Ailton Villanova

21 de junho de 2018

Uma mula muito veloz

Na barbearia de seu João Bernardo, lá na Viçosa das Alagoas, enquanto ele caprichava na barba do freguês Tonho de Timóteo um grupo de frequentadores do salão comentava os últimos acontecimentos. Um cavaleiro parou na porta e João Bernardo gritou pra ele:

– Apeia, compadre.

– Tem muita gente na frente? – perguntou o cavaleiro.

– Tem não. Depois do Tonho aqui, só tem o Zé André, que vai cortar o cabelo.

– Então vou deixar o cavalo no curral e já venho. Guarde o meu lugar.

Enquanto o cavaleiro se dirigia ao curral, ao lado da barbearia, os comentários passaram a ser sobre o seu cavalo, que era muito bonito. O freguês Zé André resolveu entrar na conversa:

– É um cavalo muito bom, mas não se compara com a mula que eu tinha quando era solteiro. Era forte e boa de corrida.

Como Zé André tinha sempre uma boa história pra contar, os outros deram trela:

– Não sabia que você já teve mula, Zé.

– Só tive essa, depois desiludi.

– Por quê?

– Bom, o negócio foi assim: um dia eu tava pra lá de Curralinho e vinha vindo pra cá, eram umas nove horas da manhã. De repentemente, começou a ameaçar chuva. Olhei pra trás e já tava chovendo, daquelas chuvas que vem vindo, num sabe?

– Praquelas bandas de Curralinho gosta de chover muito…

– Pois é, eu resolvi que aquela chuvinha safada não ia me pegar e passei a espora na mula. Ela correndo e a chuva atrás. A coitada correu tanto que a chuva não alcançou a gente. Só conseguiu molhar o rabo da mula.

Enquanto o pessoal continha o riso, em silêncio, Zé André continuou:

– Parou de chover e eu não me molhei nem um tiquinho. Aí, pensei: “Vou chegar em Viçosa dentro de uns quinze minutos!” Continuei passando a espora na mula, mantendo o mesmo galope. Quando o relógio da igreja batia meio-dia, eu tava entrando na cidade, com a mula galopando. Cheguei na porta de casa, puxei a rédea pra parar a mula e ela caiu. Corri num veterinário, o doutor Erivaldo, que morava ali perto, ele veio, examinou a bicha espichada no chão e falou meio triste: “Zé André, essa mula morreu há mais de meia hora, só que no embalo que ela vinha, não deu pra parar”.

 

O cavalo medroso do Damião

Criador de animais em Maribondo, Damião Norberto tinha na sua fazenda um cavalo chamado Didi, que era muito bom de montada, mas tinha uma coisa com ele: não podia ver caminhão na sua frente, que empacava. Tinha um medo filho da égua de caminhão.

Numa viagem à cidade vizinha de Tanque D’Arca, Damião ia tranquilo, montado no Didi, mas por uma estrada de barro, já que o cavalo morria de medo de auto-carga, conforme já expliquei linhas acima. Numa certa altura, o diabo do cavalo empacou. Damião correu a espora na sua virilha e nada, o animal não saía do lugar. Aí, Damião se arretou:

– Ô cavalo fidapeste! Você só para quando vê caminhão e não tem nenhum caminhão por aqui! Vamos, lá! – e tome espora.

O Didi bufava, espumava e sapateava, com as orelhas retesadas.

Então, Damião desceu para ver o que estava acontecendo. Conta ele:

– Desci do lombo do bicho, andei um pouco pelo caminho e vi um pedaço de jornal velho lá na frente. Peguei o jornal e descobri o que era: o danado do cavalo tinha visto lá de longe – eita vista da bubônica! – uma fotografia de caminhão no jornal!  Ele só atravessou aquele pedaço depois que eu tirei o isqueiro do bolso e queimei o infeliz do jornal!

 

 O consolo das meninas

       O vetusto Otoniel Teobaldo estava muito feliz no dia em que estava completando 100 anos. Logo cedo, suas duas filhas caçulas, Hermengarda e Eponina, de 68 e 66 anos, respectivamente, lhe fizeram a maior festa. Ele até comentou com elas:

– Meninas, a idade tá chegando; tá na hora de vocês pensarem em arranjarem um bom garoto… eu não vou viver muito tempo. Vocês precisam casar!

Dona Hipotenusa, sua mulher, discordou:

– Mas o que é isso, meu velho? Você ainda está muito novo! Mas, se por acaso você morrer, eu cuido das crianças!

Tudo era festa na residência de seu Otoniel. À tarde, dona Hipotenusa foi ao quintal apanhar umas flores para enfeitar a mesa que estava sendo preparada para o jantar festivo, e viu um “maranhão” – aquela réplica de pênis de borracha também conhecido como “consolo de viúva” – coisa desconhecida para ela. De modo que, curiosa, levou o estranho objeto para o marido ver. Ele não se impressionou. Pegou, deu uma balançada, jogou-o num canto da sala e falou pra mulher:

– Ô Hipotenusa… tu tá muito véia pra brincar com essas coisas. Isso é brinquedo das meninas.

 

Com Diego Villanova