Gerônimo Vicente

24 de junho de 2018

A história do fim do jornalismo impresso que ganha outro rumo

O futuro dos jornais impressos no mundo, por uma vez ou outra, é objeto de discussão  nas universidades, nos meios empresariais da comunicação e entre os jornalistas. O debate surgiu  assim que a internet se popularizou como produto da globalização tão propalada no início dos anos de 1990. De lá para cá, as previsões não têm sido animadoras para os conglomerados de indústrias gráficas do planeta, que viram  no termo “sustentabilidade”, a palavra que vai de encontro aos seus interesses devido ao uso excessivo de papel, extraído de milhares de milhões de árvores em todos os continentes. A apresentação do tablet por Steve Jobs, por volta do início dos anos 2000, parecia ser a abertura das sepulturas dos diários, magazines e  revistas especializadas. Afinal de contas, tudo passaria e ser lido por meio de um microcomputador de mão, que anos depois passou a ser mais micro ainda com o surgimento dos smartphone. E de fato, a previsão foi cumprida: na atualidade, os jornais impressos têm leitores cuja idade mínima é de 40 anos; jovens ignoram a mídia impressa, sequer usam o computador de mesa, a não ser para trabalhos escolares e preferem o telefone para ler e  resolver casos do cotidiano. Nos Estados Unidos, 45% dos adultos já imitam os filhos no uso da tecnologia móvel. Para completar o mau vaticínio, uma pesquisa do New York Times anunciou que a sobrevida dos jornais impressos seria de apenas dez anos.

Porém, uma mega-negociação  ocorrida na semana passada nos Estados Unidos visa prolongar e, quem sabe, eternizar  a vida da imprensa impressa (vai no pleonasmo para que se entenda melhor).E quais são os motivos  dessa nova previsão futurista sobre a mídia de papel? Eu mesmo respondo, passo a omitir opinião e contar a notícia que li, no dia 16 de junho, no jornal Los Angeles Times, da Califórnia, que sempre acompanho nos finais de semana com a curiosidade de saber  qual é mesmo, a diferença do nosso combalido Brasil com a terra de Tio Sam, como propala tanto a classe média alta brasileira.

Vários são os fatores que estão por trás da “ressurreição”  dos jornais impressos nos Estados Unidos. Em primeiro lugar cito, a tradição histórica: a imprensa norte-americana comercial foi criada por Benjamin Franklin em 1729, com  o Pennsylvania Gazette,, primeiro jornal a se manter com renda publicitária e produzido ainda  com os Estados Unidos na condição de colônia britânica, ou seja uma tradição de quase 300 anos. Para reforçar melhor a história, George Washington, primeiro presidente norte-americano foi um dos editores de jornais de conteúdo provocativo  aos ingleses e propagar a independência americana. A maioria dos jornais impressos daquele país já passou dos cem anos. O segundo ponto, há interesses econômicos por trás. O papel comprado para impressão dos jornais norte-americano vem do Canadá  (país vizinho que importa maior parte da matéria-prima) ou da Austrália. Por isso, os periódicos impressos mais importantes ainda estão no norte do país. O corte de papel no tamanho do periódico resultou na demissão de milhões de funcionários canadenses e estadunidenses, porque as indústrias gráficas dos jornais fecharam as portas. O terceiro fator  para revitalização da mídia impressa são investimentos feitos pelos chamados bio-empresários asiáticos e africanos na América, na busca de ampliar suas receitas de capitais por meios da utilização de pesquisas tecnológicas na área de ciências naturais.

Altas transações

Neste ponto, passo a contar sobre a megaoperação comercial citada no segundo parágrafo deste texto e que  envolve o centenário Los Angeles Times (135 anos)  e o mega bio-empresário Patrick Soon-Siong, um sul-africano, ex-cirurgião da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) que detém indústrias farmacêuticas nos principais países ocidentais. O  bilionário da biotecnologia assumiu o controle do Los Angeles e do San Diego Union Tribune por US$ 500 milhões. Soong tem um fortuna estimada em US$ 7,5 bilhões construída a partir da venda de duas empresas biofarmacêuticas. Sua missão agora é personalizar o tratamento de câncer e desenvolver vacinas para doenças mortais, num importante papel social do empresário.

Nova sede do Los Angeles Times

  O Los Angeles Times estava por 18 anos sob o controle de um grupo de Chicago no norte dos EUA e passava por uma crise que comprometeu  até o arrendamento de papel que se expira em 30 de junho deste ano. Patrick e a esposa Michele gastaram milhões de dólares preparando uma redação para o século 21 que faça valer a guerra por conteúdo jornalístico, em meio à gravitação dos anunciantes para o Google e o Facebook. Uma frase resume o interesse de Soon, dita pelo consultor dele, Frank Lutz: “A palavra impressa está no suporte da vida, mas o médico está dentro”.

Para se ter uma idéia do que era o Los Angeles Times, o jornal californiano possuía 1200 jornalistas e mais de 25 escritórios estrangeiros, incluindo Viena, Nairobi, Seul e Saigon. Hoje tem 400 profissionais. A compra por Patrick Soon-Siong salvou  a indústria de papel de cortes mais acentuados. Para assumir o negócio o empresário fez um curso intensivo de jornalismo para conhecer a profissão e o mercado. Ao fechar o contrato, Siong fez outra declaração promissora: “Também passei muito tempo tentando entender qual é a próxima evolução de nossos trabalhos para sobreviver, mas a sobrevivência não é a motivação que temos. É realmente prosperar”, declarou.

A história é longa, porém fácil de resumir, a partir de uma pergunta: como pretende Siong reavivar o jornal impresso, se há uma fuga de dólares em publicidade para a internet, onde estão o maior número de leitores?

A aposta do megaempresário está no conteúdo investigativo do jornalismo  impresso, comparado à avalanche de subscrição de sites para os usuários de internet a partir de uma questão feita aos entretenimentos digitais: ”vocês  têm dado uma razão aos leitores para a compra de uma assinatura digital”?.

Como todos sabem na atualidade, a ânsia de  produzir notícias em primeira mão resulta em malefícios para a qualidade do jornalismo mundial e, especificamente o brasileiro envolto à uma crise de identidade político-profissional. Esse comportamento é o principal gerador dos fakes news, sensacionalismo e da famosa “barrigada” (notícias sem apuração adequada), o que começa a levar descrédito de conteúdo aos internautas.

Para consultores de Patrick Siong-Soong ainda há um público, independentemente de idade, que se  interessa pela notícia de fato e, nesse aspecto, o bilionário da tecnologia pretende fazer a diferença com seus jornais impressos. Ele visa melhorar a tecnologia do papel, para ajudar a entregar notícias de forma transparente e em diferentes plataformas de publicação para alcançar novos leitores. Intenciona ainda,  transformar o Los Angeles Times em um recurso para a comunidade com a realização de eventos públicos, fóruns educacionais e fortes investimentos nas coberturas de saúde, tecnologia, ciências e entretenimento, iniciativas que podem contrapor aos vídeos de longas  e podcasts de longa duração dos portais que, segundo prevê Siong perderão força junto aos internautas.

Enfim, parece ser um projeto da indústria da biotecnologia para salvar o papel e sua história no mundo a partir da simples compra de um jornal falido e que poderá  se tornar mais longeva a mídia impressa.

E aí!, na sua opinião quando será mesmo o dia que o jornal impresso acaba?