Ailton Villanova

19 de junho de 2018

O resultado da bebedeira

Bem diz o velho ditado que “a cachaça ainda mata um peste”.

No caso do Austerlíbio Muritiba a caçhaça não chegou a tanto, mas o deixou aleijado.

Bastante chegado a uns grogues de água que pinto não bebe, o decente aí exagerou no consumo de álcool, numa agitada tarde junina. Multidão na maior folia forrozística na Praça Moleque Namorador e o Austerlíbio trepado num poste de iluminação pública, proferindo “vivas” e mais “vivas” à Santo Antônio, São João e São Pedro. No meio da multidão que dançava uma quadrilha animadíssima no meio da praça,  dona  Matilde, sua esposa, gritava pra ele, preocupadíssima:

– Desce desse poste, homem de Deus! Você faz um “arte”!

E ele, cai mas não cai:

– Viva São João!

– Desce já daí! – era a mulher insistindo – Se você despencar dessa altura não vai ficar com nenhum osso inteiro!

– E eu com isso? De quem é o osso? Não é meu? Então, pronto! Só desço daqui amanhã!

De repente, o trio de músicas juninas parou de tocar e os dançarinos passaram a se ligar no Austerlíbio. A atração do dos folguedos juninos na Moleque Namorador passou a ser ele.

O leitor sabe como é o povo: gosta muito de ver a miséria alheia. Num instantinho se formaram duas torcidas: uma do “pró”, outra do “contra”. A do “pró”, era constituída de colegas de copo do Austerlíbio, ao passo que a do “contra”, é evidente, apoiava a mulher do indigitado.

– Fica aí em cima, companheiro! Não desce! – gritou o líder do grupo que o apoiava.

– Desce! Quer quebrar o pescoço, seu irresponsável? – rebateu uma madame, solidarizando-se com dona Matilde.

– Tu é o nosso herói, cara! – rebateu aquele “a favor”.

Nesse ponto a praça havia mergulhado no mais profundo silêncio. Maior tensão. Em dado momento, o Austerlíbio surpreendeu:

– Atenção gentesss! Eu vou pularrr!

– Pula! Pula! Pula!

– Não pule! Não pule! Não pule!

Austerlíbio pulou. Depois que estatelou-se no chão, não ficou com um só osso inteiro no corpo. Até a lingua ele quebrou!

 

Brincadeirinha trágica

 

O boteco “Costela de Porco”, situado na Levada, estava abarrotado de pinguços. Era o último dia de carnaval e o folião mais notório da região, o Biu Jurubeba, prá lá de biritado, tinha acabado de ingressar no festivo ambiente.

– Eu hoje quero ver todo mundo de pileque! – gritou ele – Pago todas!

Biu Jurubeba não devia ter falado o que falou. Mas como boca de bêbado não tem controle, a desse camarada não poderia fugir à regra. O certo é que a pinguçada adorou o anúncio e entrou de sola, isto é, entrou de boca na cana.

Entre os bocas-de-ponche presentes encontrava-se o tal de Lula “Merdinha”, sujeito metido a sebo, que pegou o Jurubeba pelo braço e disse:

– Eu só tomo uísque. O amigo paga uísque também?

E o Jurubeba:

– Eu não falei que pago todas? Eu pago uísque, champanhe, cerveja, conhaque… Beba o que quiser, que não tem bronca.

Num instantinho o estoque alcoolífero do boteco foi consumido. Não chegou às 6 da tarde. De modo que foi com bastante pesar que o proprietário da casa, o Miguel Boca de Sandália, anunciou para todos:

– Amigos, a bebida acabou!

– O quê? Que bar fuleiro é esse que não tem bebida para atender suficientemente a freguesia? – reclamou o Lula Merdinha.

– Acabou e pronto! Qualé o problema? – retrucou Boca de Sandália.

Lula Merdinha resolveu agitar a galera:

– Atenção amigos! Ninguém sai daqui enquanto não aparecer mais bebida!

E todo mundo:

– Falou!

– É isso aí!

– ‘Tamos nessa!

Foi então que o dono do boteco se virou pro Biu Jurubeba e disse:

– Tá vendo o que você arrumou? O culpado dessa situação é você!

– Eeeeuuu?

– Você, sim. Quem mandou inventar de pagar bebida pra todo mundo? Os cafagestes beberam tudo! Até um litro de gasolina que eu tinha guardado na despensa, eles beberam!

– Mas eu só estava tirando uma onda, rapaz! Você não sabe que eu gosto muito de brincar? Não vou pagar bebida pra corno nenhum!

– Vai não?

– De jeito nenhum! Não vou pagar nem o que bebi, tá bom?

– E eu vou ficar no prejuízo,é?

– Problema seu.

A discussão terminou em tragédia. O dono do bar, o Miguel Boca de Sandália deu garra de um martelo que havia sobre o balcão e com ele aplicou meia dúzia de porretadas na cabeça do  Biu Jurubeba. Foi pedaço de juízo pra todo lado.

 

 

 

Não era pra enfiar?

 

Véspera de São João. Tranquilo no seu canto, o Duda “Pimpão” bebia a sua cerveja com tiragosto de pata de siri, no Bar do Sandoval, situado na Jatiúca. Lá fora, a fogueira estava com as labaredas nas alturas celestiais. De repente, baixou no recinto o desocupado conhecido pelo vulgo de Corcorán, que tentou pegar um “bigu” na bebida do Pimpão.

– Calorzão lascado, né? – puxou papo.

– Huuumm huumm… – resmungou o Pimpão.

– Tá geladinha, a cerveja? – insistiu o cara.

– Hum hum…

– Pra matar esse calor só mesmo uma cervejinha gelada, é ou não é?

– Hum hum…

– O amigo é mudo?

Duda Pimpão perdeu a paciência:

– Não, porra!

– E precisa gritar, seu ignorante? Pegue essa porcaria de cerveja e enfie no rabo!

Corcoran não explicou em qual rabo deveria ser enfiada a cerveja. Na dúvida, o Pimpão a enfiou no rabo do bicão mesmo.

 

Com Diego Villanova