Ailton Villanova

23 de junho de 2018

Amnésia junina

Os festejos juninos Carnaval para o Eudegásio Fragoso é a glória. De modo que, todos os anos, assim que termina o Carnaval, ele se dedica ao treinamento dos arrasta-pés e balanceados de forrós e xaxados para por em prática durante os dias e noites dedicados às festanças de São João e São Pedro. Hoje, então, a palha irá voar adoidado. Sua esposa, dona Audísia, conformou-se com a situação desde o primeiro ano de casamento, e assim permanece nos mais de quarenta anos de vida em comum com o indigitado.

Logo no 1º. de junho Eudegásio recebe o “habeas corpus” domiciliar da cara-metade e se manda pra tudo quanto é forró em cima deste mundo. Só volta pra casa quando terminam os folguedos juninos, se possível sóbrio.

No ano passado, Eudergásio exagerou. Dada a enorme quantidade de álcool que consumiu durante as festas populares de Santo Antônio, São João e São Pedro, seu juízo entortou e ele ficou perdidão. Fora de prumo, ele foi visto na manhã do dia seguinte ao dedicado a São Pedro enfiando o dedo no interruptor da campainha de certa residência, no bairro do Prado.

Com a maior cara de abuso, uma madame atendeu:

– O que é que o senhor deseja meu senhor?

E o Eudegásio, mal conseguindo enxergar a cara da mulher:

– O seu marido tá aí?

– Está. Quer falar com ele?

– Não, senhora. Obrigado.

Eudegásio bateu noutra porta, a dona da casa atendeu e ele:

– Bom dia, minha gentil madame. O seu marido está…?

– Está dormindo. O que é que senhor quer com ele?

– Nada não. Era só pra constatar. Obrigado.

E noutra casa mais:

– Cadê o seu marido, minha senhora?

– Acabou de acordar. Espere aí que eu vou chama-lo.

– Precisa não. Tá tudo okêy. Brigadinho.

Na décima casa, quando o Eudegásio perguntou pelo dono, a mulher respondeu, com cara de poucos amigos:

– Ele não está. Mas deve estar chegando.

Aí, Eudegásio fez o apelo:

– Então me faça um favor, dona… Olhe aqui pra fora e veja se sou eu!

 

Cachaça braba

Na zona rural de Palmeira dos Índios o carnaval só faz sentido quando é comemorado com uma boa cachaça. Estão aí, vivinhos, seu Zé Eurico e o seu compadre Lula de Tilião pra não me deixar mentir.

Num domingo carnavalesco eles dois desciam a Rua de Baixo, quando avistaram dona Quininha em prantos na porta de casa. Apressaram-se em ajudá-la:

– Quê que aconteceu, dona Quininha? – indagou Lula de Tilião.

E ela:

– É o Severino, venham ver!

Entraram na sala e lá estava o Severino em pleno ataque de “delirium-tremens”, enfiando o dedo num buraco do sofá e falando:

– Segura firme no meu dedo, Ivete.

Os compadres Zé Eurico e Lula resolveram falar com Severino:

– Quê que tu fazendo, Severino?

– Ô  Zé Eurico me ajuda aqui. É a Ivete, minha noiva, que tá pequenininha assim – mostrou o polegar e o indicador – caiu aqui neste buraco do sofá. O diabo e que num consigo tirá-la daqui!

Os compadres olharam um para o outro e Zé Eurico correu até a farmácia, de lá retornando com uma injeção já engatilhada. Aplicou na veia do Severino e ele dormiu na hora.

– Pode ficar sossegada, dona Quininha, que quando o Severino acordar já vai estar bem.

Saíram da casa de dona Quininha, entraram na venda ao lado e pediram:

– Ô Felisberto, botaí duas daquela que deixou a Ivete desse tamanhinho!

 

Virou assombração

João Aureliano foi namorado de Maria Eunice, nos tempos de grupo escolar. Gostavam-se muito, mas mesmo assim um dia brigaram e brigaram feio. Tempos depois, João Aureliano casou-se com outra e Eunice ficou solteira para sempre.

Citando o ditado que “tatu esperto não esquece buraco antigo”, muita gente insistia que o romance entre os dois continuava secretamente, embora João Aureliano permanecesse em seu casamento sólido. Nunca ninguém conseguia provar nada, mas as fofocas continuavam.

Passados alguns anos, o comerciante Gabriel Xavier comprou um bar cujos fundos faziam divisa com a horta da casa de Eunice. E esse bar passou a ser o mais frequentado pela mocidade, pois além da boa qualidade da comida e da bebida do Bar da Toca, lá se podia dançar até de madrugada.

Num determinado sábado, o bar estava cheio as mesas todas ocupadas e muita gente “ralando o bucho”. Lá pelas onze e meia da noite, Gabriel Xavier chamou o empregado Zezito, um negrinho do cabelo espichado, entregou-lhe uma vasilha e disse:

– Acabou o limão e tem muita gente querendo caipirinha. Lá no fundo da horta, perto da divisa da cerca com a Eunice, tem um limoeiro. Traga umas duas dúzias de limão.

Negrinho Zezito foi. Minutos depois voltou correndo, entrando pálido – quase branco – pelos fundos do bar, com a vasilha sem nenhum limão, ofegante e assustado, gaguejando sem parar. Todo mundo olhou pra ele e, preocupado, o patrão foi ao seu encontro:

– Quê que foi, Zezito? Quê que aconteceu?

Enfim,  Zezito sem entender de nada, acabou provocando uma festa, confirmando o que muita gente queria saber, ao responder pra todo mundo escutar:

– Virge Maria, seu Gabrié! Tem uma assombração im riba da cêuca de dona Eunice, que é a cara escritinha de seu João Leriano!

 

Com Diego Villanova