco, e o Abelardo, ansioso, nervoso, agoniado, tirando a concentração do diretor:

– Entro agora?

– Não!

Daí a pouco:

– Como é, Biu? Entro ou não entro?

Em resumo, no finalzinho do último ato (que era quinto), um ator caracterizado de bandido entra na ribalta assassina o dono da mansão onde se desenrolava a cena mais dramática de todas as outras. Cometido o delito, o ator-bandido foge em seguida. A atriz que representava o papel de esposa da vítima, entra em desespero e grita por socorro. Na coxia, o diretor pegou o Abelardo pelo braço e disse:

– É agora! Vai! Entre em cena e capriche no papel!

Pulando na ponta dos pés, Abelardo invadiu o palco e se preparou para dizer a única frase que lhe cabia, e que fôra exaustivamente ensaiada:

– “Aqui estou, minha senhora!”

E a atriz, aos prantos, contracenando de acordo com o têxto:

– Oh, mancebo! Chegaste tarde! Mataram o teu patrão!

Aí, o Abelardo, que deveria permanecer calado, tristonho e de cabeça baixa, rebateu, acrescentando a seguinte fala, fora do “script”:

– Eu bem que poderia ter evitado essa tragédia, minha senhora. Faz um tempão que eu estava, lá dentro, pedindo ao Biu Fonsêca para entrar em cena. Só agora ele deixou. Se mataram o seu marido, a culpa é todinha dele!

O drama virou comédia.

 

 

O pintor confundiu tudo!

 

Querendo economizar uma grana para gastar nos festejos juninos, o amigão Itamar Vieira Barbosa dava uma de pintor, em casa. De modo que se achava trepado numa escada mandando o pincel pra frente, na varanda, quando um sujeito o chamou:

– Bom dia, patrão. Tá precisando de ajuda? Estou desempregado, necessitando de grana, e bem que poderia dar uma de auxiliar pro senhor…

Já cansado daquele trabalho, o Itamar acatou a proposta do cara:

– Tá bom. Pode vir me ajudar. As paredes eu estou acabando de pintar… Eu tenho um antigo FOGÃO na garagem, que precisa de pintura. Pegue um pincel e essa lata de tinta, que está aqui ao lado, vá lá e pinte o FOGÃO.

Mais tarde o cara voltou ao Itamar:

– Terminei, meu patrão. Mas não era um FURGÃO. Era uma ECO SPORT nova, não era?

Itamar sofreu um infarto.

 

 

Chicão, o comilão

 

Chico França, o Chicão supera o diretor gráfico Miguel Pierri, em termos de comilança. Pro leitor ter uma idéia, o cafezinho da manhã do cara resume-se no seguinte: 5 bules de café, 3 litros de leite, 3 dúzias de ovos, 40 pães variados e 4 cuscús daqueles parrudos. A sobremesa é uma jaca mole, acompanhada de 2 litros de água gelada.

Domingo desses, Chicão compareceu a uma festa de aniversário na casa de um amigo, no bairro Salvador Lyra. Sabedor de que ele é muito bom de boca, o anfitrião reservou-lhe com exclusividade um leitãozinho a pururuca de 8 quilos. Chico Franca devorou o bacurinho num abrir e fechar de olhos. Mas ficou passando mal porque, antes, havia comido meia dúzia de galetos na casa de uma tia, moradora da Pitaguinha. O corre-corre foi grande!

Empanzinado, o comilão gemia de dar dó. Aí, a esposa do dono da casa correu pro fogão e, mais que depressa, preparou-lhe um chazinho de ervas:

– Tome, seu Chico. Beba! É bom pra digestão.

E ele, gemendo:

– Ôi! Ôi! Ôi!

– Beba, que o senhor vai ficar bom.

Chico França começou a beber o chá, que lhe fora servido numa caneca de meio litro. Depois dos primeiros goles, ele faz uma pausa, olhou para a madame e perguntou:

– Por acaso a senhora não teria aí um pãozinho… uma bolachinha?

 

Com Diego Villanova